Não sou uma mulher, mas como todos os homens do mundo, tenho uma mãe. E sei de todo o processo por qual ela passou. A concepção biológica, aliás, é uma das tantas coisas que unem os seres humanos, transformando-os numa matéria preparada em moldes iguais. O que vem depois o nascimento é que diferencia cada um, porque é a partir dali que teremos o esboço (e depois o produto) de nossas particularidades, frequentemente influenciadas por aqueles que nos criaram. Tilda Swinton (em grande atuação) é mãe em Precisamos Falar Sobre o Kevin – e como o próprio título sugere, Kevin é sua cria. Logo nos primeiros momentos da gestação (que surge inesperadamente) todo o público recebe da atriz a sensação descrita anteriormente: é possível perceber quais são os sabores da maternidade. Curioso, porém, é constatar que esse sabor pode apresentar algumas variações, a ponto daquele mais acre dominar aquele mais doce; e não se trata de um termo fácil, como muitos tentam taxar; o período gestacional da personagem de Tilda é mostrado de maneira que as mães sintam-se no direito de expressar receios e sérias inseguranças. Geralmente, as mulheres são pressionadas a aceitar tal condição com bravura social – ora, não é porque a natureza dos organismos obedece ao instinto da procriação que todos devem aceitar o fato com a felicidade mais utópica.
Não que a personagem de Tilda expresse claramente tal sentimento – senão em um momento de irritação passageira – mas só assim muitos encontraram uma razão para justificar o tamanho da agressividade do pequeno Kevin. Impressiona como o garoto repudia tudo o que vem da mãe, desde a ação mais terna até os momentos em que tenta expor sua autoridade. O ódio que a criança sente pela mãe (acredite, aquilo não é indiferença) serve de combustível para a construção da trama, que nos seus primeiros instantes é realmente ótima. Em verdade, valeria delinear com precisão o que seriam estes primeiros instantes – já que o editor Joe Bini trabalha de acordo com uma narrativa não linear; com exceção da cena de abertura, em que Tilda é carregada por um grupo de pessoas, em meio à clássica guerra de tomates (predomínio de um vermelho que chega a ferir os olhos), as demais referências ao tom são insistentemente (e irritantemente) atiradas no contexto. A diretora Lynne Ramsay comete um erro desnecessário, já que o efeito desejado teria mesmo (ou maior) impacto se utilizado de modo mais sutil. Fora as vermelhidões, a primeira metade é excelente porque joga a responsabilidade sobre Tilda Swinton; ela precisa demonstrar porque não consegue lidar com aquela criança (Jasper Newell emprega grande talento à composição), sem que pareça fraca, infantil ou vitime a si mesma. Afinal, o pai (John C. Reilly, mais “Mr. Celofane” que nunca) está pronto a lembrá-la: “Kevin é apenas uma criança”.
O que até então parecia uma fase difícil, mas possivelmente superável, transforma-se numa certeza assustadora. Kevin continua a odiar a mãe – só que agora estende indiferença ao mundo. E é exatamente na entrada de Ezra Muller (que encarna Kevin adolescente) que o roteiro perde a força e cai na armadilha das especulações. Tilda e Reilly têm outra filha, que funciona como peça central de uma ou duas barbaridades inexplicáveis – barbaridades, aliás, que irão dominar o ato final e elevar a psicose doméstica de Kevin a nível (novamente) inexplicável. O ator Ezra Miller compreendeu a proposta do personagem, legando ao jovem uma expressão curiosa, algo entre o vingativo e o blasé; pena é que, se isso reforça a ideia de que Kevin é uma pessoa má e convicta, não elucida as diversas perguntas que ficam no ar após o término da sessão. Kevin não podia ter sido tratado como um personagem de filme de horror. Ele é, naturalmente, uma fonte riquíssima para qualquer roteirista, e em nenhuma hipótese devia ser abandonado, esquecido – como um monstro que aparece em cena para executar suas calamidades, enquanto a mocinha agoniza. Independentemente do que preconizava o livro de Lionel Shriver, do qual o longa-metragem foi adaptado.
