Missão Madrinha de Casamento

Quem nunca teve um amigo muito íntimo, que passou boa parte da infância e adolescência ao seu lado, e a certa altura da vida tomou caminho muito diverso daquele que você escolheu? A amizade, até então forte e aparentemente eterna, começa a se enfraquecer; o contato já não é tão frequente, as ideias passam a divergir – até que num determinado momento você o vê ao lado de outro melhor amigo, mais conectado com a realidade que ele vive, com mais tempo e disposição para falar sobre os assuntos que se tornaram prioridade àquele sujeito que você conhecia tanto. Missão Madrinha de Casamento aborda este tema, e ele é a essência da trama. Todavia, esta problemática, que naturalmente penderia para o drama, é inserida numa narrativa bastante cômica – que no fim das contas não foge do padrão de Hollywood, mas lança certo frescor sobre o gênero. Certamente isto se deve ao excelente elenco, encabeçado por Kristen Wiig, Rose Byrne, Maya Rudolph e Melissa McCarthy.

O longa-metragem começa no exato instante em que tomamos a percepção de que nossos principais valores precisam ser substituídos. É o momento em que nos aproximamos dos trinta (ou passamos deles) e já não é mais suficiente manter relacionamentos efêmeros. Naturalmente esta preocupação afeta o sexo feminino com maior intensidade – porque uma mulher raramente se contenta com sexo casual; ela sempre procura por algum tipo de envolvimento mais forte. As melhores amigas Annie (Wiig) e Lillian (Rudolph) têm uma rotina de muita liberdade, pois ambas estão vivendo relações descompromissadas: enquanto a primeira troca de parceiro com certa frequência (o atual é vivido preguiçosamente por Jon Hamm, de Mad Men, o que atesta a dificuldade de ótimos atores de TV em encontrar bons papéis), a segunda está namorando há um bom tempo. Um dia, contudo, Lillian é pega de surpresa com uma proposta de casamento, e a preparação da cerimônia passa a ser o foco da narrativa. Inicialmente, Annie lida bem com a notícia, mas quando percebe que seu futuro aparentemente lhe reserva a solidão, começa a entrar numa profunda crise – que só se agrava quando Lillian troca sua companhia pela de Helen (Byrne), uma milionária que namora um colega de trabalho de seu noivo.

A crise que abate a protagonista (“cheguei ao fundo do poço”, diz ela seguidamente) reserva os momentos mais inteligentes e banais da trama. Kristen Wiig participou da elaboração do roteiro, e com certeza sentiu segurança para interpretar personagem tão inconstante. Há momentos em que Annie reflete sobre seu comportamento inapropriado, colocando rédeas sobre a personalidade indômita, mas passa maior parte do tempo surtando e provocando algum tipo de problema (os mais divertidos estão concentrados na segunda metade do filme, quando a moça se envolve com um policial ou quando tenta, em desespero, retomar a atenção da amiga). Porém, como todos os filmes de comédia, há situações puramente descartáveis, que infiltram no roteiro com a única intenção de provocar risos fáceis – quando não constrangedores. A sequência em que o grupo de amigas vai almoçar num restaurante brasileiro e logo depois a uma prova de vestidos, é entremeada com piadas pobres, elementares e de gosto muito duvidoso. Ridículas, especialmente quando você percebe que estão no mesmo filme capaz de entregar cenas de alto nível, como aquela em que Helen e Annie disputam um microfone ou quando a protagonista apronta um “motim” dentro de um avião. Quem acaba recebendo maior espaço nas cenas escatológicas é Melissa McCarthy; seu desempenho é digno, mas infelizmente é obrigada a aceitar associação tão patética com seu sobrepeso.

Não é possível compreender tamanha adoração da crítica por Missão Madrinha de Casamento. É um filme que alcança o diferencial por conta de suas atrizes – firmes no propósito de potencializar o efeito de cenas acima da média e de entregar alguma dignidade àquelas que deveriam ter sido abortadas na leitura final. Mas daí a considerá-lo material indispensável, presente em dezenas de listas que elegem os melhores do ano, me parece pedante. Talvez a imensa precariedade das comédias atuais, que encontram subsistência apenas na exploração incessante do sexo e da baixeza humana seja o maior motivo. Detalhe: Missão Madrinha de Casamento, considerada por muitos especialistas como o Se Beber Não Case! do público feminino, precisa de cuidado redobrado quando preparar sua sequência (que até o momento parece certa); assim como o filme de Todd Phillips, o assunto parece ter se esgotado já no primeiro episódio. Quem viu Se Beber Não Case! -Parte II sabe bem do que estou falando.

NOTA: 7,0        

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4 respostas para Missão Madrinha de Casamento

  1. Não gostei muito de Bridesmaids, para falar a verdade não sei nem dizer o porque, simplesmente não consegui ri das piadas do filme. Estou até receoso por esse filme, pela repercussão lá fora, foi indicado ao Producers Guild Awards e começo a temer pelo Oscar (não acredito que entre, mas nunca se sabe).
    Abs.

    • Weiner disse:

      JONATHAN, como disse na crítica, há momentos e momentos. Alguns, como a “guerra” no microfone, toda a cena do avião, o surto com o biscoito gigante, e outras, são realmente muito boas. Já a prova de vestidos, toda a cena no restaurante e as “maneiras de chamar atenção de um policial”, entre outras, são péssimas. É um filme que me dividiu. Poderia dar um 6, talvez – mas a presença de um elenco tão afinado deu brilho ao longa, e a nota subiu. Sobre o “sucesso” lá fora, concordo com você; não acho que mereça destaque no Oscar e as indicações ao PGA são bem exageradas. Abraços!

  2. Kamila disse:

    Eu acho que esse filme traduz muito bem como é a amizade entre mulheres. Principalmente no enfoque da rivalidade, do ciúme e da inveja. A trama lembra muito a do episódio “The One With Monica’s Thunder”, de Friends. Sei que, do elenco, todo mundo fala na Melissa McCarthy, mas, pra mim, os grandes destaques são Kristen Wiig e Rose Byrne.

    • Weiner disse:

      KAMILA, é verdade. As mulheres identificam isso sempre quando veem o filme, e os homens têm chance de aprender a respeito. Não me lembro agora em detalhes deste epsiódio de Friends, mas se não me falha a memória, você está mesmo certa. A respeito de Melissa, também concordo: minha preferida é, na verdade, Kristen Wiig – até com certa folga.

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