Muitos criticam a tradução que a distribuidora brasileira de Rabbit Hole deu ao seu produto. Reencontrando a Felicidade parece um título bastante apropriado para um drama barato e de pouca representatividade – e soa fácil demais quando associado a um filme que não deseja defender qualquer propósito. Aliás, o grande trunfo do filme de John Cameron Mitchell é abordar uma passagem extremamente trágica com a mesma indiferença da vida; a desgraça cai sobre a família, mas o território que vai além das paredes pouco se altera; chega a ser cruel deixar as casas e perceber que a cidade, o país, o mundo, estejam tão irritantemente indiferentes à dor daquela família. Na verdade, o “buraco do coelho” (tradução literal) é uma via de mão dupla; se a associação imediata é com o personagem que leva Alice à toca que serve de passagem ao País das Maravilhas, é lógico que esperemos por um rebuliço, uma ameaça à segurança outrora estabelecida. Por outro lado, a entrada de Alice naquele buraco representava, já no princípio, ansiedade em deixá-lo – não sem antes provar de todos seus dissabores. Assim é a perda de um filho. Um abalo desconcertante sobre nossas vidas, que será, mais cedo ou mais tarde, amenizado.
Reencontrar a felicidade não é, em momento algum, uma certeza na vida de Becca e Howie Cobbert (interpretados por Nicole Kidman e Aaron Eckhart). O filho de pouca idade acaba de ser morto num acidente e ambos precisam lidar com tamanha injustiça. E pior, com a culpa. Impressiona como o ser humano sempre encontra maneiras de culpar o outro, e quando não encontra, de culpar a si próprio – como se coubesse a alguém determinar os delineamentos do destino. Quando percebe que isso é destrutivo e que não traz soluções (apenas aumenta a dor), é forçado a tratar a culpabilidade e transformá-la em resignação. Se por um lado Howie compreende esta dinâmica com mais naturalidade, Becca insiste em alimentar uma revolta que se habitua ao estado latente. É como se ela desafiasse todos que estão à sua volta – demolindo crenças, ignorando escusas, desprezando ferramentas de alívio – e devolvesse à vida toda a indiferença que recebe. Ela não quer aceitar o fato, quer apenas sobreviver a suas consequências. Todavia, a força da lembrança, tamanha (Mitchell usa de uma singela casa de subúrbio para fazer as memórias da criança gritarem) e a insistência de seus amigos e parentes em vê-la superando a perda, contamina-a como uma doença. Por raras vezes, o golpe pode ser contido, mas quando a atinge, o efeito é avassalador.
O roteiro de David Lindsay-Abaire, adaptado de peça homônima, dá aos pais o direito de chorar. A câmera de Mitchell, aliás, assiste ao desespero com despretensão, de modo que ele seja repassado brilhantemente à plateia. É possível que o espectador não derrame uma lágrima durante toda a película, mas uma semente amarga germina no coração. No mínimo, Reencontrando a Felicidade irá provocar uma estranha sensação de vazio, de vulnerabilidade, de medo. Quando não de descontrole. E é aqui que mora a grandeza deste trabalho de direção; empurra-nos no abismo com os protagonistas, sem jamais tomar partido daquela imensa dor. Mas ela está ali. E podemos senti-la. Há ainda uma discussão muito saudável a respeito do perdão e do orgulho, impressa em sequências importantíssimas à narrativa – detalhe que suscita polêmica e serve mais como uma ordem natural a ser acatada que propriamente um caso de injúria à memória da criança morta.
Discorrer sobre o fantástico desempenho de Aaron Eckhart, e principalmente, a respeito da iluminada atuação de Nicole Kidman é realmente desnecessário. A entrega de ambos à problemática é tão intensa, tão visceral, que se faz inútil defendê-la aqui; a encenação é tão dolorosamente real que se justifica por si. Se Becca e Howie tomam caminhos muito opostos na busca por alívio e, sobretudo, se compreendem ou não como se livrar da culpa, invariavelmente acabam na mesma encruzilhada. Porque se existe, de fato, lógica no destino, é apenas uma: a de que a felicidade, em casos como este, jamais pode ser reencontrada. Mas talvez possa ser redescoberta.
NOTA: 8,0
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