O Espião Que Sabia Demais

Para aqueles que tiveram a sorte de conhecer a obra do escritor britânico John Le Carré através do cinema, mais especificamente por meio da adaptação de Jeffrey Caine ao livro O Jardineiro Fiel (esqueça o fato de três outros livros terem sido adaptados anteriormente, sendo A Casa da Rússia o mais expressivo em bilheteria) fica a certeza de que aquele filme passou uma imagem equivocada a respeito do conteúdo da obra de Carré, como um todo. Isso se deve não somente ao enredo de O Jardineiro Fiel, que de certo modo aproximava o público dos conflitos de seus personagens, mas principalmente à direção de Fernando Meirelles, que deliberadamente ou não, dedilhava um território bastante sentimental. Fato é que Carré, até o início da década de 90 (O Jardineiro Fiel foi publicado em 2001) centrava suas tramas no universo da espionagem – intocável a 99% do grande público –, e só depois da maturidade resolveu diversificar seu nicho de exploração, tornando-o ligeiramente acessível. E qualquer livro que você decida enfrentar antes desta época, revelará, além da óbvia escrita sutil e detalhista (marcas que permaneceram), uma narrativa maçante, impenetrável e quase sempre difícil de suportar.

Terminei apenas dois livros do escritor, é verdade. E como sofri. O Espião Que Veio do Frio e A Casa da Rússia forma suficientes para lança-lo dentro daquele grupo de literatos que definitivamente não são prioridade em minha estante. Quando outra adaptação ao cinema foi anunciada (O Espião Que Sabia Demais, tipo de tradução que empobrece a ideia original do autor) minhas expectativas não eram as maiores. Fora os motivos lógicos, não me agrada o fato da história ser inserida no período em que Estados Unidos e Ex-União Soviética vivenciaram a experiência mais marcante de suas políticas: a Guerra Fria. Esse “embate” foi marcado pela não-guerra entre as duas potências, onde a iminência de um Terceiro Grande Conflito transformou não apenas os diretamente envolvidos, mas todo o mundo, num lugar especialmente intolerante e ameaçador. O roteiro contempla a posição do Serviço Secreto Britânico em meio à disputa dos países, e as decisões que foram necessariamente tomadas para aproximar os espiões da Rainha da nação “irmã”, os Estados Unidos. Numa destas operações, alocada em Budapeste, algo inesperado põe em pauta o teor de lealdade dos espiões envolvidos – o que não apenas custa o cargo de um dos chefes da organização, como lança meia dúzia de subordinados em aposentadoria forçada. Um deles pode ser o traidor, e George Smiley (Gary Oldman), estranhamente acima de qualquer suspeita, é designado para elucidar o caso.

Metaforicamente, o ambiente soturno, de fotografia terrosa e obscura constrói uma atmosfera dormente – não só reforçada pelo local onde a trama se desenvolve (a Londres invernal), mas, sobretudo pelo estilo de vida dos personagens. É possível observar como a vida passa calmamente (se isso é possível numa metrópole), enquanto um grupo de homens de outro mundo está encerrado em salas impessoais, participando de reuniões confusas, tramando contra inimigos invisíveis. A sombra da morte é companhia frequente, mesmo que ela não se revele puramente. Por outro lado, ao delinear o alvo, surpreende quão trivial é preparar a emboscada; puxar o gatilho; proteger, mecanicamente, o interesse maior. O Espião Que Sabia Demais nos transporta à realidade destes profissionais de maneira inteligente, pois abandona a deliciosa mentira pregada pela série James Bond e deixa claro que, mesmo existindo mulheres e dinheiro à disposição, o trabalho jamais é encarado como aventura – porque mal feito, significa risco real de perder a vida. Logo, presume-se que a adaptação de Bridget O’Connor e Peter Straughan desmitifica o ideal hollywoodiano e aproxima-se mais do que nunca à realidade descrita por John Le Carré; sim, é verdade; o problema é que a realidade, aqui, é perigosa mas aborrecida, aborrecida mas perigosa.

Por isso não surpreende perceber que todos os personagens, interpretados por grande elenco (que além de Oldman, conta com John Hurt, Benedict Cumberbatch, Colin Firth, Tom Hardy e outros) buscam algum jeito de satisfazer suas vaidades, maiores à impessoalidade da espionagem; ora, no fim das contas, todos não passam de elementos vulneráveis dentro do jogo – analogia reforçada pelo rosto de cada fixado em peças de xadrez – e sabem perfeitamente que seus desejos, paixões, aspirações e interesses serão sumariamente ignorados quando se fizer necessário. Então, é preciso identificá-los o quanto antes, e defendê-los. O Espião Que Sabia Demais é um protesto discreto e sofisticado ao sistema, que atesta a fragilidade da vida humana e a futilidade dos inúmeros conflitos que surgiram da má comunicação entre os povos. Ironicamente, denuncia também o nascedouro de toda essa desavença: a busca incessante do ser humano em ser notado, em deixar vestígios de sua passagem. Nem que para tanto precise ir contra ou a favor de seu meio.

NOTA: 8,0      

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10 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

10 respostas para O Espião Que Sabia Demais

  1. Estou lendo o livro no qual se baseia este filme e achando a trama muito confusa. Quando eu acho que estou entendendo o filme, surge uma nova informação e eu fico completamente perdida de novo. O trabalho de adaptação desta obra deve ter sido desafiador. Isso, e os elogios recebidos pelo filme, claro, são os dois elementos que mais me deixam curiosa para assistir a este longa.

    • KAMILA, a adaptação certamente foi desafiadora. Qualquer pessoa que se aventure em tranformar os livros de John Le Carré em filme já sabe que o trabalho será duro. Eu não faço mais questão de ler livros do escritor britânico, mas O Espião Que Sabia Demais está entre minhas prioridades – estou curioso para acompanhar como foi o processo de adaptação, especialmente agora que foi lembrado no Oscar.

  2. Estou doido pra ver esse filme. Será que vai ser mesmo indicado ao Oscar de fotografia?

    • ANDERSON, é um bom filme. Tem problemas na fluidez da narrativa, mas ainda assim vale a pena. E como deve ter visto, não foi indicado ao Oscar de fotografia. Mas surpreendeu com lembranças em roteiro adaptado e ator.

  3. Otavio Almeida

    Interessante a sua visão sobre o filme. Pode ser sobre vaidade mesmo. E sobre várias outras coisas. Menos sobre espionagem.

    Abs!

    • OTAVIO, justamente. O filme usa a espionagem como um grande pano de fundo, para na verdade, analisar as características de seus personagens. Eu, só vi vaidade. Vaidade nas relações antigas, vaidade na ganância em ascender profissionalmente, vaidade na ânsia de encontrar um par, etc. Muita vaidade. E eles estão certos! São espiões, estão em perigo constante. Precisam encontrar um modo de deixar suas marcas. Antes que saiam, inertes, do jogo. Abs!

  4. Finalizei a leitura do livro semana passada e achei confuso e lento. E, não sou de sentir isso em um livro de espionagem. Espero que o filme seja menos chato e com mais ritmo que o livro. rsrs.

    Beijos! ;)

  5. Confesso, tenho preguiça de assistir a esse filme… Mas adoro Gary Oldman. Ele será a razão para eu conferir “O Espião Que Sabia Demais”!

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