Os filmes de Cannes

Amanhã será entregue a Palma de Ouro em Cannes (prêmio de maior representatividade após o Oscar, e bem menos protecionista), e nenhum dos filmes que estão concorrendo já estreou no Brasil - óbvio, se nenhum foi lançado em  circuito comercial. Cannes é o tipo de festival que deu e sempre dará certo. Um sem número de produções importantes (com realizadores nascidos pelos quatro cantos do mundo) estão à mostra, para serem aplaudidos ou vaiados, enquanto um time de astros e estrelas desfilam elegância (ou não) pelo tapete vermelho e pelo júri de avaliação – presidido este ano por Robert DeNiro e composto por coadjuvantes do nível de Uma Thurman e Jude Law . Cannes é ainda a melhor maneira de prestar reverência à sétima arte - e certamente a cerimônia mais justa no que tange a distribuição de seus prêmios. Nesta edição, de número 64, vinte filmes concorrem à honraria máxima do festival, e não é exagero dizer que estamos diante de uma das mais ecléticas seleções da história. Será que a Palma de Ouro deixará a Europa, e depois de longo jejum retornará aos Estados Unidos? A presença de tantos artistas consagrados – especialmente americanos – e a escolha aparentemente destoante de promover o blockbuster Piratas do Caribe 4 (não verei tão cedo) durante o evento parece sinalizar que o prêmio pode cair sim em mãos nada previsíveis. O poder de Hollywood (ou simplesmente de seus atores) está mais vivo do que nunca em Cannes - e os longas estrelados por Brad Pitt, Kirsten Dunst, Sean Penn, Mel Gibson e Antonio Banderas são os mais aguardados. Aliás, a massificação de um dos maiores expoentes europeus (há alguns anos dito como anti-Hollywood e único promotor da verdadeira arte) poderia ser o início do fim – não fosse o próprio cinema maior que qualquer rivalidade ou estereótipo.

Abaixo, os filmes que concorrem à Palma de Ouro – com destaque para aqueles que imagino serem os melhores dentro de toda a disputa.

THE TREE OF LIFE: O novo filme de Terrence Malick não é esperado ansiosamente a troco de nada. Malick é um cineasta-eremita que em 40 anos de carreira, realizou apenas 5 filmes; e seu novo projeto vem imbuído da costumeira aura mítica – agora também mística, já que questões muito existenciais serão colocadas em evidência. O trailer é simplesmente primoroso – e ainda conta com a presença digna de dois astros americanos, Sean Penn e Brad Pitt (este envolvido na produção e fã assumido do excêntrico diretor). Para mim, é A Árvore da Vida que leva a Palma de Ouro; e se isso não ocorrer, aposte numa quantidade notável de indicações (e possível vitória) no próximo Oscar. Até mesmo porque foi um dos poucos capazes de gerar a discórdia nas plateias, dividindo opiniões (entoadas por uma disputa de vaias e aplausos). E para os fãs incondicionais de Malick (sou um deles), fica difícil aceitar que ignorem mais uma vez seus trabalhos, até o momento impecáveis.

MELANCHOLIA: Se você odeia a pretensão indizível deste dinamarquês, bem vindo ao grupo. Lars Von Trier é o tipo de diretor que se leva a sério demais; trocando em miúdos, considera seus trabalhos irretocáveis. Certamente está equivocado, já que grande parte de suas películas apresentam problemas seríssimos (sim, depende do ponto de vista, mas é óbvio que sua filmografia coleciona mais detratores que admiradores). Melancholia, porém, teve efeito poderoso sobre mim: jamais havia me interessado tanto pelo material de divulgação de qualquer outro filme de Trier. O  elenco é outro atrativo: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, John Hurt… Estrelas demais? Nenhuma tão performática como o célebre diretor, que não deixou de causar polêmica na coletiva de imprensa, ao afirmar a simpatia para com Hitler, além de professar-se nazista. A piada de mau gosto rendeu sua expulsão do festival, e se Melancholia faturar a Palma de Ouro, Trier terá de comemorar em casa. Particularmente acredito que o episódio irá render maus frutos para o longa, que de modo ou de outro sofrerá preconceito perante o júri. Posso estar errado, mas uma vitória de Melancholia alimentaria polêmicas desnecessárias – tudo o que Cannes não precisa no momento.

