A Árvore da Vida

ATENÇÃO: A crítica a seguir contém spoilers

Existem duas formas de compreender a essência divina e a essência humana, e ambas estão claramente expostas em A Árvore da Vida, último filme do cineasta americano Terrence Malick. Deus, Criador e Provedor da Humanidade, de acordo com as crenças de muitos povos, é a força maior – que parte de dois polos equidistantes, mas intercomunicativos (a competência de punir e perdoar). Os homens, criaturas ainda imperfeitas, notadamente possuem a mesma dualidade; não punem ou perdoam, mas pecam e esperam o perdão. Logo, a natureza de Deus é punir; a natureza do homem é pecar. A graça de Deus é perdoar; a graça do homem é alcançar a redenção. Não por acaso, muitas religiões entram em conflito por pregarem a ideia de um Deus essencialmente punitivo (sem atentar para Sua graça maior, que seria a capacidade de relevar as faltas graves da criatura), enquanto outras, mais brandas, defendem a misericórdia como característica suprema do Criador. De fato, o roteiro de A Árvore da Vida, também idealizado por Terrence Malick, parte deste pressuposto – e usa de personagens riquíssimos para corroborar daquela afirmação. Temos um Deus-Pai austero (Brad Pitt), assumindo a natureza da punição, e um Deus-mãe indulgente (Jessica Chastain) assumindo a natureza do perdão – ambos formam a imagem dual de Deus. Por outro lado, temos os filhos, um arredio e rebelde (o primogênito Hunter McCraken) que desafia a autoridade do pai austero (é o homem pecador) e outro livre, resignado (é o homem redimido). O terceiro filho, ainda em formação – e que pouco aparece no filme – poderia ser o próprio espectador, assistindo ao embate das forças primitivas que lhe definirão o futuro.

A relação entre Criador e criatura é a pauta de A Árvore da Vida. Sem mais. Não há como encontrar qualquer outro caminho – e desde o princípio fica claro que é preciso encontrar o equilíbrio, e só assim, estabelecer uma ligação saudável e plena entre polos tão extremos. O que vale para Deus e para o homem. Uma prova irrefutável da necessidade desta equivalência está logo nos primeiros minutos – a morte do segundo filho, aos 19 anos, destrói a unicidade da família. Se, como parte do homem, ele era a graça e controlava a balança, sobra apenas o primogênito rebelde (parte que responde pela natureza pecadora). Pecado algum pode ser concebido sem a possibilidade de ser perdoado. É aqui que tudo entra em colapso – e o filho mais velho, em fraqueza, caminha para a própria destruição. Sean Penn (que o interpreta na fase madura e reclamou de esquecimento no roteiro) não precisa emitir frases longas e tampouco precisa de participação maior do que lhe é exigida; só restou ao seu personagem o pecado – e a certeza do fim está mais que evidente. A impessoalidade do mundo que o cerca reflete seu próprio interior. E a morte do irmão, que lhe serviu de esteio durante toda a infância e adolescência, deixa uma marca tão profunda que pode ser sentida em todas as direções. Só que como todo homem, ele não sabe o que lhe espera após a morte – gancho para a estupenda sequência final, à qual retornarei adiante.

Pouco surpreende quando a mãe, em desespero após a morte do filho (graça divina assistindo à morte da graça humana), pergunta diretamente a Deus: “onde Você estava?”. Um corte abrupto na narrativa e a apresentação de uma das sequências mais fabulosas do cinema moderno – a encenação daquilo que seria o Big-Bang (explosão que teoricamente deu formação à vida). O que também não surpreende é o fato Terrence Malick, assumidamente religioso, oferecer uma resposta como aquela à mãe. Deus é, justamente, abordado como uma força muito misteriosa, mas segura de sua função junto às criaturas; não por acaso a bruteza do rascunho, nas primeiras imagens da Criação, com fogo e pedra fundindo-se em busca de um molde, serve de contraponto à delicadeza da primeira à última criatura que recebe o direito de habitar um planeta igualmente bem-acabado (num trabalho de fotografia maravilhoso, assinado por Emmanuel Lubezki). É, mais uma vez, o retrato da natureza e da graça divinos.

Tal dicotomia está expressa em maior intensidade, porém, na figura dos pais – e o primogênito é quem assume a função de lidar com este Deus, já que encarna a imagem de um humano imperfeito e pecador. Geralmente, o homem que peca ignora a autoridade de seu Senhor, mas ainda espera por seu perdão. O filho transgrede a lei doméstica com muita frequência, despertando a fúria do pai (parte punitiva de Deus), mas encontra amparo na mãe (parte indulgente); o conflito entre o réu e o juiz é intenso e está fadado a permanecer em desequilíbrio. Assim como o da graça e da natureza – basta observar a crítica que o personagem de Pitt lança à Chastain: “você é ingênua, acredita que todas as pessoas são boas”. Não seria a natureza de Deus desafiando sua própria graça? Afinal, o perdão de Deus é infinito porque Ele procura o melhor dentro de cada criatura.

