Nunca um filme sobre a inveja e o despeito entre irmãos foi tão satírico, explosivo e nervosamente engraçado: O Que Terá Acontecido a Baby Jane? é um retrato impiedoso sobre o ostracismo, que chega àqueles que experimentaram a fama de maneiras opostas, mas não mais ou menos cruéis. Bette Davis, que dá vida à Jane do título, foi uma criança prodígio, que conquistou sucesso ao encarnar uma personagem angelical, loira, adorável – que cantarolava A Letter for Daddy (Uma Carta para Papai) do modo mais doce possível. Idolatrada por multidões, desenvolveu uma personalidade egocêntrica e intratável, com doses de sadismo (repare na cena em que a menina chantageia o pai para conseguir um sorvete, diante do público afoito). Baby Jane tinha uma irmã, Blanche, que à época era insossa e vivia à sombra de seu sucesso. O destino, porém, virou a mesa para ambas, quando transformou Jane numa adulta esquecida e desprezada pela crítica. Blanche (Joan Crawford), por sua vez, assumiu a carreira de atriz e conquistou respeito e admiração por todos na vida adulta. É aqui que nasce a primeira fagulha de inveja – um sentimento tão destruidor, que fará a relação das duas ruir definitivamente. A súbita paraplegia de Blanche, no auge da carreira, serve de consolo para a crueldade de Jane, que passa a ser sua tutora – e a isola numa casa antiga e mal cuidada.
Se ouvir que o filme é sustentado pelo embate entre as atuações das divas Davis e Crawford, não ouse duvidar. O roteiro de Lukas Heller é poderoso, irônico – toca em medos viscerais da classe artística, que parece frequentemente assombrada pelo fantasma do esquecimento -, mas é nas performances arrebatadoramente distintas das duas atrizes que os 130 minutos da projeção se sustentam, pois, no fim das contas, a história nada mais é que uma sucessão de embates entre ambas. Davis encarna uma perversidade risível ao fantasiar-se com as mesmas roupas de sua infância, (os cachos louros e a maquiagem berrante que quase a assemelham a uma criatura inofensiva), na verdade a transformam num demônio ressentido e vil, que até o momento não aceita o sucesso da irmã. Claro, Blanche, mesmo presa à uma cadeira de rodas, ainda se beneficia com as reprises de seus filmes – verdadeiros sucessos nas exibições televisivas, e experimenta uma espécie de sucesso eterno que se contrapõe à sua situação limitante e finita. Crawford está sublime enquanto irmã lunática – sim, ela parece não acreditar que Baby Jane quer seu mal -, entregando através de expressões serenas ou atormentadas, todo o carisma necessário à sua personagem. A composição de ambas é perfeita, e acho arriscado apontar uma que se sobressaia, mesmo que Davis seja aparentemente beneficiada pela amplitude moral de um vilão – que oscila entre atitudes compreensíveis e condenáveis.
O prazer maior deste longa é observar as gargalhadas macabras de Bette Davis ao servir um rato para a irmã, que retribui com a melhor das expressões de espanto e repulsa já vistas no cinema. E outro enorme prazer é constatar que estamos diante de seres humanos incapazes de estabelecer comunicação. Um abismo de ódio impele Jane aos mais sádicos atos – mas é possível enxergar que ali existe uma criança que não soube crescer, uma menina que sente-se incapaz de demonstrar respeito pela irmã, pois se tornou uma escrava cega da insegurança e da inveja. O Que Terá Acontecido a Baby Jane? é um exemplo clássico da vulnerabilidade humana à exposição midiática e do que o sucesso é capaz de fazer com mentes imaturas. Apesar do roteiro “esconder” o problema com situações hilárias, o filme é dotado de grande poder reflexivo.

















Adoro o filme, não só por juntar duas atrizes do calibe como Davis e Crawford (por conta da rivalidade, imaginar gravar um filme com as duas? deve ter sido um tormento! rs), mas também pela ferida que o filme toca. Do que se propõe, o filme é mesmo um dos melhores. Acho incrível o visual da Davis fazendo um contraste com o passado, realmente, isso já basta para deixá-la assombrosa, ainda mais se aliando com sua excelente atuação
ALAN, é curioso mesmo. Aliás, lembro de ter lido que, na década de 1930, ambas travaram uma “luta” nos bastidores, para descobrir quem levaria o papel de Scarlett O’Hara. Acabaram sem o papel, por serem consideradas velhas demais – ainda que fossem as aspirantes mais famosas. Acho também que o filme perde um pouco de sua força reflexiva, pois, num primeiro momento, a atmosfera de deboche e ironia esconde o problema central. Mas isso não passa despercebido aos cinéfilos de verdade, que além de se deliciarem com duas grandes atuações e se divertirem com as guinadas do roteiro, sabem identificar o tamanho do problema vivido pelas irmãs.
Adoro “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, que é divertido mesmo em seus momentos escancaradamente toscos. E a Bette Davis, aqui, está sensacional!
MATHEUS, sem dúvida o que há de melhor no filme são as atuações!