# 100 – O MÁGICO DE OZ (Victor Fleming, 1939)
É impossível fazer-se indiferente à este simpático filme, mesmo que existam musicais mais elaborados e inteligentes já criados por Hollywood. A força de O Mágico de Oz está em sua pureza (calcada em bons sentimentos, como a amizade, a fé, a esperança e a felicidade), que transformam esta deliciosa fábula num dos melhores programas para compartilhar com toda a família. Não há como não se apaixonar por Judy Garland cantando Somewhere Over The Rainbown, ou mesmo por seus engraçados amigos, O Espantalho, O Homem de Lata e o Leão. Impossível fechar os olhos diante das maldades da Bruxa Má do Oeste ou da beleza e candura de Glinda, A Bruxa do Norte. Os cenários fabulosos, as canções doces e a saga deste grupo em busca do mágico de Oz, fazem do filme uma visita inesquecível ao universo infantil - culminando na descoberta de que não existe nada mais importante do que nossa família, amigos e claro, o nosso lar.
# 99 - BARRY LYNDON (Stanley Kubrick, 1975)
Kubrick fez de Barry Lyndon um dos melhores filmes da década de 1970, provando que sua criatividade era mesmo inesgotável (já colecionava obras primas do calibre de 2001 e Doutor Fantástico). Com efeitos estéticos jamais igualados em outro filme do gênio, este destaca-se também por uma inovadora artimanha: foi todo filmado em luz natural, bem distante dó “ambiente controlado” que um estúdio podia oferecer. Dentro dos padrões kubrickinianos, Barry Lyndon é a obra que melhor estudou um personagem – o belo alpinista social interpretado magistralmente por Ryan O’Neal. Um filme que nos remete de imediato ao século XVIII, com impressionantes roupagens e direção de arte cuidadosíssima (talvez a mais requintada da história do cinema), além da fotografia clássica e do roteiro firme e objetivo (que esmiuça o caráter questionável deste anti-herói britânico). Kubrick apresenta uma de suas mais curiosas direções, com pouquíssimos movimentos de câmera e enquadramentos tão intimistas e belos que fazem de Barry Lyndon uma visita à pinacoteca – eu sei, todos dizem isso – mas o filme parece mesmo uma impressionante coleção de quadros vitorianos.
# 98 - ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (George Stevens, 1956)
Superprodução ambientada no Texas, esta obra-prima do diretor George Stevens ainda se impõe como um dos mais ambiciosos painéis sobre a formação cultural dos EUA. Acompanhando duas gerações da família Benedict (que tem como patriarcas Rock Hudson e Elizabeth Taylor), o filme aborda temas como o conflito de terras, o preconceito velado, a ascensão social (registrada magnificamente pelo personagem de James Dean) e principalmente o poderio esmagador do dinheiro e da nobreza sobre a sociedade americana do século XX. E tudo aproxima Assim Caminha a Humanidade de seu título original (Gigante, adaptado do best-seller de Edna Ferber): a produção é superlativa do início ao fim. Destaque para James Dean, que tem aqui o seu último papel no cinema (o atorhavia falecido alguns meses antes do lançamento do filme nos cinemas, num acidente com seu Porsche).
# 97 - CASABLANCA (Michael Curtiz, 1943)
O maior problema de Casablanca reside mesmo no fato de ser uma produção superestimada. Ignorando o fato de ser considerado por muitos um dos 10 melhores filmes já feitos, o filme de 1943 (vencedor de 4 Oscar) é uma experiência emocionante, que passa a quilômetros da trivialidade – principalmente se observarmos a construção do romance entre Ilsa e Rick, o casal protagonista. Incrustrados no Marrocos, os dois vão pouco a pouco enfrentando os próprios fantasmas, e descobrindo mais de si mesmos – enquanto uma guerra insana explode lá fora. O elenco é fabuloso, e a música As Time Goes By, interpretada por Dooley Wilson, ainda embala um dos momentos mais românticos da história do cinema.
# 96 – O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Steven Spielberg, 1998)
Parecia impossível vislumbrar uma abertura tão cruel, realista, incômoda e amarga – mas Steven Spielberg conseguiu, em mais uma de suas façanhas cinematográficas. Com sua visão fiel à histórica invasão do Dia D, na Segunda Guerra Mundial, Spielberg acompanha ainda, em paralelo, a saga de um grupo de soldados (liderados por Tom Hanks) numa delicada missão: encontrar o colega James Ryan (Matt Damon), que teve todos os seus irmãos mortos no conflito e acaba de receber a ordem de voltar para casa. Todo o percurso é mostrado com precisão e ousadia, consolidado por um realismo impressionante - tudo captado pela câmera monumental do mestre Spielberg.
# 95 – O INDOMADO (Martin Ritt, 1963)
É difícil sair imune à desolação e aridez de O Indomado, um dos mais arrebatadores trabalhos de Paul Newman – e tesouro da ostensiva década de 1960. O diretor Martin Ritt não poupou esforços e conseguiu capturar com precisão os traços comportamentais comuns à população rural dos EUA, que podem ser resumidos em atitudes arcaicas (mas ainda louváveis). Caráter, dignidade e principalmente honestidade, parecem ser atributos recorrentes aos velhos fazendeiros americanos, e a necessidade de passar tais qualidades às próximas gerações fizeram de muitos verdadeiros mártires. Imunes à modernidade (que sempre vinha de mãos dadas com uma dúzia de maus hábitos), muitos assistiram a deterioração de suas famílias – filhos e netos dispostos a viver com suas próprias leis. O conflito entre o passado e o futuro é o mote central de O Indomado, um longa regido pela irreverência de Paul Newman e a resignação de Melvyn Douglas.
# 94 – DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (Glauber Rocha, 1964)
Momentos de muita poesia, aventura e drama neste que, para muitos, é o melhor filme de Glauber Rocha. Aborda toda a miséria social e espiritual de um casal de camponeses, que após matar o patrão, se une a um místico e ao cangaceiro Corisco – para mais tarde enfrentar Antônio das Mortes, matador de cangaceiros. Uma inebriante viagem em meio à solidão do sertão nordestino, orquestrada pela trilha sonora marcante de Heitor Villa-Lobos e Sérgio Ricardo. Um vigoroso exemplar do Cinema Novo, cheio de característica e peculiaridade – poucas vezes vistas em nosso país. Foi um dos representantes do país no Festival de Cannes daquele ano (junto com Vidas Secas), perdendo o prêmio principal para o também ótimo Guarda-Chuvas do Amor, o musical estrelado por Catherine Deneuve. Muitos (inclusive eu) contestam a vitória do filme francês.
