Existe um pré-julgamento acerca do estilo de cada cineasta, isso é inegável. Woody Allen é visto por muitos como um diretor cínico que transforma roteiros igualmente irônicos em filmes cômico-dramáticos (mais cômicos). Martin Scorsese definiu seu estilo através de filmes realistas, onde personagens atuam como cobaias de um sistema esmagador (a ponto de ser incompreendido por muitos quando modifica sua forma de enxergar o cinema; basta assistir A Invenção de Hugo Cabret). Entre tantos outros possíveis, valeria citar David Fincher. Após Seven – Os Sete Crime Capitais e Clube da Luta, não havia dúvidas a respeito do que ele era capaz, e principalmente, qual era o seu estilo. Por isso não surpreende quando seus dois últimos filmes, O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social, foram recebidos com estranheza pelo público que lhe era cativo. Ambos fugiam de sua maneira de filmar. Parece injusto taxar um profissional, como se fosse impossível administrar uma mudança; muitos aliás, já mostraram que ousadia, reinvenção, podem ser características aplaudíveis. Mas é claro como Fincher possui o domínio narrativo do suspense, e faz de filmes do gênero exemplares marcantes, quando não inesquecíveis (com roteiro, direção e elenco em total integração dentro da proposta). Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é a síntese disto. Enquanto a direção quer que o crime assuma papel determinante na elaboração da película, as atuações não se acanham, mas crescem, tomando espaço no ótimo roteiro de Steve Zaillian.
É uma refilmagem, importante dizer. E de um filme sueco de 2010, baseado no primeiro episódio da bem-sucedida série de livros Millenium. Neste ponto, pode-se dizer que Fincher ousou. O original foi acolhido por crítica e público, e uma versão americana pareceu, num primeiro momento, desculpa de estúdio para faturar alguns milhões. Porém, a experiência do diretor e seu olhar arguto diante do universo criminal fizeram do americano um filme melhor (coisa rara). Outro ponto importante é a composição de Rooney Mara, que conseguiu trazer à tona os conflitos da hacker-protagonista Lisbeth Salander, sem maniqueísmos ou situações fáceis. Pois é exatamente isto que acontece na versão original; se o brilho de Noomi Rapace é enorme, algumas resoluções apontadas no roteiro e corroboradas da direção de Neils Arden Oplev neutralizam o impacto emocional que o ambiente parecia defender. Se você já leu o livro que serviu à adaptação, talvez defenda o filme americano sem reservas, afinal Fincher e seu roteirista optaram por segui-lo à risca (excetuando o trecho final, que ao meu ver foi muito enriquecido); logo, respeitaram muito mais a ambientação preconizada pelo material que, no fim das contas, é a fonte universal. Abre-se espaço para uma afirmação polêmica: David Fincher entregou um trabalho superior àquele Os Homens Que Não Amavam as Mulheres da Suécia, e mais, entregou uma história melhor que aquela do livro Män Som Hatar Kvinnor, de Stieg Larsson.
