Histórias sobre possessão demoníaca já estavam em voga quando alguns filmes verdadeiramente seminais surgiram, trazendo agora uma visão onipresente do mesmo mal. Absoluto dentro do gênero, O Bebê de Rosemary foi o mais famoso a abordar a vinda do Anticristo, por meio da consumação sexual entre uma jovem americana e o próprio diabo, num ritual aterrorizante. Mas nenhum outro tratou o assunto com tanto entusiasmo e detalhismo quanto A Profecia, clássico da década de 1970 dirigido por Richard Donner. Sem a sofisticação técnica, mas com o roteiro igualmente bem estruturado do filme de Roman Polanski, A Profecia manteve-se como um exemplar diferenciado exatamente por abrir mão de recursos manjados, típicos de filmes de baixo orçamento, e apostar na força da sugestão. E sugerir que um garotinho de traços harmoniosos, pele macia e bochechas rosadas seja a encarnação do diabo é simplesmente destruir qualquer chance de arrancar sustos gratuitos – algo a se cogitar seriamente, quando produtores almejam sucesso de bilheteria. Dotado de um orçamento irrisório, especialmente para os padrões atuais, A Profecia foi negado por diversos estúdios, até ser aceito pela Fox, que desembolsou cerca de 2,5 milhões de dólares com os custos de produção e quase 6 milhões com a divulgação. Era uma aposta arriscada mas certeira, e desde o início Alan Ladd Jr., representante do estúdio, não tinha nenhuma dúvida do sucesso.
O filme começa com uma visão bastante sentimental sobre a família – a esposa (Lee Remick) de um importante embaixador inglês (Gregory Peck) está prestes a dar a luz em Roma. Infelizmente a criança morre, e com medo da reação da mulher, o embaixador decide adotar um bebê que acabara de ficar órfão no mesmo hospital, de mãe morta no parto. Coincidências existem, mas não se aplicam ao fato; mais tarde saberemos que o trâmite faz parte de um complô liderado por padres romanos, que tencionam dar ao Anticristo uma família de projeção política, para que já cresça ascendendo socialmente. O embaixador e a mulher recebem a criança com carinho e nos primeiros anos a sensação é de paz e completude, reforçada por uma bela faixa da trilha sonora de Jerry Goldsmith. Contudo, assim que completa cinco anos, o menino recebe uma festa de aniversário na mansão dos pais, e assiste impassivamente, junto a uma multidão tomada pelo pânico, ao suicídio de sua babá, por enforcamento. A câmera de Richard Donner pára por um segundo na expressão horripilante de um palhaço (com maquiagem escura) e depois nos olhos de um cão Rottweiler preto, para determinar que a partir dali o tom de A Profecia será outro.
A mãe é a primeira a ser atingida pelo comportamento sutil, mas nefasto, do garoto Damien. Lee Remick assume a obrigação de transformar um amor intenso num repentino estranhamento, logo após a sequência em que leva o filho ao zoológico e é atacada por um grupo de babuínos enfurecidos com a presença do menino. Retornando à casa, ainda precisa lidar com a nova babá (Billie Withelaw), tão enigmática e soturna, que exala terror. Atormentada pela dúvida sobre as tendências malignas do filho (que começa a irritá-la e causar repulsa), enfrenta o descrédito do pai; Gregory Peck continua demonstrando muita afeição pela jovem criatura e só começa a notar algo diferente quando é abordado por um padre ciente do segredo de Damien. Uma série de mortes e de coincidências mórbidas o leva, então, de volta à Itália, para investigar as origens do filho – episódio que culmina numa sequência avassaladora num cemitério etrusco e brilhantemente montado pela direção de arte, capaz de produzir calafrios. Todo o elenco encontra uma forma crível de lidar com os fatos, de modo que suas composições pareçam bastante aceitáveis (sendo algumas, em especial a do garotinho Harvey Stephens, dignas de sinceros aplausos).
Mas é mesmo na estruturação narrativa que A Profecia escancara seu maior trunfo, e ratifica sua capacidade de estabelecer o medo. Não há cenas grotescas ou sustos programados, só uma atmosfera crescente de tensão e incômodo que vai sendo alicerçada pelo desenrolar do excelente roteiro de Bob Munger, que teria até profetizado algumas “maldições” que ocorreriam nos bastidores (detalhes que geraram um breve e curioso documentário). Outro grande aspecto do filme é a magnífica trilha sonora de Jerry Goldsmith, responsável por grande parte do horror entremeado à película; com o auxílio de um coral essencialmente masculino, ele ecoa o canto gregoriano (muito comum em rituais sacros) para exaltar o profano. O grupo, de voz gutural, até altera a ordem de alguns cânticos católicos, para sugerir a lenda de que músicas ao avesso revelam mensagens subliminares, e performa passagens simplesmente arrepiantes, como a faixa de abertura Ave Satani. Um trabalho inesquecível que rendeu o único Oscar deste filme subestimado pela crítica de sua época, mas justamente transformado num clássico do horror.
NOTA: 9,0
![]()