# 93 - BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Ridley Scott, 1982)
Num futuro não muito distante, a Terra é dominada pela super-tecnologia, e os humanos dispõe de andróides (ou replicantes) para efetuar todo o tipo de trabalho em algumas colônias espaciais (reservadas às classes mais favorecidas da sociedade). Quatro destes andróides fogem da colônia e vêm à Terra (habitada pela massa social desfavorecida) em busca de um local em que escapem da escravidão e compreendam mais de si mesmos. Um policial de elite, do esquadrão Blade Runner (vivido pelo sempre ótimo Harrison Ford) é designado para eliminar os invasores. A saga do policial é narrada de maneira ágil e visionária (um dos poucos trabalhos realmente impecáveis do falho Ridley Scott). A longa jornada permitirá ao espectador as mais variadas interpretações sobre o que realmente está acontecendo ao planeta (já que o filme apresenta uma visão bastante pessimista da auto-escravização do homem e propõe, através da figura de Ford, uma reflexão sobre a que nível a raça humana chegou). Um filme que lembra vagamente Metrópolis, de Fritz Lang, não apenas pela direção de arte futurista, mas pelo excesso de tecnologia desenvolvido por nós mesmos (e do qual, mais tarde, nos tornamos reféns).
# 92 - O SOL É PARA TODOS (Robert Mulligan, 1962)
Poucos filmes americanos gozam de tanta reputação como O Sol é Para Todos. Concebido em 1962, pelo roteirista Horton Foote, a película é uma adaptação da obra vencedora do Pulitzer, To Kill a Mockingbird, escrita pelo dramaturgo Harper Lee. Com o toque certeiro e a mão firme do diretor Robert Mulligan, o filme encontrou o tom de que precisava. O Sol é Para Todos se vende como uma obra sentimental (e para alguns pode parecer envelhecida) – mas enquanto trabalha com as emoções do espectador, praticamente atinge a perfeição. O poderoso roteiro conta a história de um negro, que é acusado de molestar a filha branca de um fazendeiro local. Toda a população é contrária à sua inocência (isto é acentuado pelo preconceito enraizado nas sociedades sulistas do sul dos EUA, que nitidamente tinham resistência em se nivelar aos negros). Atticus Finch (Gregory Peck), é o advogado designado para a tarefa (recusada por diversos outros colegas), e mesmo sem a aprovação de seus conterrâneos, luta com dignidade para garantir a liberdade de seu cliente.
# 91 - UM ESTRANHO NO NINHO (Milos Forman, 1975)
Famoso por conquistar os 5 principais prêmios do Oscar 1975 (filme, direção, ator, atriz e roteiro), Um Estranho No Ninho é um retrato irreverente e poderoso sobre o homem versus a engrenagem. É o manifesto de Michael Douglas (produtor do longa, ao lado de Saul Zaentz) contra o fracasso da peça teatral baseada no mesmo livro, que levou a Warner Bros. a desconfiar do sucesso de seu projeto (quem adquiriu os direitos de adaptação de Ken Kesey foi o pai do ator, Kirk Douglas). O resultado foi impressionante: com o apoio de um elenco fabuloso (encabeçado por Jack Nicholson e Louise Fletcher), Um Estranho No Ninho marcou época e se impôs como um dos melhores trabalhos já realizados sobre a rebeldia e o inconformismo.
# 90 - TITANIC (James Cameron, 1997)
Vencedor de 11 merecidíssimas estatuetas do Oscar 1997, Titanic é uma daquelas obras indispensáveis a qualquer cinéfilo, que reúne num só filme toda a magnificência possível. Um romance proibido entre a aristocrata Rose (a linda e ótima Kate Winslet) e Jack (um convincente Leonardo Dicaprio) serve como pano de fundo para um imenso confronto de classes, já que ambos estão dentro do Titanic, e ocupam cabines na primeira e terceira classes, respectivamente. Noiva de Callinton Hoclkey (Billy Zane, pela primeira vez aceitável), Rose desafia as convenções para viver um grande amor. Paralelamente (e não menos importante), ocorreo naufrágio do Titanic, fato verídico ocorrido em 1912, onde milhares de pessoas morreram afogadas no Atlântico Norte. James Cameron obteve uma direção monumental neste clássico instantâneo da atualidade, um filme que entrega ainda efeitos especiais faraônicos e precisão extraordinária (já que uma réplica do navio foi construída e naufragada num imenso tanque no México, preenchido com milhões e milhões de litros d’água). Tanta dedicação transformou Titanic num dos melhores filmes já produzidos pelo cinema americano, de qualidade e charme indiscutíveis - além da maior bilheteria de todos os tempos.
# 89 – GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Richard Brooks, 1957)
Uma das melhores adaptações já realizadas sobre uma peça de Tenesse Williams, Gata em Teto de Zinco Quente retrata o cotidiano de uma família americana da década de 1950, no momento em que o patriarca está prestes a morrer de câncer. Enfrentando a indiferença do filho mais jovem, um ex-atleta que foi condenado após uma acidente, o velho concentra suas expectativas sobre a nora, jovem e muito atraente (que não por acaso enfrenta a mesma indiferença do esposo). Isto inevitavelmente explode o ciúme do primogênito e de sua esposa, ávidos pelo dinheiro do doente. Paul Newman, Burl Ives e Liz Taylor brilham em meio à diálogos ácidos, sensuais e provocativos, amparados por um roteiro amargo e ligeiramente pessimista - a síntese do microcosmo americano.
# 88 - GENTE COMO A GENTE (Robert Redford, 1980)
Robert Redford estreou na direção com o pé direito, levando às telas a emocionante história de um jovem de 19 anos (interpretado por Timothy Hutton), que julgando ser culpado pela morte acidental do irmão, enfrenta forte depressão e desenvolve impulsos suicidas. Como se não bastasse, enfrenta a rejeição da mãe (Mary Tyler Moore, num papel asqueroso) enquanto recebe um protecionismo exacerbado do pai (Donald Sutherland, excelente). É um trabalho cuidadoso e conduzido com extrema delicadeza, capaz de despertar emoções fortes e gerar muita reflexão. Um dos mais poderosos dramas da década de 80, Gente Como a Gente se alicerça basicamente nas ótimas atuações para construir seu sucesso (o destaque vai para Timothy Hutton, em seu filme de estreia, numa entrega quase visceral ao jovem problemático). A produção arrebatou os Oscar de Melhor Filme, Direção, Ator Coadjuvante (Hutton, que na verdade é protagonista) e Roteiro Adaptado (Alvin Sargent, do romance homônimo de Judith Guest). Imperdível.