Pretensioso de minha parte? Talvez. Mas se o filme original encontrou espaço para romantizar uma trama aparentemente imune aos dramas óbvios - como a ânsia do co-protagonista Mikael Bloomkvist (aqui vivido por Daniel Craig) por mostrar-se ilibado enquanto jornalista, ou o carinho pela mulher que fora sua babá, além da própria relação de amor que mantém com Lisbeth ao longo da narrativa (algo que se pode notar mesmo no livro) -, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres de David Fincher blinda as saídas, e se o público recebe toda a sorte de sensações vivas, tocantes, elas estão presas – e doém, incomodam, instigam. Lisbeth Salander é uma jovem de 24 anos que é tutorada pelo governo sueco, que a considera despreparada psicologicamente para uma emancipação (o motivo é forte e é revelado no fim da versão americana, ao contrário da sueca, que apenas sugere). O corpo e as vestimentas da moça demonstram a imensa dificuldade que sente em se colocar, se inserir, no grupo social que a rodeia. Tatuagens (uma delas é a resposta ao título original, The Girl With the Dragon Tatoo), piercings, corte de cabelo bizarro, roupas escuras (avessas ao óbvio feminino), coturnos pretos e uma moto barulhenta e masculina. Lisbeth é bissexual, e não lida bem com a pressão social sobre a mulher. É a protagonista ideal para David Fincher, e não seria absurdo imaginar que a riqueza de Lisbeth foi o maior atrativo para o diretor aventurar-se na refilmagem – além, claro, do próprio universo investigativo. O diretor não concede qualquer brecha para penalizações, porque impõe a história sobre as fraquezas dos personagens – como se dissesse que o desaparecimento da neta de Henrik Vanger (Christopher Plummer), há 16 anos, e dada agora como morta por muitos, é o grande evento do filme. Assim, desvela as mazelas sociais de uma Suécia aparentemente imaculada, mas que ainda guarda preconceito vívido contra minorias étnicas, tem grupos simpáticos ao nazismo e misoginia gritante devidamente sufocada. Mikael é designado para descobrir a verdade sobre o desaparecimento, e ali se aproxima de Lisbeth, mais tarde apontada para auxiliá-lo.
É um grande contrassenso unir duas pessoas tão diferentes, mas a junção daquele pedaço sólido da Suécia, que ameaça romper (o próprio Mikael, envolvido num crime que mostra o lado sujo e oculto de seus pares) com o pedaço já ruído, esmagado do país (expresso em Lisbeth e as constantes opressões que pesam sobre sua vida) oferece um panorama implacável sobre as falsas aparências. Ora, se a Suécia é vista por todos como um país desenvolvido, educado, de altíssimos índices de desenvolvimento humano, há uma banda podre, que por menor que seja (ou pareça) ganha contornos até trágicos em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. David Fincher utiliza de tais discrepâncias para restabelecer seu próprio modo de filmar, apontando os defeitos incorrigíveis daquele meio, a maldade abaixo da superfície, e claro, a fragilidade dos personagens diante de tanta brutalização. A cena final, inclusive, que repudia o sentimento de “adaptabilidade” que toma a Lisbeth da versão sueca, exclui um final feliz para aqueles que não aceitam a dura realidade – porque Mikael, apesar de estarrecido com o deslindar do crime, ainda é um cidadão comum demais, bem inserido demais entre os iguais. Para Lisbeth a aceitação é bem mais complexa, improvável, talvez mesmo impossível.




Seu texto é bem articulado e delineado, gostei da maneira como traça as comparações – mas, você pecou em toda sua ideologia. Este filme NÃO é uma refilmagem do filme sueco e o próprio Fincher deixou claro isso a todos. O filme baseia-se no próprio livro. Até!
CRISTIANO, primeiro obrigado pelos elogios. Segundo, quando coloquei “é uma refilmagem, importante dizer”, não tinha a intenção de dizer que Fincher fez uma refilmagem quadro a quadro do longa sueco, e sim que ele tirou inspiração em diversas cenas – achei, aqui, diversos momentos de Lisbeth parecidíssimos com o original, especialmente aqueles mais polêmicos. Óbvio que ele lança um olhar bem mais sofisticado dentro do todo, afinal é um diretor mais talentoso e experiente que Oplev, o que faz deste um produto superior. Admito que errei ao me expressar, deixei uma impressão equivocada do que queria demonstrar. “The Girl With The Dragon Tatoo” aproveita diversas composições imagéticas do filme sueco, sim, mas a fonte é o livro de Larsson – do qual inclusive, o longa de Fincher também é melhor.
Não conheço o filme original, nem a trilogia na qual este longa se baseia, mas achei essa refilmagem muito anticlimática. Me impressionou o distanciamento emocional com que o David Fincher dirigiu essa história. Acabou que eu achei a Rooney Mara o grande destaque de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. A frieza emocional de sua Lisbeth Salander é o resumo desse longa. Quando ela está em tela, o filme alcança seus melhores momentos.