A Rede Social

Estamos vivendo uma era curiosa, onde a informatização atingiu proporções incalculáveis, e já não é privilégio de poucos. A massificação dos meios de comunicação – em especial a Internet – atinge níveis inéditos, talvez alarmantes. É a fase da globalização cibernética, onde a rede mundial já não serve apenas como objeto para mera informação, também abriu espaço para o estreitamento de relações próximas ou distantes que, ditas virtuais, causam certa polêmica. Mas elas só existem porque algumas redes sociais foram idealizadas; e é de uma das mais famosas (o Facebook) que o filme mais comentado do ano, A Rede Social, trata.

Criada em 2004 pelo universitário Mark Zuckeberg (Jesse Eisenberg), o Facebook foi um acontecimento inesperado – quando, segundo o filme, Zuckeberg queria apenas montar um acervo virtual que servisse de consulta a centenas de rapazes: informações, para efeito de comparação, algumas até difamatórias, sobre as garotas de Harvard. Claro que ideia surgiu como vingança, após sua namorada romper a relação, acusando-o de egocêntrico e intratável – o que não era mentira. Zuckeberg abre o filme com um monólogo frenético e intempestivo, no qual demonstra à namorada o desejo (muito compreensível) de conquistar respeito e notoriedade. O problema é que estamos diante de um clássico nerd (com o perdão da palavra taxativa); suas relações são restritas, é pouco popular, veste-se de maneira inusual – alguém fadado a atrair piadas, e não a aceitação. Como sua brincadeira virtual se transforma numa rede de sucesso inesperado (são cerca de 27 mil acessos logo no primeiro momento de divulgação), Zuckeberg é alçado, como por encanto, à posição que tanto sonhava, e desperta a atenção dos irmãos Winklevoss; os rapazes são queridos no meio acadêmico e propõem ao até então invisível Zuckeberg, a disseminação da tal rede – de modo que todos tirem máximo proveito do invento.

Esta é a primeira grande polêmica do longa – e um dos processos que o protagonista enfrenta, o de ter se apoderado de ideias criadas ou aperfeiçoadas pelos Winklevoss, simplesmente descartados da empreitada sem prévio aviso (e isto inclui o famoso logo da empresa). Outro processo que mais tarde seria levado às manchetes é aquele aberto por Eduardo Saverin (Andrew Garfield, o brasileiro e co-fundador do Facebook, que foi o melhor amigo de Mark durante a faculdade e que, após participar indiretamente da estruturação da marca, foi dispensado por interesse do empresário Sean Parker [Justin Timberlake], e sob asserção do próprio Zuckeberg). Como a própria história real prevê (o filme foi adaptado do livro Bilionários Por Acaso) estamos diante de um jovem ganancioso que não mediu esforços para atingir um objetivo – que curiosamente se esvai com o desfecho inesperado. É possível enxergar a necessidade que Zuckeberg possui em se afirmar diante das plateias, na ânsia quase insana de obter sucesso e ser reconhecido por algum diferencial. O roteiro nos dá a amplitude exata do protagonista, e mesmo que o transforme, à primeira vista, numa espécie de vilão (optando por vitimizar Saverin), não o julga com rigor; acaba expondo a fragilidade gritante que o alicerça.

Apesar da indispensável aparência documental, A Rede Social escapa dos chavismos graças às atuações – que repudiam completamente o falso distanciamento que Aaron Sorkin (o roteirista) foi acusado de vislumbrar. Eisenberg e Garfield nos aproximam de seus personagens e cumprem perfeitamente o que lhes é proposto, trazendo humanidade num turbilhão de emoções contidas ou visíveis. O maior problema da película reside exclusivamente na direção de David Fincher, que por pouco não pode ser chamada de embuste ou acessório. Ele não consegue nenhum destaque frente aos desempenhos que deveriam, na verdade, acessorá-lo. Se alguém tenta estabelecer a frieza na narrativa e manter-se à distância, é ele; apenas registrar o que se desenrola diante de uma câmera é primário para alguém com tanto currículo. Mas felizmente Fincher não destrói o trabalho dos demais, ele simplesmente se aquieta, se anula – assistindo, de camarote, uma poderosa história ser contada.

NOTA: 8,5        

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11 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

11 respostas para A Rede Social

  1. Amém! Alguém percebeu que Fincher não faz nada fora do normal na direção deste filme…Ufa!

  2. Não entendi. Olha só, acho que um filme só funciona quando o diretor – leia-se: quem dá o aval para TUDO que está na tela – é bom. Me questiono acerca da “indifereça” de Fincher na direção. Acho que o estilo de direção cabe ao estilo de cada obra, como existe uma enorme diferença entre “Seven”, “Clube da Luta” e “Benjamin Button”. Acredito que essa escolha do “distanciamento” foi conivente com a proposta do filme.

  3. Apesar do seu ótimo texto, infelizmente, não concordo integralmente contigo.

    Acho que é um filme bom sim, tem seus méritos e a trama representa bem o mundo que vivemos hoje – em seus aspectos da virtualidade; da relação social; das amizades dúbias e todos os outros questionamentos que o filme faz.

    Mas, ainda que o elenco conceba uma interpretação louvável – de fato Eisenberg e Garfield impressionam, até mesmo Timberlake – eu não achei o filme essa obra-prima não.

    A dinamica exagerada, o senso verborrágico dele, me irritou um pouco…cansou, na verdade.

    Mas, é questão de gosto mesmo.

    Abraço

  4. Natalia Xavier

    Olha, vc é o primeiro que nao endeusou Fincher nas resenhas, rs.

    Concordo com sua critica, A Rede Social é um bom filme, porem esta sendo superestimado demais…

    Gosto de vê-lo pela ótica mais simbólica sobre a solidão de Mark, mesmo tendo conectado 500 milhoes de pessoas. É um reflexo da nossa sociedade moderna, fato.

    Abs!

  5. Não é filme, a meu ver, pra gerar todo esse frenesi da crítica. Tem coisa muito melhor concorrendo aos prêmios esse ano (como, por exemplo, Cisne Negro), mas pelo menos Fincher conseguiu retratar essa geração vazia que anda ganhando os tubos atualmente. Dou um 7,0 pelo conjunto da obra.

  6. Sou daqueles que gostam muito de A REDE SOCIAL. E acho que o êxito da direção do Fincher está justamente na sua discrição. Não há opções radicais esteticamente, experimentações, como em outros filmes do diretor (CLUBE DA LUTA, O QUARTO DO PÂNICO), o que é uma opção bastante interessante, a meu ver. Ao tratar de um tema tão “moderno”, as relações sociais virtuais, Fincher poderia tranquilamente ter optado por um filme que dialogasse, por exemplo, com a linguagem da internet. Mas, ao invés disso, optou por contar uma história em moldes mais clássicos, e se saiu muito bem nesse sentido. Seu A REDE SOCIAL é quase, como alguns críticos chegaram a citar, um CIDADÃO KANE dos dias de hoje. Comparação que carrega sua carga de exagero sim, mas que tem lá sua razão de ser. E ser comparado a KANE não é para qualquer filme…

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