# 87 – PAPILLON (Franklin J. Schafnner, 1973)
Em Papillon, palavra francesa equivalente à borboleta, somos apresentados ao sonho de Henri Charriére, um homem condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo. O inóspito local, localizado na Guiana Francesa, é aparentemente inexpugnável – além de reservar aos seus presidiários toda a sorte de maus tratos e brutalidades. Charriére (vivido por Steve McQueen)quer sair da Ilha, em busca de seu sonho de liberdade, e, para tanto, contará com a ajuda de seu amigo Louis Dega (uma das melhores atuações da carreira de Dustin Hoffman). Espere por cenas chocantes (como o banquete das baratas) e por imagens belíssimas, além de um roteiro ágil e interessantíssimo e direção bastante segura de Schafnner.
# 86 - OS MELHORES ANOS DE NOSSAS VIDAS (William Wyler, 1946)
Falar de um filme como Os Melhores Anos de Nossas Vidas é tarefa difícil para qualquer amante de A Felicidade Não se Compra, do gênio Frank Capra. Foi ele o responsável para que o filme perdesse o Oscar em 1946, numa das vitórias mais contestadas da história do prêmio. Observar a grandeza deste sensível filme de William Wyler (procurando evitar comparações), porém, pode se revelar numa excelente experiência. Nunca o cinema entregou uma história sobre a volta para casa no pós-guerra com tamanha maturidade e profundidade. Estamos à volta com três homens difrentes, que enfrentam três problemas diferentes. Um precisa lidar com a amputação de seu braço e a dificuldade em adaptar-se à nova realidade; outro perdeu o respeito da mulher, já que está desempregado e não pode mais oferecer a segurança e o conforto que ela alamejava; e o último precisa entrar em sintonia com os filhos, que cresceram longe dele e não conseguem estabelecer um contato afetivo e respeitoso. É um poderoso drama sobre o impacto que a guerra pode causar; imprescindível de ser assistido, apesar de sua vitória um tanto infame no Oscar 1946. Vale ressaltar, ainda, que Os Melhores Anos de Nossas Vidas é um dos trabalhos mais brilhantes do sempre competente Wyler.
# 85 – O EXORCISTA (William Friedkin, 1973)
Dificilmente um filme conseguiu assustar tanto. Baseado no livro homônimo de William Peter Blatty, O Exorcista garante momentos de tensão absurdas, além de cenas pavorosas e repugnantes – todas protagonizadas num simples quarto, enquanto uma garota é possúida por demônios. É, porém, um filme que exagera em vários momentos (tome-se como exemplo a desnecessária e revoltante cena do crucifixo), contudo mantém o clima proposto pelo roteiro com notável perfeição. A narrativa, apesar de simples, consegue criar um ambiente de horror gradativo e inquietante – uma experiência que você dificilmente irá querer repetir. Quem é o grabde responsável por tal proeza? William Friedkin, famoso dois anos antes por conquistar o Oscar de melhor direção pelo policial Operação França. O diretor atrasa ao máximo os momentos de terror gratuito, trabalhando com o medo do desconhecido (e atingindo sua máxima nos instantes cruciais, em cenas de arrepiar os cabelos). Destaque ainda para Linda Blair (a possuída) e Ellen Burstyn (a mãe à beira de um ataque de nervos), em atuações memoráveis.
# 84 – DANÇA COM LOBOS (Kevin Costner, 1990)
Outro filme que já esteve entre meus primeiros favoritos e após a conclusão desta lista (e revisão de diversos filmes para elaborá-la) acabou perdendo algumas posições. Não por acaso Dança Com Lobos é um dos melhores faroestes de todos os tempos, e o primeiro a ser laureado com a estatueta de melhor filme em toda a história do Oscar. E foram logo sete, incluindo o prêmio de melhor direção (para o até então novato Kevin Costner). Foi um filme marcante para a minha infância, e também um dos responsáveis para que eu começasse (de fato) a amar o cinema. Desconheço cena tão encantadora quanto à caçada dos búfalos, em que a câmera acompanha o estouro da manada em meio à poeira. É uma passagem tão fabulosa (dentre tantas outras) que faz de Dança Com Lobos um dos mais belos e contemplativos filmes já levados às telas. A própria história de John Dunbar (também vivido por Costner) é tocante e simbólica: depois de muitas produções que narravam o preconceito explícito à cultura indígena nos EUA, Dança Com Lobos mostrou o outro lado da moeda, através deste corajoso oficial, que, isolado de seu regimento, consegue lançar uma nova perspectiva sobre as diferenças étnicas que lhe rodeavam. Dispondo de trilha sonora fabulosa (composta por John Barry) e fotografia esplêndida, o filme é uma visita à alma de um homem que encontrou a maior beleza do mundo incrustrada dentro de si mesmo.
# 83 - O MENSAGEIRO DO DIABO (Charles Laughton, 1955)
Robert Mitchum tem neste, que é o único filme dirigido por Charles Laughton, o papel de sua vida. Ele interpreta o (falso) reverendo Harry Powell, um homem dominado pela ganância e coberto pelo manto da maldade. Se a expressão parece maneirista, assista ao filme e comprove: poucas vezes (talvez nunca) o cinema tenha entregado um vilão tão cruel e manipulador. O título original, The Night of The Hunter (ou A Noite da Caçada) simboliza bem a que se move o reverendo: pela busca incessante de 50 mil dólares, escondidos na casa de um presidiário que conhecera na cadeia anos antes, Harry Powell parece ser capaz de tudo. Envolve a família do bandido das maneiras mais sórdidas, e faz da vida de seus dois filhos (que guardam consigo a pequena fortuna) um verdadeiro inferno. Há ainda que se ressaltar a maneira dúbia e vil do falso reverendo (na verdade um assassino ocluso nas vestes clericais), que lhe dão a aura de um ser diabólico e psicótico (repare no formato das abas do chapéu de Mitchum, que lembram os chifres de um demônio). Ele traz ainda, tatuado sobre os nós dos dedos, as palavras amor e ódio – um simbolismo que faz de Powell um personagem incrível e único. Outros pontos dignos de nota são a trilha sonora e a fotografia (verdadeiras obras-de-arte). Atenção especial para a cena em que as crianças descem uma corredeira durante à noite (as sombras que envolvem a mata e o rio dão à sequência um aspecto fantasmagórico).
