Meia-Noite em Paris

O curioso hábito de Woody Allen – entregar um filme por ano – causa estranheza a muitos, como se a qualidade e a criatividade não pudessem ser tão abundantes num cineasta a ponto de justificar tamanha ousadia. De fato, a maioria dos gênios da sétima arte abriu espaço para que seu público construísse grande expectativa ao redor de cada novo trabalho, tornando-se aceitável, no caso de alguns, uma lacuna que chegou a superar dez anos (quando não mais tempo). Fato é que Woody Allen tem entregado filmes, que se não geniais, ao menos atenderam a enorme expectativa de seus fãs. Óbvio que uns mais, outros menos; e aceitar períodos mais modestos entre obras de cunho realmente marcante, como Match Point e mais recentemente, Meia Noite em Paris, tornou-se hábito entre seus seguidores. A bem da verdade, Meia Noite em Paris vem surpreendendo a todos desde seu lançamento (no último Festival de Cannes), mas se observado de perto, nada mais é que Woody Allen em estado bruto; o diferencial fica mesmo por conta da criatividade, levada aqui a um extremo identificado apenas em obras pontuais na carreira do diretor.

As indicações ao Oscar 2012 – reacendendo a certeza de que um bom cineasta é eterno, e não preso a determinados períodos – foram mais que merecidas, e a vitória na categoria de roteiro original corrobora da afirmação anterior. Se Woody Allen surpreendeu com uma releitura do clássico Um Lugar Ao Sol ao conceber Match Point (o que lhe rendeu uma indicação no mesmo quesito, mas ao fim, a derrota), impregnando-a com uma realidade cruel só vista antes em Interiores, em Meia Noite em Paris ele retoma o sentimento de admiração que domina a narrativa de A Rosa Púrpura do Cairo. A temática é que determina as disparidades, já que o último prestava homenagem ao cinema em si, enquanto o primeiro recorre à reverência de diversas artes. Para tanto, o roteiro de Allen cria uma situação fantástica, na qual um roteirista americano, de filmes puramente comerciais (a volta do alter-ego, interpretado por Owen Wilson) se vê fisicamente envolvido com uma série de ídolos do passado, que deveriam estar mortos. Ele pode interagir com Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Gertrud Stein, Luis Buñuel, Salvador Dalí (estes últimos envolvidos numa conversa já antológica dentro de sua filmografia), entre outros, graças a um veículo antigo que o apanha religiosamente à meia-noite, no mesmo lugar, e o transporta por oitenta anos, até a década de 20.

A escolha de Paris como locação é mais que uma declaração de amor à cidade, é o local específico, perfeito para a ambientação desse tipo de trama. Se Nova Iorque e Londres já serviram de cenário para produções anteriores, nenhuma delas parecia apta a receber uma história tão fantasiosa e romântica – vale ressaltar que o protagonista encontra espaço para se envolver emocionalmente com uma contemporânea daquela década, interpretada docemente por Marion Cotillard, além de absorver muito de seus ídolos através de uma devoção explícita. O roteiro nos insere entre os dois períodos históricos (já que o personagem vai e volta no tempo a cada novo dia, tomando o mesmo carro) e convida à reflexão que permeia sua essência: afinal, estamos insistentemente procurando por um lugar que supostamente comporte todas as aspirações que alimentamos? Um lugar perdido em algum tempo (que geralmente não vivemos) e teoricamente traria mais conforto e plenitude aos desejos incompreensíveis que nos damos o direito de criar? Entre diversos momentos de comédia genuína – e isso significa sofisticação, pois assim é a comédia deste diretor – nos deparamos com figuras míticas e idolatradas, que no fim das contas, são tão errantes e inconstantes como nós. Um dos maiores méritos de Woody Allen (que já se declarou incompleto e não exatamente feliz) é justamente abrir espaço para demolir tudo aquilo que é idealizado, como se a desmitificação do mito e a derrubada das utopias fosse o primeiro e mais importante passo para conhecermos e aceitarmos nossa verdade.

O elenco, como de costume, brilha sem nenhuma reserva – até as pequenas participações de Adrien Brody e Léa Seydoux (transformada em estrela internacional) cativam de maneira sem igual, a ponto de elevá-los a uma importância imensurável dentro da narrativa. Talvez o único senão fique por conta da insistência de Owen Wilson em encarnar um alter-ego que resulta na imitação da voz de Allen – algo que não chega a prejudicar, mas tampouco acrescenta. De qualquer modo, os atores estão esplendorosos e emprestam charme adorável a cada personagem, o que colabora para a qualidade do mosaico narrativo, ao estilo multiplot (Woody Allen é um dos grandes mestres na condução de grande número de intérpretes, característica encontrada em raríssimos profissionais da área). Por último, resta admitir que Meia Noite em Paris atinge notoriedade por conta de sua excelência em reunir todos os elementos que fizeram de Allen um grande diretor e roteirista. Não temos pedaços dele nesta produção, muito menos qualquer sinal de moldagem. Aqui, ele está inteiro, puro, intocado.

NOTA: 8,5  

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4 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

4 respostas para Meia-Noite em Paris

  1. Acho que o que mais me agrada nesse filme é que Allen retrata uma Paris idealista, com a qual todos sonhamos: romântica, nostálgica, um local que respira e vive arte e cultura. Talvez, por isso mesmo, “Meia-Noite em Paris” seja uma obra tão carismática e mágica, que pega a gente de jeito. Woody Allen em um de seus estados mais inspirados!

  2. Delícia de filme. Por todos os motivos que você aponta em seu texto. Owen Wilson não é um grande ator, mas um bom substituto para o Woody. A sacada do Anjo Exterminador foi genial.

  3. Não tenho problemas com Woody Allen entrar um novo filme a cada ano… Só acho que ele entre algo de relevante apenas de três em três anos. Depois de “Match Point” e “Vicky Cristina Barcelona”, “Meia-Noite em Paris” veio para se juntar a esse grupo!

  4. “é justamente abrir espaço para demolir tudo aquilo que é idealizado, como se a desmitificação do mito e a derrubada das utopias fosse o primeiro e mais importante passo para conhecermos e aceitarmos nossa verdade.” – Perfeito! Tão poético quanto o filme e a cidade em que é ambientado. O fato do diretor apresentar uma obra por ano causa em mim uma intimidade com ele e seus trabalhos que dificilmente me faz se decepcionar com algum filme do cara e – claro – em Meia Noite em Paris não é diferente. Um dos melhores do ano com Allen em seu estado bruto, como você bem disse. Abraço!

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