Por isso a segunda criança, antes do falecimento, é tão atuante na formação espiritual do irmão mais velho – ele representa a metade que lhe dará a certeza do equilíbrio (permitindo compreender, em verdade, qual é a relação entre Deus e Humanidade). Pois, se, quando o pai sai em viagem, o primeiro filho não expressa sua rebeldia com intensidade ainda maior? É o instante em que ele levanta a voz para a mãe e a acusa de ser passiva diante da autoridade do pai. É onde o pecado costumeiramente se instala: na ausência da autoridade punitiva. O homem precisa da lei, do código moral e da ética para sobreviver em sociedade; era assim nos primórdios; e se a lei divina se oculta, o homem perde seus princípios. Até aqueles que não acreditam em Deus (mas obviamente são pessoas de bem) devem concordar que o código moral que rege suas vidas foi elaborado ao longo dos séculos, invariavelmente influenciado pela Palavra Divina. Foi o tempo, aliás, que transformou o homem numa criatura capaz de dosar o pecado e a redenção em proporções iguais – e é o mesmo que ocorre com o primogênito. Numa cena curiosa, ele simula atirar no irmão mais jovem – outra analogia à constante batalha entre o erro e o arrependimento –: é ali, quando o fere sem intenção, que toma noção de quanto o ama, e de quanto precisa de sua companhia. Diante da irritação do irmão ferido, ele implora: “Pode me bater, se quiser. Desculpe-me, você é meu irmão”. Então fazem as pazes. Ali o menino conhece a necessidade do equilíbrio, pois existe a dependência. O pecado não existe sem a possibilidade do perdão. E ninguém alcança o perdão senão por merecimento. Quando ambos sorriem e tentam se tocar, separados por um vidro, é certo de que compreenderam que só alcança a salvação aquele que passou pelo pecado, mas se arrependeu.

Se a morte do irmão mais jovem só se concretiza após este ensinamento, anos depois, também abala a certeza conquistada no passado – porque o mais velho é um humano imperfeito, e vacila. A paz encontrada por ele após o episódio do tiro/vidro (que descamba numa nova maneira de observar o mundo e num acanhado pedido de perdão ao pai numa horta, junto à frase “por mais que eu tente o contrário, me pareço com você”) cai por terra e só é reencontrada no momento em que ele próprio opta pelo suicídio. Isto porque a lição já estava absorvida, mesmo que ele não soubesse. Foi abalada por uma fraqueza, mas o seguiu até o plano espiritual. É aqui que entra a sequência final, onde todos se encontram numa praia lindíssima e trocam abraços fraternos. Esta passagem é, inclusive, a que os pais demonstram maior cumplicidade, e mais trocam carícias com os filhos – pois o criador austero que procurava a criatura perfeita deu lugar ao criador indulgente, que aceitou a imperfeição como caminho lógico para a redenção. É a união plena entre Deus e o homem, numa compreensão mutualíssima. Terrence Malick encontra a resposta que procurava e tenta repassá-la ao seu público num última tomada – aquela em que Jessica Chastain diz a Deus: “te dou os meus filhos”. Por um segundo, na posição de Maria, ela percebe que os rebentos serviram de emissários para a Humanidade. Porque, acredite, A Árvore da Vida não deixa somente a certeza de uma vida além desta, mas principalmente, a de que existe um Deus. E que Ele nos observa.

NOTA: 9,5       

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6 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

6 respostas para A Árvore da Vida

  1. Achei o seu texto melhor que o filme, diga-se de passagem. Olha, eu vi no cinema e até hoje eu fico bastante dividido com este filme. Adorei a fotografia, aquela belíssima trilha sonora e as atuações. Mas não aceitei o fato de ser extremamente longo para abrir uma discussão quase que inexistente. Acho que Malick quis enfeitar tanto, filosofar tanto que o filme se perde. Achei realmente maçante, mesmo que eu ainda o considere como um bom filme.

    Mas é isso mesmo. Acho que não veria de novo.

    • ALAN, primeiramente obrigado pelo elogio. Mas não considero extremamente longo; é pequeno, até, se comparado com outros. Parece longo porque é desafiador, e projetos desafiadores geralmente são extenuantes. Particularmente valorizo muitos filmes assim, e acho que a discussão não “é quase que inexistente”; como pode perceber, meu texto mostra que existe possibilidade de se discuti-lo sob diversos ângulos. Malick tem um estilo único, e sempre obedeceu e respeitou essa essência. A Árvore da Vida é seu melhor filme.

  2. Eu interpretei o filme da mesma forma que você. Seu texto está muito bom. “A Árvore da Vida” é uma obra densa, feita para ser assistida no clima certo, no momento certo, do jeito certo. Só assim para apreciar a verdadeira poesia de imagens feitas pelo Malick.

    • KAMILA, demorei meses para chegar esta conclusão, e seu você corrobora dela, fico feliz – afinal deixo de imaginar que estou sendo pretensioso em absorvê-lo assim. E obrigado pelo elogio!

  3. Meu Deus, meu Deus, meu Deus. Se Malick chegou a perfeição com A Árvore de Vida, você também a alcançou com este texto.

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