# 82 – LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean, 1962)
Outro filme que peca pelo excesso de estima, Lawrence da Arábia, é, contudo, um dos raros exemplos de biografia que deu certo. O longa conta a história do britânico T.E. Lawrence, que, encantado pelo mundo árabe, renunciou a uma brilhante carreira nas Forças Armadas de seu país, e conduziu as tropas árabes contra o exército turco em meio à Segunda Guerra Mundial. Um dos mais fantásticos trabalhos de fotografia já realizados (do sempre competente Freddie Young), além da direção monumental de David Lean e da trilha sonora opulenta e bela (do recém-falecido Maurice Jarre). Curiosidade: é o filme favorito dos cineastas Steven Spielberg e George Lucas, que trabalharam pessoalmente na restauração de som e imagem, oferecida numa versão excepcional lançada em DVD há quase dois anos no Brasil.
# 81 – ENTRE DOIS AMORES (Sidney Pollack, 1985)
Num dos mais belos retratos já mostrados sobre a África, Entre Dois Amores narra a história verídica da dinamarquesa Karen Blixen (Meryl Streep, num de seus melhores papéis), que após se casar com um barão, por conveniência, aventura-se num continente desconhecido. Envolvida com plantação de café e criação de gado, Karen apaixona-se pelo galante Dennis Finch Hatton (Robert Redford), mas encontra diversos percalços para a concretização deste amor. Um filme belíssimo visualmente, com uma das aberturas mais fascinantes já feitas (o trem sobre a planície africana, acompanhado da trilha sonora majestosa de John Barry). A força de Karen diante de seu isolamento a transforma numa mulher destemida – que no fim divide-se entre o amor de Hatton e a paixão por sua fazenda no Quênia.
# 80 – ACONTECEU NAQUELA NOITE (Frank Capra, 1934)
Famoso por arrebatar os 5 principais prêmios no Oscar (filme, direção, ator, atriz e roteiro), Aconteceu Naquela Noite, do notável Frank Capra, é uma das mais deliciosas comédias românticas já realizadas. Quando uma jovem mimada e voluntariosa (vivida por Claudette Colbert) foge de casa, após seu pai discordar de um possível casamento, acaba se encontrando casualmente com um jornalista cínico e desempregado (papel ideal para Clark Gable). A partir de então, várias situações colocarão o dois muito próximos, e o que era para ser uma simples matéria sensacionalista se transforma numa forte paixão. Um roteiro simples (como todos os filmes de Capra), mas cheio de pureza e magia cinematográfica. Talvez seja o precursor de tudo o que se vê a respeito nas comédias de hoje, e pode ser que não agrade tanto àqueles acostumados com o gênero; mas a genialidade de Frank Capra garante a esta pequena jóia um status quase insuperável dentro de sua proposta.
# 79 – BONNIE & CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS (Arthur Penn, 1967)
Se é um filme comercial, que aposta alto em tiros, perseguições e intrigas, afinal de contas, o que é que tem de mais? Muitos já criticaram esta versão cinematográfica sobre o perigoso casal delinquente Bonnie & Clyde, taxando-a como um mero projeto calcado na violência que se abateu sobre os EUA durante a Grande Depressão, na década de 1930. O que de fato ocorre aqui, é uma impressionante crônica sobre a lealdade e a paixão entre o casal (interpretado por Warren Beatty e Faye Dunaway de maneira fabulosa). O roteiro ainda se preocupa com momentos de comédia e muita ação, ingredientes essenciais para a construção de um filme comercial, sim, mas que no fim acabou se transformando num cult.
# 78 – INTRIGA INTERNACIONAL (Alfred Hitchcock, 1959)
Reconhecido por grande parte do público e por vários críticos como um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Intriga Internacional conta a história de um publicitário (Cary Grant) que é confundido com um perigoso terrorista. A partir de então, agentes secretos tentarão de diversas maneiras eliminá-lo (usando de algumas maneiras bastante inovadoras). Destaque para a famosa cena da perseguição de Grant por um avião agrícola, uma das mais emocionantes já criadas para o cinema. Outra sequência poderosa e igualmente alucinante se dá na caçada humana no Monte Rushmore, onde estão esculpidos os rostos de quatro presidentes americanos. O ritmo, impecável, mistura vários elementos de ação, aventura e romance – com momentos excepcionais vividos por Cary Grant e sua companheira (a loira gelada Eva Marie Saint). Os aplausos não podem deixar de ir para o lendário Ernest Lehman (Quem tem Medo de Virginia Woolf?), que criou em Intriga Internacional um dos melhores roteiros da história.
# 77 - O PIANO (Jane Campion, 1993)
O Piano é um dos filmes mais difíceis do cinema contemporâneo. Jane Campion resolveu estruturá-lo através de uma visão amarga demais para alguns – o que inevitavelmente provoca muita rejeição. Não há nada que suavize a solidão e a tristeza da viúva Ada McGrath, interpretada por Holly Hunter, que após aceitar um segundo casamento, arranjado por anúncio, muda-se com a filha de 9 anos (Anna Paquin) para uma inóspita, úmida e incômoda Nova Zelândia. A Oceania do século XIX não passava de um vasto e virgem local, tedioso e inoportuno para uma mulher madura e (ainda por cima) muda. O apego com um piano de cauda, que é, na verdade, a única forma de expressão da mulher, é imenso, e ela o tansporta junto consigo. Enfrenta, porém, a indiferença do marido (Sam Neill) à seus dons, e acaba envolvendo-se com um nativo (Harvey Keitel), que se mostra interessado pelo instrumento. Um drama romântico forte, que praticamente faz de Ada e do piano um só, com belíssima fotografia e trilha sonora – além de atuações apaixonantes de Hunter, Paquinn e Neill.
# 76 - FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS (Robert Zemeckis, 1994)
Para quem conhece Forrest Gump, é quase impossível dizer que não se apaixonou por ele. Um dos melhores personagens já criados pelo cinema contemporâneo, Forrest foi brilhantemente interpretado por Tom Hanks (que ganhou se segundo Oscar), e arrebatou importantes prêmios de 1994, inclusive o de Melhor Filme do ano. Uma história clara de superação e auto-estima, Forrest prova que a bondade é um sentimento a ser cultivado. Considerado por todos como um rapaz retardado (por apresentar um QI abaixo da média), Forrest Gump participa de vários eventos históricos dos EUA, de maneira involuntária (sendo sua presença crucial em vários deles). talvez soe um tanto fantasioso para quem assiste, mas Eric Roth (roteirista) quis explorar exatamente isto – ninguém acredita num rapaz de tantas limitações, mas sua figura acaba sendo indispensável para o andamento de tudo que está à sua volta. Tratando ainda de temas universais como a compaixão, a amizade, e principalmente o amor, Forrest Gump emociona com uma naturalidade poucas vezes vista, e se consolida como um clássico (recente) mas impérdível.
