A 84ª edição do Oscar, realizada ontem (27) em Los Angeles deixou algumas lições importantes – e como diz o velho ditado, nunca é demais aprender com os erros. Primeiro, fica a certeza de que nós, como cinéfilos, devemos esquecer qualquer chance de mudança; o cerne do Oscar, o âmago dos velhinhos da Academia (como apontou recente pesquisa, onde mais de 80% dos membros possuem mais de 50 anos) é voltado para o tradicionalismo. Segundo, devemos abandonar qualquer esperança acerca de frequentes reinvenções por parte da organização, que a cada novo ano, entrega festas aborrecidas e desinteressantes. Mas como o cinema é maior que tudo e está acima da pequenez de um grupo de pessoas limitadas, temos de encarar a cerimônia como um mal necessário. É uma festa de americanos para americanos, quadrada, previamente orquestrada – mas que acima de tudo nos põe em contato com a sétima arte.
Por isso, aprendamos a não reclamar a respeito. Ninguém irá nos ouvir, e tampouco deixaremos de assistir a próxima cerimônia. De nada adianta criticar a falta de respeito para com os brasileiros indicados, que sequer tiveram suas expressões captadas pelas câmeras – elas preferiram pousar nos apresentadores da categoria de canção, Will Ferrel e Zack Galifianakis (que não estavam menos que irritantes) e nos vencedores óbvios, os americanos que compuseram Man Or Muppet, a música mediana dentro da ótima trilha sonora de Os Muppets. Resta então, deixar o patriotismo de lado (e a justiça, já que Real in Rio era uma canção extremamente melhor) e atentar para outros quesitos da noite. A apresentação de Billy Crystal foi satisfatória, ele é um ator querido que consegue fazer piadas com os colegas sem que nenhum se sinta magoado ou constrangido (brincou até com o presidente da Academia a respeito de sua “animação” ao fazer um pronunciamento importante). Porém, não foi suficientemente dinâmico para tirar a atmosfera sonolenta que pairou sobre diversos prêmios – especialmente os técnicos, entregues com muita rapidez. No momento da leitura dos envelopes, alguns atores até tentaram animar o ambiente com piadas próprias, mas todos se saíram muito mal. Jeniffer Lopez e Cameron Diaz, Gwineth Paltrow e Robert Downey Jr., Ben Stiller e Emma Stone, todos estavam forçosamente insuportáveis. Talvez as atrizes de Missão Madrinha de Casamento tenham se saído melhor com a comédia (alocadas oportunamente entre as categorias mais chatas, documentários e curtas), mas ainda assim me diverti pouco. Surpresas? Apenas por conta da vitória de Angus Wall e Kirk Baxter na categoria de melhor edição (Os Homens Que Não Amavam as Mulheres) e Dante Ferreti, responsável pela fotografia de Hugo Cabret.
Mas o cinema é maior que tudo. E se não brilhou o melhor filme, nem tampouco seus realizadores (A Árvore da Vida, em minha opinião), as produções que vinham imediatamente após em nível de qualidade (O Artista e A Invenção de Hugo Cabret) receberam cinco prêmios cada. Talvez a vitória de O Artista represente sim um sopro de mudança na Academia, afinal de contas, uma produção muda, francesa e em preto-e-branco não ganha o Oscar todos os dias. Na verdade, foi o rompimento de um enorme tabu que segue a A.M.P.A.S. desde o início (1928); contudo, se observarmos bem, será possível concluir que O Artista só alcançou o feito por homenagear o cinema americano. Uma produção francesa feita para franceses jamais venceria estatuetas tão importantes. Michel Hazanavicius, o diretor, embarcou no sucesso do filme e levou o primeiro Oscar de direção já dado para uma produção estrangeira – infelizmente sem merecer, pois Martin Scorsese (Hugo Cabret) era melhor, e com folga. Jean Dujardin (O Artista), sim, com seu carisma e talento, arrebatou um prêmio merecido e valorizadíssimo (basta ver o pequeno ataque de euforia que tomou o homem). Meryl Streep, no alto de sua realeza – e vivendo Margaret Tatcher em A Dama de Ferro – recebeu o terceiro Oscar após 30 anos (entrando para o time de atores do nível de Jack Nicholson e Ingrid Bergman). Se receberá o quarto? Nem mesmo ela acredita nisso; o lindíssimo discurso terminou de forma melancólica, com a frase “devo aproveitar bem, pois é a última vez que subo neste palco”. Já o outro monstro sagrado, Christopher Plummer, após décadas de espera finalmente foi laureado com o prêmio de ator coadjuvante (Toda a Forma de Amor) enquanto Octavia Spencer confirmou o favoritismo e foi eleita a atriz coadjuvante do ano por Histórias Cruzadas (o prêmio mais sem graça da noite, que descambou apenas em choro e poucas palavras).
Os Descendentes, o pior filme de Alexander Payne, faturou a honra de melhor roteiro adaptado. Aprendamos com Woody Allen, que recebeu o melhor roteiro original por Meia Noite em Paris e simplesmente não foi recebê-lo – mostrando que já passou da idade de levar o Oscar tão a sério. Apesar de tudo, não se pode reclamar dos vencedores, porque a extensa maioria deles realmente mereceu a láurea. Entretanto, o Oscar é uma premiação complexa, pois nos anos em que erra (premiando filmes e artistas equivocadamente) suscita discussões acaloradas, e nos anos em que se pode dizer que acerta (como em 2012) ganha indiferença demais e dá margem a uma pergunta cruel: “esta edição cairá no esquecimento?; “estávamos anestesiados”?. Sinceramente, opto pelo mesmo caminho que apontei no início deste texto: aceito os vencedores, e abro mão de qualquer discussão aprofundada. Estou contente com as escolhas. Mas não consigo afastar a sensação de que, ano após ano, um pouco do meu encanto com a cerimônia desaparece. Só a minha paixão pelo cinema continua bem viva. E isso é o que realmente interessa.
Veja todos os vencedores aqui.


















uma cerimônia leve e simples. com uma única surpresa, que alias, foi muito agradavel. mas, assistir meryl levar aquele prêmio foi lindo demais!
Patriotismo a parte foi uma das melhores premiações dos últimos anos,deste vez os velhinhos arcaicos fora de moda foram quase perfeitos, Parabéns pelo blog !
O show em geral foi legalzinho, o Billy Cristal para mim foi apenas OK, o que não gostei mesmo foi ver Hugo, filme que adoro, levando Fotografia e Efeitos Visuais, outros mereciam muito mais.
Acho que o tema, até mesmo tendo em vista os dois filmes que mais receberam prêmios, foi a nostalgia. O Oscar parecia querer voltar num tempo que não retorna mais. Chegou a um ponto em que essa necessidade de reforçar a nostalgia ficou bastante forçado.
Achei que a distribuição de prêmios foi bastante justa. “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret” mereceram os cinco prêmios que cada um conquistou.
Os grandes momentos da noite, pra mim, foram as vitórias de Jean Dujardin e de Meryl Streep. Especialmente a da última. Foi emocionante, como esperado. A Meryl já estava visivelmente emocionada desde que o Colin Firth fez o discurso introduzindo a indicação dela. Se a gente for ver também, das três vitórias dela, esse foi o discurso em que ela estava mais emocionada. Acho que misturou o fato de que o favoritismo dela não era incontestável, com os 29 anos em que ela compareceu à cerimônia sendo indicada e perdendo.
Só um comentário: Meryl <3