Mocinha, aliás, Tilda Swinton não é. Mesmo que pareça. Há uma montagem levemente explicativa que prova isso – algo que me remeteu imediatamente à Persona, de Ingmar Bergman. A mãe imerge o rosto na água. Corte. Kevin imerge o rosto na água. Corte. Volta para a mãe. É uma questão de segundos, mas a semelhança dos atores caracterizados realmente intriga. Existe algum detalhe omisso que tenta apontar uma ligação ainda maior que maternidade e descendência. Talvez uma ponte que levasse à resposta de questões que ficam em aberto, mas ainda assim uma ponte imaginária. Deliberadamente, deixei o nome da protagonista oculto até o momento, porque ele poderia ser o maior indicativo de culpa – o que transcenderia a obviedade da rejeição e poderia, eventualmente, lançar-se numa investigação de vidas passadas. Eva. Há pecado em Eva. Um pecado tão forte que desonrou aqueles que estavam ao redor e provocou uma reação de desapontamento profundo, e, portanto, punição. Em uma cena curiosa, Eva dirige o carro, à noite, enquanto crianças fantasiadas para o Halloween retribuem seus olhares de espanto – as máscaras espectrais atestam que Eva tem razões para sentir medo. O problema é que, aprofundar-se na discussão de carmas e vidas pregressas abre um terreno especulativo demais para uma história que pretende ser tão realista e objetiva. Isso naturalmente se contradiz, e faz de Precisamos Falar Sobre o Kevin um verdadeiro incógnita. Há momentos em que se pode gostar deste tipo de proposta, mas aqui isso não funcionou.

















Eu gostei do filme, é difícil achar algum projeto que fale sobre esse assunto. E Tilda Swinton teve a minha atuação preferida da temporada. Uma pena que não foi indicada ao Oscar.
PELÍCULA CRIATIVA, realmente Tilda Swinton merecia uma indicação ao Oscar!
Eu já gostei mais do filme. E passo a gostar ainda mais pelos trechos que reserva aos elogios e a observação com Eva. Pelo o que reparei é que algumas coisas soaram irritantes e especulativas, enquanto para mim acrescentou a obra. E acho a atitude de Kevin justificável quando este em dua adolescência buscava surpreender a mãe a qualquer custo. Enfim, escrevi também sobre ele no Blog.
Abraço!
ALYSON, obrigado pelos elogios, e de fato é curioso que eu tenha feito você admirar ainda mais o filme. Na verdade, vejo muitas intenções na trama, muita riqueza ofuscada por aparente superficialidade e pretensão. Não me senti completo a respeito das resoluções apontadas (que são mínimas), nem tampouco à abordagem cretina que o roteiro presta a Kevin, personagem tão interessante. Abraço!
Legal saber que nem todos foram tomados por esse surto coletivo e dizer que este é um grande filme. Antes, porém, é muito mais uma grande atuação e só. Tem suas devidas ressalvas, naturalmente.
Detalhe: só agora notei que o seu blog tem o mesmo nome daquele minissérie global… rs.
Abs.
JOSÉ FRANCISCO, a crítica em geral abraçou a ideia de Lynne Ramsay, mas particularmente achei o filme bem equivocado. E a minissérie tem o mesmo nome do meu blog, não o contrário – estou no ar desde 2010!
Adorei tua crítica! E essa comparação com Eva??? GENIAL! Também acho o filme falho em alguns momentos, principalmente na construção de Kevin. Enfim, Tilda é um monstro.
LUÍS, obrigado pelo elogio! A construção de Kevin é frívola, cretina, não se faz isso com o público. Se quisesse ver um filme de terror, com um maníaco, procurava por qualquer bobagem do Freddy Krueger. E Tilda também é um monstro, mas no bom sentido!
Quero muito assistir a este filme, Weiner. Especialmente por causa da abordagem narrativa do tema central do longa e por causa da atuação elogiadíssima da Tilda Swinton.
KAMILA, depois descobriremos de qual grupo você fará parte. Daqueles satisfeitos ou daqueles frustrados.
Como venho escrevendo em vários blogs que também referem essa planificação, unidimensionalidade do personagem de Kevin, vejo essa como uma representação adequada à narrativa. Como KEVIN (o livro e o filme) tratam da vertigem de memórias de Eva, e já que esta nunca conseguiu estabelecer uma conexão de compreensão com o filho (logo possivelmente nunca tenha entendido o que havia ali, se havia), a visão que ela tem do filho é essa, rasa, mas que sente necessidade de respostas. Enfim, não só Eva e o marido precisam conversar sobre o Kevin (como nas cartas que movem o livro), mas todos nós. É ideal (e necessário aos objetivos do filme) que ele seja uma incógnita. Achei excelente. A tradução visual que se constrói aqui também é das mais impressivas — e que se apoia num trabalho técnico impecável. A meu ver, merecia bem mais atenção.