# 75 - JUVENTUDE TRANSVIADA (Nicholas Ray, 1955)
Jim Stark é sem dúvida um dos grandes personagens do cinema, “o rebelde sem causa” que consegue convencer qualquer um sobre os motivos que o levaram à delinquência. Nicholas Ray entrega uma direção bastante segura e ágil neste belíssimo filme, com uma visão amarga e muito realista da juventude americana. Pais cada vez mais ausentes na educação de seus adolescentes, além das drogas (lícitas e ilícitas) popularizadas no meio, formam um casamento explosivo, além de uma doença social aparentemente incurável. O filme é repleto de jovens transviados, perdidos nos próprios anseios, em busca da auto-aceitação ou simplesmente de exibicionismo. James Dean personifica Stark de maneira avassaladora, e juntamente à Sal Mineo e Natalie Wood, forma um grupo inquieto e cheio de dúvidas. Impossível não se identificar com os personagens (especialmente se assistimos ao filme quando jovens).
# 74 – A MARCA DA MALDADE (Orson Welles, 1958)
A genialidade de Orson Welles não pode ser ignorada. Poucas vezes um filme abordou a corrupção de maneira tão implacável, onde a disputa entre dois oficiais, um mexicano (Charlton Heston) e outro americano (Wells) vai às últimas consequências. Enquanto Welles interpreta um tipo doentio e perseguidor, que é capaz dos atos mais bárbaros para incriminar bodes expiatórios (numa busca insana pela justiça e punição a quaisquer preços), Heston vive um recém-casado (com Janeth Leigh) que ainda aposta na verdade e que luta contra a corrupção. O embate de duas personalidades tão conflitantes explode na tela, garantindo momentos memoráveis, neste que sem dúvida é um dos melhores filmes do gênero noir. Welles alcança aqui, inclusive, a complexidade de outra grande obra sua, Cidadão Kane, afirmando-se como um dos grandes cineastas do século XX.
# 73 - DERSU UZALA (Akira Kurosawa, 1974)
Um dos mais pungentes exemplares do cinema de Akira Kurosawa, Dersu Uzala vai além do óbvio ao retratar a forte amizade entre um explorador do exército russo e um camponês mongol. Filmado na Sibéria, este épico grandioso e esplêndido narra um episódio da vida do cartógrafo Vladimir Arseniev, que atravessa (e cataloga) o extremo norte da Rússia, com a ajuda de um ancião chamado Dersu, que lhe serve de guia. Um filme contemplativo e de beleza poucas vezes vista, é também uma poderosa crônica sobre a amizade dentro das diferenças (estabelecido com louvor através da admiração entre os personagens ao longo do trajeto). Kurosawa era praticamente um auto-exilado do Japão quando filmou Dersu Uzala, e seu profissionalismo o fez captar imagens monumentais dentro da paisagem russa (vide a cena da tempestade), que prova quão mínimo é o homem diante da natureza.
# 72 - AMARGO PESADELO (John Boorman, 1972)
Assista ao filme e descubra como uma simples viagem de barco pode se transformar num terrível e inesquecível pesadelo. Quando quatro amigos decidem percorrer pela última vez a correnteza de um rio (que está prestes a ser represado para a formação de uma hidrelétrica), esperavam apenas uma última contemplação das impressionantes paisagens da Geórgia, prestes a ser inundadas. Mas o trajeto reserva algumas surpresas terríveis para o grupo, que se vê confrontado com diversos medos adormecidos. Prepare-se para ótimas atuações de Burt Reynolds (coisa raríssima), John Voight e Ned Beatty, além da fotografia esplêndida e da inesquecível trilha sonora de Vilmos Zsigmond, que conta com um animado e inebriante Duelo de Banjos, marca registrada deste curioso filme. Destaque também para a cena do estupro, que além de chocante, é famosíssima; o desfecho melancólico e existencialista completa o painel.
# 71 – PIQUENIQUE NA MONTANHA MISTERIOSA (Peter Weir, 1975)
Não por acaso foi este o filme que garantiu ao ótimo Peter Weir prestígio internacional. Com uma narrativa requintada e minuciosa, Weir aborda um intrigante assunto verídico, ocorrido em 1900 na região montanhosa da Austrália. Um grupo de garotas, estudantes de um liceu (especializado em moças) sai para um piquenique na região de Hanging Rock, acompanhadas de duas professoras. O iminente desaparecimento de quatro delas traz à tona diversas dúvidas torturantes, acendendo uma discussão interminável sobre o sumiço tão repentino. Teriam sido estupradas, assassinadas, ou teriam sido abduzidas? Seriam fugitivas? Prepare-se para um filme repleto de misticismo, com uma atmosfera aterradora e quase medonha. É possível ainda desfrutar da impecável reconstituição de época, além da fotografia, da estranha e impressionante trilha sonora e dos belos figurinos. Um dos filmes mais inquietantes já produzidos, mórbido e perturbador na medida certa.
# 70 – AS HORAS (Stephen Daldry, 2002)
Adaptar um livro tão intimista e sentimental não é tarefa nada fácil. Mas através das mãos cuidadosas de David Hare, a adaptação do romance de Michael Cunningham ganhou um estilo único, que resvala entre a subejtividade e a melancolia. Em parceria com o excepcional diretor Stephen Daldry, então, Hare fez de As Horas o mais impressionante filme de seu ano, além de qualificá-lo como uma das mais dolorosas experiências cinematográficas de todos os tempos. Acompanhando a vida de três mulheres (Laura Brown, Clarissa Vaughan e ninguém mais ninguém menos Virginia Woolf), o filme narra os anseios, fantasmas e tragédias que permeiam a existência das mesmas, com um lirismo deprimente e um requinte visual e sentimental surpreendentes. É claro que as atuações de Julianne Moore, Meryl Streep e Nicole Kidman pontuam com glória a produção em si, mas As Horas consegue ir muito além – permitindo um mergulho profundo (e muitas vezes fatal) na alma humana, coisa bastante rara no cinema contemporâneo.
