As Aventuras de TinTin: O Segredo do Licorne

Voltaire disse algo emblemático em sua época, algo que reverberou por séculos e ainda exerce enorme poder sobre o senso crítico das pessoas: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. Frase tão profunda encaixaria perfeitamente na descrição de algum filme mais audacioso, e usa-la para abrir uma crítica sobre As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne pode parecer inapropriado. Talvez seja. Mas algo em especial me chamou a atenção na maioria das opiniões que li sobre o filme – e devo dizer que não lutaria até a morte para ouvir críticos e parte do público dizer coisas, para mim, tão incompreensíveis e irrelevantes. Antigo sonho de Steven Spielberg, adaptar e dirigir para o cinema uma versão do personagem de Hergé (consagrado especialmente na Europa), o filme jamais se leva a sério. Pelo contrário; assume uma postura convincente e digna enquanto película de entretenimento. Puro entretenimento, diga-se de passagem. Porém inúmeras pessoas preferiram taxá-lo como história rasa, previsível e sem maiores explicações. Primeiro, não é rasa: usar de elementos de aventura (ao melhor estilo de seu diretor) e uma sucessão de eventos mirabolantes não transforma-o num material raso. Segundo, é previsível sim – mas no melhor sentido que pode existir desta palavra; filme que se imuniza de pretensões e demonstra orgulho de sua essência, ainda que previsível, é eficaz. E por último, não precisa de maiores explicações. TinTin pouco se importa se o público é simpático à sua personalidade, seus segredos, seus desejos; ele é discreto é ocupado demais para isso. E vê-lo movimentando-se a todo segundo é a prova irrefutável desta assertiva.

Aqueles que não gostam de produções embaladas ao modo spielbergniano (sim, ele já é um mito e merece tais termos) simplesmente se atém a tal “limitação”. Dizem que o protagonista é uma pequena máquina que não para jamais, curioso, prático, nada sentimental. Desafio qualquer que seja a repetir a sessão e procurar, dentro daquele roteiro enxuto e eficiente, qualquer espaço para uma abordagem contrária. Caso isso fosse possível, o resultado seria catastrófico – Spielberg acabaria consigo mesmo e com o argumento de Hergé em poucos minutos. As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne pode até sugerir um universo infantil e familiar, no qual virar as costas ao sentimentalismo seria imenso demérito. Mas não se trata disto; é um filme feito como homenagem aos primórdios de seu realizador – daí as intermináveis comparações à quadrilogia Indiana Jones. Ou alguém acha Os Caçadores da Arca Perdida um programa ideal para as crianças?

Entramos deste modo, na polêmica da animação. A Academia de Hollywood ignorou-o na categoria do Oscar – um protesto àquilo que teoricamente fere o estatuto do prêmio, que considera filme animado aquele produzido frame a frame, e não dentro do polêmico recurso live-action (aqui a captura foi sobretudo dos movimentos de Jamie Bell e Andy Serkis, posteriormente animados). O leigo, contudo, vê no filme apenas um processo de animação digital, nada mais; além, óbvio, da ótima qualidade de seu 3D, o que acaba sendo muito sadio e permite apreciação bem mais abrangente – um sinal que pode explicar a enorme bilheteria do filme ao redor do mundo. Curioso é que nos Estados Unidos, país de produção, os quadrinhos de Hergé jamais foram populares (os americanos preferem desde sempre seus heróis mascarados), o que contribui para a arrecadação inexpressiva naquele país. Sorte que o restante do planeta pensa diferente, e já garantiu mais um episódio para a saga, a ser dirigida por Peter Jackson. As Aventuras de TinTin: O Segredo do Licorne é, no fim das contas, um exemplar corajoso dentro do panorama cinematográfico atual, por abandonar a receita preparada pela suposta demanda daquele público acomodado e adotar a receita infalível que fez de Steven Spielberg o rei das matinês. Fora os ingredientes pedantes que podem ou não desandar o cardápio; melhor é apostar na experiência de quem sabe entreter de verdade. Porque inteligente é aquele que reconhece seus potenciais. E ponto.

NOTA: 8,0      

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6 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

6 respostas para As Aventuras de TinTin: O Segredo do Licorne

  1. Eu gostei muito desse filme. A parte técnica foi muito bem feita. O roteiro prende a atenção. Aquela cena da perseguição ao pergaminho é o ponto alto, definitivamente. Só achei a concepção dos personagens muito falhas. Aqueles olhos inexpressivos lembraram os personagens dos filmes de Robert Zemeckis.

    • KAMILA, sim a cena do pergaminho, junto àquela do avião em meio à tempestade, são os pontos altos de “As Aventuras de TinTin”, que no fim das contas, são exatamente isto: aventuras. É o que Spielberg faz de melhor, compreende seus filmes e tira o melhor de cada um. Achei absurdo ouvir da Isabela Boscov que ele está numa fase em que deveria, obrigatoriamente, olhar para dentro de si, imitando diretores como Bergman. Lamentável. E sobre a polêmica da animação (ou não-animação) nem gosto de entrar, mas respeito quem encontrou algum tipo de defeito no processo. Eu achei tudo ótimo. :)

  2. A melhor animação do ano. Deveria ter ganho o Oscar.

  3. Um filme que poderia muito bem ser live action (pelo menos para mim, o roteiro e a direção deixam essa sensação), mas que não teria tanta graça se fosse contado dessa maneira. “Tintim” merecia indicação ao Oscar de animação!

    • MATHEUS, entendo que a Academia possua uma maneira diferenciada de considerar filmes como animação ou não, mas particularmente ignoro esta polêmica do frame-a-frame. Para mim, “As Aventuras de TinTin” é uma animação genuína, e todos os indicados ao Oscar na categoria são inferiores. O filme de Spielberg merecia não apenas a indicação, mas também o prêmio!

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