LA PIEL QUE HABITO: Almodóvar é Almodóvar. Ponto. O que não quer dizer que seja impassível de enganos. E curiosamente, tenho esta impressão quanto ao seu novo filme, A Pele Que Habito (numa tradução ao pé-da-letra). Mesmo que as plateias tenham ovacinado o trabalho do diretor – ao que parece foram aplausos unânimes e calorosos que demoraram a cessar – não fiquei suficientemente tocado pelo trailer, como a maioria. A imagem da atriz mascarada, aliás, me pareceu forçada e excessivamente emblemática. Problema maior (culpa do meu prejulgo) é a presença de Antonio Banderas, ator que considero limitadíssimo dentro e fora dos domínios de Pedro Almodóvar. Diferentemente de Penelope Cruz, por exemplo, que à frente do diretor espanhol está sempre um passo além de seus trabalhos nos EUA. Considerando o carinho enorme que existe entre ambos (bastava observar a desenvoltura que Almodovar e Banderas apresentaram no tapete vermelho), pode ser que o último tenha encontrado verdadeiro desafio em La Piel Que Habito e vencido sua pequenez - embora interpretar um cirurgião plástico caçado por uma antiga paciente não pareça tão promissor. Mas Almodóvar tem poder. Almodóvar é Almodóvar.

DRIVE: A mera presença de Ryan Gosling (sem nenhuma dúvida um dos atores mais fantásticos da atualidade, provavelmente o melhor de sua geração) e Carey Mulligan (nem perca seu tempo imaginando que a moça não entregou bons papéis após a indicação ao Oscar pelo ótimo Educação, porque isto é uma inverdade) já seria capaz de me arrastar para qualquer cinema – são dois atores excepcionais que sempre merecem minha audiência, e Drive, até o momento, é “apenas” um filme estrelado por ambos. Isto porque não conheço o trabalho do diretor Nicolas Winding Refn, já apontado como um dos mais competentes e extraodinários da última década – tendo assinado projetos muito aclamados como Valhalla Rising e Bronson. De posse desta informação, claro, minha curiosidade é cada vez mais crescente. O trailer, infelizmente, deixou a desejar (pouco se sabe a respeito do dublê que atua como motorista para criminosos e passa a ser um alvo após inesperada série de equívocos).

SLEEPING BEAUTY: Depois de A Árvore da Vida, esté é o dono do melhor trailer entre todos os filmes que concorrerm à Palma de Ouro; Sleeping Beauty promete. Primeiro, porque exibe o nome de Jane Campion com o orgulho que tal situação exige – e pouquíssimos profissionais já conseguiram capturar o universo feminino com tamanha precisão. Sim, ela não é a diretora (o longa é dirigido pela novata Julia Leigh), mas há algo de belo, idolatrado e irretocável na atmosfera desta metódica produção. Impossível não se envolver com o perfeito trabalho de fotografia e de som, tão evidenciados no trailer – algo que me remeteu imediatamente ao material de divulgação do soberbo Direito de Amar, de Tom Ford. E tal qual, parece esconder diversos segredos (quem não se arrepiou com a imagem de Emily Browning pálida e coberta numa cama, na última imagem do trailer?). Emily, aliás, deve receber aqui algo à altura de seu talento – execrado no horrendo Sucker Punch.

THIS MUST BE THE PLACE: Talvez Paolo Sorrentino tenha chamado sua atenção quando Il Divo conquistou uma nomeação ao Oscar de melhor maquiagem em 2010 – e acredite, de outra forma, poucos teriam conhecido o talento deste notável diretor. Seu retorno aos festivais segue em grande estilo: aqui, a maquiagem é um personagem essencial dentro da composição de seu personagem central, um roqueiro cinquentão e vítima do ostracismo. Uma peruca gritante, óculos escuros, muito delineador e batom: assim é a imagem de um homem que parte em busca do assassino de seu pai, em plenos EUA. E o melhor: este homem é interpretado por Sean Penn, que passou todo o festival com cara de poucos amigos, mas ainda é (e sempre será) altamente respeitado pelos cinéfilos. Uma nova indicação ao Oscar pode estar a caminho – e se tratando do talento de Penn, uma terceira estatueta não seria exagero e muito menos injustiça.

LE GAMIN AU VÉLO: Mesmo que o novo projeto dos irmãos Dardenne pareça uma releitura menos impactante da obra anterior, A Criança, mantenho sérias expectativas quanto à Le Gamin au Velo (versão francesa daquilo que seria The Boy with a Bike, ou O Garoto de Bicicleta). Filmes de arte que envolvam bicicletas podem trazer à tona lembranças maravilhosas – ora, quem não é apaixonado pelo filme do lendário diretor italiano Vittorio de Sica, Ladrões de Bicicletas? E embora o longa dos Dardenne não parta da mesma premissa, há algo idêntico na essência de ambos: a relação estabelecida por pai e filho (matéria comum e frequentemente exultante no cinema europeu). Aqui, porém, a problemática não se concentra na convivência, mas sim no abandono. Le Gammin au Velo tem tudo para penetrar em minha mente – e a presença da queridíssima Cecile de Fránce é outro ótimo aspecto a ser levado em conta.

WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN: Se você detestou Tilda Swinton em Benjamin Button, ou simplesmente considerou sua performance descartável (faço parte deste grupo), é bom saber que a atriz inglesa não encontrou sua força máxima ao interpretar a vilã de Conduta de Risco – a ponto de que tudo o que viesse em seguida assumisse impacto menor. Desde já aposto que sua atuação em We Need Talk About Kevin tem tudo para superar qualquer outra em sua vasta carreira – a ponto de uma nova indicação ao Oscar ocorrer como consequência natural. Os poucos instantes da atriz no trailer são realmente fantásticos – os olhares, os gestos, os pequenos rompantes. E tudo observado com desdém por um filho que acaba de cometer um crime. Sim, a culpa recai sobre os pais (ela sempre recai), que acreditam não tê-lo educado com valores suficientes – e este ponto é o mote central deste esperado filme. O marido é interpretado pelo grande John C. Reilly (um dos atores mais versáteis, confiáveis e atuantes do cinema). Por que eu iria perder?

Fora de competição, mas vale a pena ficar de olho:

MIDNIGHT IN PARIS: Mais falou-se na provável gravidez de Carla Bruni (para mim uma gravidez providencial em busca de votos) que propriamente de seu filme, Midnight in Paris. Seu filme, não. Melhor corrigir. A primeira-dama da França empresta o charme em pequena participação, mas quem deve brilhar mesmo é Woody Allen, o diretor mais workaholic da história moderna. Tanto trabalho, aliás, tem deixado vestígios indeléveis na maioria de seus últimos filmes – acusados de serem corretos, mas pouco envolventes e realmente eternos (vale lembrar que na década de 70, Allen fez nada mais que 4 ou 5 filmes eternos). Várias críticas parecem atestar o contrário em Midnight in Paris (e a torcida vai à loucura): Allen parece ter encontrado o elo perdido com seu passado. Sim, pode parecer exagero esperar um novo Manhattan, mas dado o teor dos ânimos acerca de seu novo projeto (que abriu o festival), temos motivos de sobra para acreditar que o grande Woody Allen voltou à velha forma.

THE BEAVER: Jodie Foster disse, durante à premiére em Cannes, que Mel Gibson é o ator mais querido da América. Ainda bem que os estadunidenses consideram apenas seu país como América, porque Gibson nunca foi e jamais será o ator mais querido no Brasil – e tampouco meu ator favorito. Polêmicas de espancamento à parte (ontem um jornal britânico fez piada com o pôster do filme, modificando o nome para The Women Beater), Gibson não atrairia minha curiosidade, não fosse sua atuação tão elogiada por uma série de veículos voltados ao cinema. Será que realmente conseguiu provar aos meus olhos que tem talento em frente às câmeras? É aguardar. Outra expectativa é quanto à participação da própria Foster e de Jeniffer Lawrence (que já poderia ter revelado seu talento neste trabalho, não fossem os escândalos de Mel Gibson e sua ex atrasarem o lançamento em mais de um ano).

RESTLESS: Poderia dizer “Gus Van Sant é Gus Van Sant“. Mas ele refilmou Psicose, então não o considero como entidade impassível de erro. Mia Wasikowska é a atriz principal deste sensível longa (e espero realmente que a atriz alçe voos cada vez maiores em Hollywood, visto que ainda exista muito talento guardado dentro de si); ela será uma adolescente que descobrirá o amor na companhia de um jovem, assíduo espectador de enterros. Percebo, pelo pouco exibido, que Restless é uma obra bastante autoral, ou seja, não é encomendada por nenhum estúdio disposto a receber todos os prêmios da temporada. Isto significaria, portanto, um adeus às aspirações de Oscar que tenho para Van Sant (diretor admirável e do qual sou fã) – algo como Garotos de Programa, que rendeu ao saudoso River Phoenix o prêmio em Veneza, mas chegou ao Oscar sem nenhuma expressividade para seu diretor. Em Cannes, o filme aparece com o caráter especial de quem não concorre à Palma, mas encabeça a mostra “Um Certo Olhar”. E quem disse que os filmes selecionados para tal não podem brilhar mais que os outros? Muita expectativa!

Lista completa com os filmes de Cannes aqui.

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2 Comentários

Arquivado em Cinema, Festivais

2 respostas para Os filmes de Cannes

  1. Excelente post Weiner. Estou curioso para ver todos os citados em seu texto. Gostei do trailer de Melancholia, apesar de ter uma relação de amor e ódio com os filmes de Von Trier (adoro Dançando no Escuro e odeio Anticristo do mesmo modo que acho Dogville bacana e irritante com aquele cenário teatral).

    Não poderia dizer sobre Gus Van Sant já que me ocorreu que até hoje eu não vi nada da filmografia do diretor.

    Estou curioso com “A árvore da vida”, o trailer é sensacional :D

    Enfim, mais uma vez: ótimo post!
    []s

  2. Acabou que venceu “The Tree of Life”, quando eu esperava que “The Artist” fosse ser o vencedor…

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