# 69 – OS INCOMPREENDIDOS (François Truffaut, 1959)
Um dos precursosores da nouvelle vague francesa conta a vida de Antoine Doinel, um garoto de 14 anos. Seus pais não lhe dão muita atenção, então ele mata aula para ir ao cinema e sair com seus amigos. Certo dia, ele descobre que sua mãe tem um amante, o que desperta dentro de si as primieiras fagulhas de um ódio incontrolável e sem precedentes, que virá manifestar-se mais tarde. Diversas situações decorrentes desta descoberta o transformam num garoto mentiroso e audaz, o que acaba preocupando também o padrasto – que numa cena bastante forte, o esbofeteia diante de seus colegas. Antoine dá, a partir de então, os primeiros passos para a marginalidade. O título “os incompreendidos” ilustra com clareza a conturbada fase da vida do garoto. Este é o primeiro longa de Truffaut, considerado um dos diretores europeus mais importantes de todos os tempos – vale ressaltar que o longa é extremamente autoral e baseado em reminiscências e acontecimentos da própria vida de Truffaut – , o que faz certamente deste o seu produto mais famoso.
# 68 – OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (Steven Spielberg, 1981)
Um dos filmes de aventura mais fantásticos já levados ao cinema, Os Caçadores da Arca Perdida, primeiro capítulo da excelente série do herói Indiana Jones, funciona basicamente por um motivo: reúne, em 2h de projeção, todos os ingredientes necessários ao bom desenvolvimento de um filme. Há aventura, romance, ação, comédia, enfim, disponibiliza todo o tipo de estilo num só longa. Harrison Ford, na pele do professor universitário Jones, está carismático e em ótima forma (já que seu personagem não pára quieto em momento algum, sempre em busca de algum artefato precioso ou metendo-se nas mais inimagináveis encrencas). Spielberg também se supera (a partir daqui ele consolidou seu nome definitivamente em Hollywood), com uma visão aguçada atrás das câmeras – e assumindo parceria com Lawrence Kasdan, o roteirista, parecia mesmo conhecer o gosto de milhões de pessoas (que assistiram ou ainda assistem o seu filme com muito encantamento).
# 67 – O SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI (Peter Jackson, 2003)
Claro que podíamos aguardar tamanho espetáculo num momento de tanta tecnologia cinematográfica, mas o último episódio da magnífica franquia O Senhor Dos Anéis conseguiu superar todas as expectativas. Com um roteiro forte e bastante estruturado, a produção foi muito além das obviedades, criando, inclusive, um dos personagens mais fascinates da história (dentro de sua dubiedade) – o grotesco Gollum. Ainda que Peter Jackson seja especialista em cinema-espetáculo, é impossível negar sua desenvoltura dramática neste capítulo da série, que evoca o melhor de cada personagem. Os efeitos especiais, à parte, são os mais fabulosos da história, e dão um contorno épico e monumental à produção, também famosa por surgir de uma coletânea de livros escritas pelo visionário Tolkien. No fim das contas, 11 Oscars na bagagem, além de muita magia e grandeza, o que faz de O Retorno do Rei um filme para a eternidade.
# 66 – RAN (Akira Kurosawa, 1985)
Akira Kurosawa teria descrito Ran como “uma série de eventos humanos vistos do céu”. Um belíssimo significado para um dos filmes de maior beleza plática da história do cinema. Adaptado da obra Rei Lear, de William Shakespeare (algo comum na carreira do cineasta, que já adaptou Macbeth como Trono Manchado de Sangue), Ran se passa Japão, durante o século XVI. Hidetora (Tatsuya Nakadai), o poderoso chefe do clã dos Ichimonjis, decide dividir em vida seus bens entre seus três filhos: Taro Takatora, Jiro Masatora e Saburu Naotora. Com o primeiro fica a chefia do feudo, as terras e a cavalaria. Os outros dois ficam com alguns castelos, terras e o dever de ajudar e obedecer Taro. No entanto, Hidetora exige viver no castelo de alguns deles, manter seus trinta homens, seu título e a condição de grão-senhor, mas Saburu, o predileto, prevendo as desgraças que viriam com tal decisão, se mostra contrário à decisão paterna. É o início de um estudo profundo sobre os sentimentos humanos, que tendem, a cada segundo, entre o amor e o ódio, a ganância e a simplicidade, o triunfo e a desgraça.
# 65 - DOUTOR FANTÁSTICO (Stanley Kubrick, 1964)
Cuidado com quem detém o poder. É uma ótima constatação, especialmente numa época em que o mundo vivia sob a sombra da Guerra Fria, e estava na moda ser anticomunista. Um general americano tresloucado (vivido por um extraordinário Peter Sellers) quer acabar com a Ameaça Vermelha, e se depender dele, a Rússia será bombardeada imediatamente – dando início a uma temível guerra nuclear, talvez a Terceira Guerra Mundial. Não se engane pela rápida descrição do roteiro, este filme é absurdamente complexo e expõe toda a maestria de Kubrick - um diretor dado a amoralidades e principalmente a finas ironias. É exatamente neste ponto que Doutor Fantástico alcança a primazia, já que seu roteiro é uma coleção de gags maravilhosas, além uma crítica ácida e humorada ao patriotismo desmedido (e infundado, quando na verdade, os militares parecem amar a violência, e não a pátria). Sellers atua triplamente (isto mesmo, três personagens absurdamente diferentes), mas é na pele do doutor que dá nome ao filme que o ator encontra o tom perfeito (que aliás, deveria ter-lhe garantido um Oscar).
# 64 – INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Nicolas Roeg, 1973)
Após a morte prematura da filha de cinco anos, um casal inglês (interpretado por um ótimo Donald Sutherland e uma excelente e bela Julie Christie) muda-se para Veneza. Porém, o encontro casual com uma vidente levanta a possibilidade da filha morta se comunicar do além. Incrivelmente Nicolas Roeg transformou Veneza num local sinistro e amedrontador (nada elitizada), sepultando toda a aura romântica da cidade italina. Optando por uma narrativa não-linear e absolutamente descontínua, o diretor atinge os sentidos de maneira muito peculiar, confundindo a realidade com os devaneios e explorando o medo através do desconhecido. Não se trata de uma película de horror gratuito, embora algumas sequências (especialmente a da menina com a capa vermelha) provoquem arrepios. O desenrolar da história, porém, trabalha com a dúvida, sem um determinismo imediato, e melhor, sem paradigmas comuns aos filmes do gênero. O desfecho é intrigante e causou muita polêmica, mas deu o tom exato à um filme que desde o inicío mostrou-se incomum e repleto de peculiaridades.
