Farrapo Humano

“Foi depois de Farrapo Humano que as pessoas começaram a me levar a sério”, disse o diretor de grandes sucessos como O Crepúsculo dos Deuses e Se Meu Apartamento Falasse. Billy Wilder ganhou seu primeiro Oscar como diretor desta polêmica produção, a primeira a tratar o alcoolismo como doença social e vício degradante – sepultando de vez a imagem clássica do bêbado engraçado e escapista que povoou o imaginário do cinema americano nas décadas anteriores. Era, enfim, impossível conceber um filme sobre o alcoolismo sem um bom roteiro e, principalmente, um artista preparado para demonstrar o tamanho deste abismo. Ray Milland era até aquele momento, um ator qualquer em Hollywood – ou melhor, mais um profissional disposto a mostrar seu talento em algum papel que realmente lhe trouxesse prestígio. Viver um bêbado compulsivo, mentiroso e cínico, então, parecia a glória. Seu personagem, Don Birnam, é um aspirante a escritor que enfrenta sérios problemas com a bebida – e passou a ser motivo de constante preocupação para a namorada (Jane Wyman) e o irmão (Phillip Terry). Quando o irmão de Birnam resolve passar um fim-de-semana no campo, ao seu lado (afim de afastá-lo ao máximo de seu vício), o escritor arruma uma maneira de se esquivar do convite e desaparece pelas ruas ensolaradas de Nova York, numa maneira incontrolável e quase animalesca de se sentir livre. Livre da pressão que o irmão e a namorada impõem sobre cada um de seus movimentos.

O título do filme nasce a partir daí. Birnam perde o fim-de-semana na fazenda, numa atitude que desperta o ódio do irmão. O outro já está farto de servir como uma babá, controlando seus passos e vasculhando possíveis esconderijos para a bebida no pequeno apartamento. A namorada, Wyman, por outro lado, quer seguir com seu plano – e tirar Birnam daquele inferno. “Se Don fosse cardíaco, você desistiria dele? Não vê que isto é uma doença? Não vê que isto é como uma doença?”, ela diz. O irmão não está disposto a colaborar, e viaja sozinho. Birnam encerra-se num bar (um dos poucos que ainda admitem sua presença) e lamenta por seu bloqueio mental; quer escrever um romance baseado em suas próprias experiências, titulado A Garrafa, numa maneira de exorcizar os demônios que vivem dentro de si. Mas simplesmente não consegue iniciar sua obra. Sente-se inútil, ocioso, um estorvo na vida de Wyman e Parry. O alcoolismo parece a única maneira de aliviar o vazio emocional que o assola por dentro.

Wilder não poupa Birnam em momento algum. Seu bêbado é de carne e osso. O cheiro do álcool parece irradiar da tela, e seu comportamento evolui de lamentável à humilhante a cada tomada. Parece difícil imaginar que um homem de 30 anos rouba o salário de uma empregada para comprar uma garrafa de gim, ou ainda que arraste sua ferramenta de trabalho (uma máquina de escrever, dada de presente pela mãe) por quilômetros a fim de penhorá-la e ganhar dinheiro para a bebida. Mas o vício é uma espécie de força sobrenatural que toma as rédeas de Birnam – e faz dele uma criança descerebrada e inconsequente, um boneco programado para beber. Os resultados da bebedeira são gradativos, e  logo ele conhece o lado mais negro do alcoolismo, o delirium tremens. A cena em que Milland observa um morcego sobrevoando sua sala (para no fim atacar um rato e sujar a parede de sangue), é uma das mais fortes e impressionantes sequências de todo o filme. Os gritos horripilantes e a expressão assombrada de Milland dão a ideia exata de sua alucinação (num momento em que percebemos o quão merecido foi seu Oscar como melhor ator de 1945).

Apesar de ter enfrentado a censura (e uma forte campanha do sindicato de destilarias, disposto a tudo para boicotar o filme), Farrapo Humano teve a sorte de sobreviver. A visão ainda continua amarga e atemporal, criando um viciado cheio de auto-piedade, em conflito com as próprias convicções, decidido até mesmo a se suicidar. Farrapo Humano não podia ter sido mais real. O filme consolidou Billy Wilder como um homem disposto a quebrar regras e revelar um lado obscuro da sociedade, lançando mão do óbvio e abrindo novos horizontes para Hollywood. Enfim, Farrapo Humano não só fez de Wilder um diretor respeitável, como o mesmo declarou; fez de Ray Milland um dos melhores atores de toda a história; e fez do alcoolismo um doença social a ser encarada de frente.

NOTA: 8,0      

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2 Comentários

Arquivado em Cinema, Clássicos, Críticas

2 respostas para Farrapo Humano

  1. Nossa, curto demais esse filme, merecidamente vencedor do Oscar. Belo e poderoso drama sobre o alcoolismo que continuo assustadoramente atual. Faz uma bela trinca com Vício Maldito, do Blake Edwards, e Despedida em Las Vegas.

  2. WALLACE, é aquela velha fórmula infalível: integração efieciente entre elenco, diretor e roteiro. Acredita que ainda não vi “Vício Maldito”? É uma das lacunas cinematográficas de minha vida, preciso preenchê-la. “Despedida em Las Vegas”, por sua vez, choca até um pouco mais – e acredito que seja por conta da época em que foi produzido; na década de 1990 as reservas a respeito do tema eram mínimas. Contudo, vale sempre ressaltar a coragem de “Farrapo Humano”, que enfrentou pressão de todos os lados, mas as ignorou, foi concluído e ganhou uma porção de Oscars.

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