A Casa dos Sonhos

Por vezes é preciso simplesmente desistir de alguns filmes – não abandoná-los antes do término, pois isso seria fácil demais – mas realmente entregar à produção uma generosa dose de indiferença. Isto costuma ser cabal quando estamos diante de histórias interessantes, que levadas à tela grande, nos enchem de expectativas, mas revelam um potencial enormemente destrutivo. A Casa dos Sonhos é um exemplo. Dono de argumento curioso (até interessante), diretor competente (Jim Sheridan) e elenco estelar composto por Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts (o primeiro razoável e as duas últimas costumeiramente ótimas), o filme consegue confundir seu público, dentro do que há de bom e ruim na palavra; pois, se começa num ritmo adequado para a proposta – enlaçando naturalmente o espectador – termina de modo incompreensível e inadmissível. É o tipo de produção que num primeiro momento respeita quem a assiste, mas logo subestima descaradamente a inteligência e o bom-senso da audiência. Por isso deve ser ignorado. Solenemente.

Craig interpreta um pai de família que acaba de se mudar para uma pequena cidade, em Connecticut, após deixar o trabalho extenuante em Nova Iorque. Na bagagem, sua esposa (Weisz) e duas filhas muito jovens. Logo que chegam ao local, se veem envolvidos numa série de eventos inesperados, e todos parecem advir de um fato sinistro: há algum tempo, um pai fora de si matara mulher e filha no local. Outros eventos inexplicáveis passarão a atormentá-los, de modo que acreditem numa possível maldição espreitando a nova casa. Seria simples demais se o filme poupasse seus esforços na tentativa de construir uma narrativa previsível, mas não é isso que acontece. Você não verá fantasmas pregando sustos em A Casa dos Sonhos, mas verá, na primeira metade, a reação de uma família acuada pelo medo daquilo que lhe é ininteligível – é aqui que o filme recebe o segundo voto de confiança da plateia (o primeiro veio embutido nos realizadores), e não decepciona. É interessante, aliás, perceber como podemos ser pegos de surpresa. A primeira reviravolta da história, que determina a divisão do filme em metades, é impactante, e só nos deixa ainda mais curiosos a respeito do que virá a seguir. Lamentavelmente, o roteiro e a direção (pra não citar as performances sofríveis) transformam o que vem a seguir numa experiência difícil. No mau sentido, claro.

Impressiona como um conjunto que se saía bem até então simplesmente perde os eixos e salta de mãos dadas no abismo. Se as atuações não eram inspiradas, ao menos transitavam entre o aceitável e o eficiente (com destaque para Craig, que até a reviravolta vinha conduzindo decentemente seu personagem); se a direção não era das mais criativas (vale lembrar que Sheridan é responsável por nada menos que Em Nome do Pai e Meu Pé Esquerdo), ao menos explorava os ambientes e os conflitos com sabedoria; e por último, se o roteiro de David Loucka vinha, propositalmente, mais lento (com intenção de confluir numa boa surpresa), após entregar seu primeiro segredo perde completamente o rumo. Por isso não surpreende saber que o diretor chegou a enviar uma petição ao seu sindicato exigindo que seu nome fosse retirado dos créditos finais. Se algo tão extremo acontece, é porque o capitão descobriu um enorme furo no casco e não quer ser o último a abandonar o navio – felizmente o pedido foi indeferido e Sheridan forçado a jamais levar outro projeto inútil adiante.  

Existe ainda uma segunda surpresa que serve apenas como alívio para a premissa chocante, uma reviravolta grotesca que lembra as piores resoluções encontradas por roteiristas de pouca (ou nenhuma) qualidade. Não é válido entrar em maiores detalhes a respeito do enredo, pois traria informações cruciais – e isso seria um desrespeito ao leitor (ou talvez um favor, dependendo do ponto de vista). Mas a garantia de que este produto é um dos mais mirabolantes (novamente no mau sentido) dos últimos anos pode afastar alguns da mesma armadilha pregada em muitos outros. Não estamos diante de um filme de suspense, pois ele acaba por demolir a falsa ideia; nem tampouco um filme de terror, pois não há o que temer; ação, menos ainda, pois ela está presente apenas na sequência final. Drama? Pretensioso demais para tanto. Uma comédia? Se isso fosse, ainda haveríamos de respeitá-lo, pois A Casa dos Sonhos faria parte de um grupo: aquele em que filmes malfadados terminam em boas risadas. Entretanto, não há gênero. Não há grupo que possa recebê-lo apropriadamente. Um longa-metragem que se pensarmos bem, nem poderia ser chamado de erro, pois só se presume erro naquilo possível de se acertar.

NOTA: 1,0   

About these ads

10 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

10 respostas para A Casa dos Sonhos

  1. Esse filme é um equívoco completo. Uma pena, especialmente por causa da competente equipe envolvida. Mas, o roteiro é um daqueles casos em que você já sabe o que irá acontecer… E previsibilidade nunca é bom para um filme desse gênero.

    • KAMILA, Rachel Weisz, Naomi Watts, Daniel Craig… E Jim Sheridan. Jim Sheridan. Incrivelmente não funcionou. E quanto a previsibilidade, sabe que até achei surpreendente? Sim, o primeiro segredo me surpreendeu. Os demais, não. Achei bobos e desnecessários.

  2. É. Este gênero vem decaindo cada vez mais; até quando tem um diretor competente e um elenco suficiente, ainda assim se torna desprezível. Uma lástima. Abraço!

  3. Viixe, na primeira cena, já tinha a impressão que saberia o final. Bem ruinzinho mesmo.

  4. Natalia Xavier

    Pra mim até serviu como entreternimento, sabia? Tudo bem que tem mto cliche, subestimou horrores minha inteligencia, mas enfim… O que dizer de um filme que até o diretor tem vergonha de dizer que fez? rs

    Abs!

    • NATALIA, o Jim Sheridan que aprenda com erros tão crassos. Mas para quem tem “Meu Pé Esquerdo” e “Em Nome do Pai” na filmografia, “A Casa dos Sonhos” só pode causar vergonha.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

Você está comentando usando sua conta WordPress.com. Sair / Mudar )

Imagem do Twitter

Você está comentando usando sua conta Twitter. Sair / Mudar )

Foto do Facebook

Você está comentando usando sua conta Facebook. Sair / Mudar )

Conectando a %s