# 63 – TAXI DRIVER (Martin Scorcese, 1976)
Robert DeNiro é o nome desta produção, que literalmente destrói o sonho americano. Scorcese conseguiu desestruturar definitivamente todo e qualquer tipo de brilhantismo numa sociedade suja e marcada pela mesquinharia, neste, que sem dúvida, é um de seus melhores filmes. O personagem de DeNiro é um motorista de táxi, veterano da Guerra do Vietnã, que transita pelas noites nova-iorquinas sem nenhum motivo especial, além (é claro) de ganhar dinheiro. Sua profissão permite que se envolva com os problemas de várias pessoas, e é diante da miséria humana e da imundície das ruas (com drogas, prostituição, etc.) lhe ocorre fazer justiça com as próprias mãos. Um filme de ocasiões, sem uma trama redonda, mas repleto de grandes momentos, e óbvio, ótimas atuações (além de Robert de Niro, Cybill Sheperd, Albert Brooks e Jodie Foster também estão ótimos).
# 62 - AMOR, SUBLIME AMOR (Robert Wise, 1961)
Quem conhece este magnífico musical, sabe que poucas foram as vezes que Hollywood esteve tão inspirada ao criar algo do gênero. Transpondo a trágica obra de Shakespeare, Romeu e Julieta, para as ruas de Nova York, em 1950, o roteirista Ernest Lehman deu à Amor, Sublime Amor (patética tradução de West Side Story) um tom tão fabulístico que o resultado não podia ser outro: em meio à ótima disputa entre os grupos (sim, as famílias do clássico de Shakespeare são substituídas por gangues rivais) e a impossibilidade do romance de Tony e Maria, o que se vê é um filme arrebatador em todos os sentidos. As canções são antológicas (em especial “America” e “The Jet Song”), e são acompanhadas por coreografias brilhantes. Jerome Robbins coreografou os atores de um modo tão especial, que só por este detalhe o filme já seria inesquecível; agora, some-se isto ao forte elenco (destaque para os coadjuvantes Russ Tablyn, George Chakiris e Rita Moreno), à direção de arte cuidadosa e a fotografia em cores vibrantes, e temos um filme, que com toda a certeza, é um dos grandes musicais de Hollywood, vencedor de 10 Oscar. O único senão do longa é mesmo Richard Beymer (o protagonista), que além de insosso, é dublado em todas as canções pelo lendário Jimmy Briant.
# 61 - O PARQUE DOS DINOSSAUROS (Steven Spielberg, 1993)
Steven Spielberg mexeu com os sonhos da Humanidade ao propor o reaparecimento dos dinossauros na Terra, através da extração de DNA conservado em âmbar fóssil. Um milionário (intepretado por Richard Attenborough) financia as pesquisas e e encerra todos os répteis numa ilha do Atlântico Sul. Uma sequência de desastres (que vai desde o roubo de embriões à uma tempestade tropical) faz com que o fornecimento de energia das cercas seja interrompido, e diversos dinossauros carnívoros (incluindo o temível Tiranossauro) ficam à solta. Quem assistiu à Jurassic Park sabe que poucas vezes (para mim, nunca) o cinema ofereceu um filme tão brilhante dentro de sua proposta. Não há elementaridades, nem entrelinhas, nem existencialismo; há apenas a clara intenção de divertir platéias do mundo inteiro (isto se prova com a vultosa bilheteria de 915 milhões de dólares), com o uso de fabulosos efeitos especiais (os dinossauros são impressionantes para a época), muita ação e aventura. Há ainda um grupo eclético e divertido de personagens (o paleontólogo resmungão e sua doce e bela esposa, as crianças curiosas, o funcionário ganancioso, o explorador convencido e humorado, etc) que se faz indispensável neste tipo de produção. Jurrasic Park é uma coleção de cenas arrebatadoras (a perseguição do carro pelo T-Rex, os velociraptors na cozinha, o duelo final entre as espécies carnívoras, entre tantas outras). A trilha sonora espetacular de John Williams (uma das melhores do cinema) completa o painel, orquestrado com categoria por Spielberg, meu diretor favorito. Há momentos em que nada mais é preciso num filme, que senão divertir-nos verdadeiramente, reservando tensão, sustos, e claro, o deleite visual que a tecnologia de Hollywood pode oferecer.
# 60 - O SEXTO SENTIDO (M. Night Shyamalan, 1999)
Quando você vê O Sexto Sentido pela primeira vez, o impacto é tanto que você fica sem palavras. Extremamente inovador para sua época, e incessantemente copiado nos anos subsequentes, esta obra-prima de M. Night Shyamalan utliza-se de um garoto indefeso (um maravilhoso Haley Joel Osment) para fletar com o mundo do além. Problemático e perseguido pelos colegas, o menino esconde de todos (na maioria das vezes deliberadamente) o que está realmente modificando o seu comportamento, e transformando-o em alguém frequentemente amedrontado. É quando um psiquiatra infantil (Bruce Willis) é contratado pela mãe (Toni Collete) para avaliar o estado psicológico do garoto. A partir de então, nada é o que parece ser. O Sexto Sentido possui uma trama limpa e muito bem roteirizada, trabalhando com elementos que naturalmente apavoram qualquer um. Mas, como muitos devem saber, é no clímax (desfecho) que o filme apresenta toda a sua grandeza. Não conheço nenhum outro longa que tenha me impressionado tanto ao fazer uma importante revelação. Palmas para Shyamalan, um ótimo diretor e roteirista, incompreendido e muito subestimado.
# 59 - CIDADÃO KANE (Orson Welles, 1941)
Orson Welles tinha 24 anos quando levou este clássico às telas, transformando-se, desde então, numa lenda. Baseado na vida do empresário William Randolph Hearst (de quem Welles sofreu intermináveis processos), a produção é atemporal e causa impacto até hoje. Trabalhando com a ganância e a influência da sociedade sobre o indivíduo, Welles conta a vida de Charles Forster Kane, um magnata das comunicações, que enriqueceu sem nenhum precedente – e acumulou uma das maiores fortunas da América. No momento de sua morte (sim, o filme é estruturado em flashbacks) ele murmura a célebre palavra “rosebud”. Informados sobre este episódio, um batalhão de repórteres tenta descobrir o sentido desta palavra (que é revelada apenas na cena final). Claro que esta busca por significados prevê um estudo minucioso do personagem Kane, e o espectador tem a chance de conhecer detalhes deste homem, que, envolvido por dinheiro, mulheres e poder, desestabiliza tudo o que está à sua volta, arruinando sua vida e a vida das pessoas que convive. Cidadão Kane carrega um título muito questionável (o de melhor película da história, segundo o AFI), mas é impossível fazer-se rogado diante da importância deste filme para sua época, que veio a influenciar fortemente o estilo de fazer cinema na posteridade – sem falar é claro, no mergulho profundo que Welles efetua na alma de seu personagem, como se dissesse “dê-lhe dinheiro e poder, e Kane mostrará sua verdadeira face”.
