Os Descendentes

O burburinho que cerca alguns filmes, especialmente no que diz respeito à temporada de premiações que culmina no Oscar, pode ser uma maldição. Quando a crítica sucessivamente aponta boas impressões sobre aquele filme, e seus realizadores vêm blindados pelo sucesso pregresso, então, alimentar expectativas é quase obrigatório. Os Descendentes traz estampado em sua carta de apresentação aquilo que já seria suficiente para lançá-lo ao Olimpo: a direção de Alexander Payne e um desempenho tocante de George Clooney (ator acostumado a interpretar sempre os mesmos tipos humanos). E mais: Payne também trabalha no roteiro, ao lado de Nat Faxon e Jim Rash. Somando detalhes tão relevantes ao fato de Os Descendentes ter despontado nas premiações como um dos grandes filmes de 2011, já temos um cenário extremamente perigoso. É impossível sentar-se numa sala de cinema sem aguardar por uma película, no mínimo, marcante. O resultado, entretanto, não é menos que decepcionante: apenas a atuação apaixonada de Clooney justifica tanto barulho. Alexander Payne demonstra um bloqueio criativo inesperado, com um roteiro raso, previsível e pedante, enquanto sua direção acompanha o ritmo da história – o que significa um trabalho tão banal que dificilmente seria associado a um diretor avesso a recursos baratos, fáceis demais.

Clooney interpreta Matt King, um pai de família que passa por enorme dificuldade: a esposa acaba de sofrer um grave acidente, está em coma, e ele tem de cuidar das duas filhas, pouco acostumadas à sua presença. A relação do pai com dois universos tão incomuns – a garota mais nova busca por atenção das maneiras mais infantis, enquanto a mais madura passa pelos destemperos da adolescência – é a essência de Os Descendentes. O longa trata ainda de uma negociata envolvendo centenas de acres no Havaí, pertencentes às primeiras gerações da família de Matt (pioneiros da ilha, eram membros de uma dinastia real). A partir daí é possível compreender quais rumos o roteiro irá tomar; estamos diante de uma história de autoconhecimento, que busca bases até mesmo em períodos primordiais da genealogia de uma família, que passa agora por sérios problemas. O grande engano do roteiro (no sentido de prometer lebre e entregar gato) é usar de um painel tão sofisticado para explorar, no fim, um único grande conflito. E tal problemática surpreende pela trivialidade, pelo lugar-comum.

Os Descendentes sofre com essa limitação e tudo o que vem depois é pautado pela comédia fácil e pelo drama superficial. Vale citar Clooney novamente, porque o ator absorve seu personagem e lhe aplica verossimilhança suficiente para que os outros não pareçam mais que acessórios dentro da narrativa já pouco empolgante.  Isso significa que sorriso (ao executar sua pequena vingança), choro (numa das últimas cenas, em murmúrio próximo à mulher), e medo (sequência em que corre esbaforido pelas ruas da vizinhança) são sentimentos até palpáveis, graças ao esforço do protagonista. O que impede maior brilho é justamente a precariedade daquilo que devia acessorar e impulsionar o crescimento de Matt King: as linhas de Payne são pobres, aceitam resoluções breves para conflitos fracos, e sua direção corrobora àquele simplismo como se um filme aguardado há mais de cinco anos aceitasse a alcunha restritiva de “mais uma comédia dramática”.  

A jovem Shailene Woodley (que vive Alexandra, a filha adolescente) sofre ainda mais com o mau desenvolvimento – acentuado pelo pouco tempo em cena. Suas atitudes são completamente previsíveis, chegam a irritar. Ela não traz o pai à realidade, como o roteiro pode sugerir, e muito menos permite que Matt se conheça melhor; serve apenas como canal para uma importante revelação (que no fim das contas é o único grande conflito) e passa como uma brisa leve, sem deixar sinais. Isso dificilmente acontecia em filmes de Alexander Payne, que procurava espaços até improváveis para encaixar e dar fôlego aos coadjuvantes imediatos.  De seu brilho costumeiro (tire os momentos de Clooney, que brilha por si só), apenas uma poderosa cena em que Matt e as filhas deixam o quarto da esposa/mãe em coma, enquanto os pais observam-na desolados no leito. É um momento forte, emocionante, doloroso, em que o conjunto trabalha perfeitamente sintonizado; o resumo completo do que o cinema de Alexander Payne era, até então. Nem o cenário, também potencial na construção de suas películas, ajuda muito; o Havaí é lindo, é moderno, é paradoxal, ainda incrivelmente inóspito; terreno fértil para espelhar aquilo que seus personagens são, ou pelo menos, deveriam ser. Payne comete seu primeiro erro, dentro de uma filmografia absolutamente impecável, e talvez receba os louros de uma vitória que não deveria chegar agora. É esperar para ver.

NOTA: 6,0     

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8 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

8 respostas para Os Descendentes

  1. Como disse a Boscov, o Alexander Payne parece domesticado nesse filme. Não vi impacto algum em “Os Descendentes”, que não passa de um filme ok. O único aspecto digno de reconhecimentos é a atuação do George Clooney!

    • MATHEUS, verdade. Ele está domesticado, anestesiado, até preguiçoso neste filme. Definitivamente não é algo que se pudesse esperar de Alexander Payne. E Clooney está brilhante, nada menos que brilhante!

  2. Adorei “Os Descendentes”, um filme simples e extremamente comovente. Me chamou muito atenção a forma como Matt King reage a tudo que ele acontece. É uma serenidade muito grande. Ele nunca perde a compostura. Talvez, por isso mesmo, que eu tenha gostado bastante da atuação do George Clooney. Acho que, neste filme, ele mostra, pela primeira vez, toda sua vulnerabilidade como ator.

    • KAMILA, infelizmente não me comovi – somente na parte em que Clooney despede-se da esposa e quando observa, junto aos filhos,os sogros diante da esposa em coma. Clooney realmente demonstra sua parte vulnerável aqui (lida com a velhice, a solidão, a traição, o medo…). Grande atuação, para um filme que criou enormes expectativas e para mim, não as cumpriu.

  3. Senti o mesmo ao assistir a longa Weiner, tirando a atuação do George Clooney todo o resto do filme é apenas OK, e o Payne é o grande responsável por isso, tanto na direção (que para mim pareceu não querer arriscar), como no roteiro que só abre brecha para o desenvolvimento do personagem do Clooney. Abs.

    • JONATHAN, quando li um cartaz cômico a respeito do filme, substituindo o título original pela expressão “grande atuação de George Clooney”, já fiquei apreensivo. E é isso mesmo. Ele reina sozinho, todo o resto se acanha e some.

  4. Putz, eu já acho o contrário: me parece o filme mais maduro e delicado do Payne, extremamente simples mas profundamente sintonizado com seu protagonista. Gostei muito, muito mesmo.

    • WALLACE, tudo é simples demais. Sofisticada é apenas a performance de George Clooney. Se este filme não estivesse sendo apontado como o melhor de 2011 por uma série de premiações, talvez fosse menos crítico a seu respeito. Mas expectativas frustradas são implacáveis na hora de avaliar um filme. Infelizmente.

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