# 58 – O HOMEM ELEFANTE (David Lynch, 1980)
Na Inglaterra vitoriana, um homem (John Hurt) é portador de uma curiosa (e raríssima) enfermidade, que lhe deforma quase que completamente o corpo. Como já era de se esperar, oportunistas tiram vantagem da situação para explorá-lo como atração de circo – vendendo sua imagem como a de um monstro. Dotado de dificuldades mecânicas e intelectuais, é visto pela sociedade como um retardado, e só após ser descoberto por um médico (Anthony Hopkins) que ele poderá receber tratamento adequado. David Lynch é um diretor curioso, que filma histórias desconexas e impactantes; mas, aqui, em O Homem Elefante, o diretor abre espaço para emotividade (sem apelar para pieguismos) e é capaz de fazer chorar. O que mais impressiona é que o longa é baseado em fatos reais. Joseph Merrick foi o verdadeiro homem-elefante, uma pessoa que sofreu das mais bárbaras hostilidades, um homem que enfrentou a ignorância mas que, felizmente, também recebeu o carinho.
# 57 - O SÉTIMO SELO (Ingmar Bergman, 1957)
Após dez anos, um cavaleiro (Max Von Sydow, em ótima interpretação) retorna das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca. É um trabalho muito belo do mestre Bergman, cheio de metáforas acerca da existência humana. Nada do que aparentemente pareça trivial ou mesmo tolo, é de fato. O filme permite novos insights a cada revisão, provando que toda a filmografia de Bergman veio com o intutio de provocar a reflexão no ser humano. Atenção para a fotografia e edição, absolutamente primorosas.
# 56 - PACTO DE SANGUE (Billy Wilder, 1944)
Billy Wilder fez de Pacto de Sangue um dos melhores suspense noir de toda a História. O roteiro é simples: Fred MacMurray interpreta um vendedor de seguros, bastante ganancioso (disposto a tudo para estabelecer-se economicamente), que é seduzido e induzido por Barbara Stanwyck (numa atuação digníssima do Oscar de Melhor Atriz, mesmo que tenha perdido para Ingrid Bergman em À Meia Luz), uma sedutora, entediada e manipuladora mulher, a matar seu marido. Os dois farão com que pareça mero acidente. E o mais macabro : cometerão o delito em condições específicas, de maneira que garantam o dobro do seguro de vida. A direção de Wilder é consistente, e o roteiro, adaptado pelo próprio Wilder e prelo escritor Raymond Chandler (do romance policial de James M. Cain) é poderosíssimo, revelando diversas (e ótimas surpesas) com o desenrolar da história. Temas como adultério, intimidação e homossexualismo são retratados de maneira pouco convencional nesta obra imperdível do gênero (e uma das melhores da criativa década de 1940).
# 55 - UMA AVENTURA NA ÁFRICA (John Huston, 1951)
Dizer que Humphrey Bogart é especialista em tipos cínicos e beberrões não é nenhum exagero, mas é certo que boa parte do charme deste ótimo filme de John Huston pertence à ele. Não acho que este fosse o filme mais apropriado para lhe dar um Oscar, já que Marlon Brando arrasou na pele de Stanley Kowalski no mesmo ano, mas é certo que seu personagem era carismático o suficente para legar-lhe uma estatueta. Vivendo o dono do African Queen, barco que atravessa o Rio Congo em plena Segunda Guerra Mundial, a incumbência de Bogart é levar Katherine Hepburn, uma missionária que escapou de um massacre, de volta à civilização – mas os alemães estão cercando todas as margens e garantirão uma série de contratempos ao casal. Quem se lembra de Hepburn como a mimada herdeira de Levada da Breca deve saber que a atriz é ótima para fazer pirraças. Aqui ela assume uma postura mais rígida, mas o humor característico continua, e ela protagoniza ótimas cenas ao lado do mal-humorado Bogart. Memoráveis sequências filmadas na África, e muita ação e aventura – ao estilo inconfundível do mestre Huston.
#54- REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Alfred Hitchcock, 1940)
Adaptado do romance homônimo de Daphe DuMaurier, Rebecca, A Mulher Inesquecível não só é um dos melhores filmes de Hitchcock, como também um de seus suspenses mais intrigantes. Uma simplória dama-de-compainha (vivida docemente por Joan Fontaine) aceita o pedido de casamento de um nobre inglês (Lawrence Olivier) que conhecera na Riviera Francesa. Mudando-se para a gótica e impressionante Manderley, mansão do esposo, ela transforma-se imediatamente na vítima indireta de Rebecca, a ex-mulher do nobre, morta anos antes em circunstâncias misteriosas. A memória da falecida paira por toda a propriedade, e a sinistra governanta (Judith Anderson) faz questão de lembrá-la do episódio a cada instante. Mas é na figura de seu marido que se escondem os mais surpreendentes segredos de Manderley. É um suspense fantástico, merecedor do polêmico Oscar sobre As Vinhas da Ira. Prepare-se para um clima de medo implícito, para excepcionais descobertas e principalmente, para mais uma demonstração do talento de Alfred Hitchcock, neste ótimo filme de romance, drama e mistério.
# 53 – O GRANDE DITADOR (Charles Chaplin, 1940)
Apesar de adorar o estilo de Chaplin (e sua visão doce e pura da vida), e tendo conferido alguns de seus filmes (como O Garoto, Luzes da Cidade e Tempos Modernos) não me acostumei a encarar suas obras como as melhores já realizadas pelo cinema, mesmo que sejam pioneiras e muito influentes dentro do meio. Aqui, Chaplin vive ao mesmo tempo um ditador patriota e um barbeiro judeu, numa das mais ácidas críticas contra a guerra. Filmado no auge do conflito, este filme causou a expulsão de Chaplin dos Estados Unidos - mas o que importa é que sua forma irônica de encarar o conflito está completamente imortalizada, neste que, sem dúvida, é um de seus melhores filmes. Não entendam o prefácio desta resenha como um desdém ao gênio, porque eu seria incapaz de desdenhar o cinema de Chaplin. A cena em que o barbeiro judeu (confundido com o ditador) assume o palanque para pronunciar seu discurso de paz é belíssima, além de momentos inesquecíveis como a brincadeira do ditador Hynkel com o globo terrestre (uma das melhores que já vi na vida). É o primeiro filme totalmente falado de Chaplin, indicado a 5 Oscar e infelizmente vencedor de nenhuma estatueta (com certeza o prêmio de melhor ator era de Carlitos).
# 52 - JANELA INDISCRETA (Alfred Hitchcock, 1954)
James Stewart e Grace Kelly eram atores frequentemente explorados pelo ótimo Hitchcock, mas é neste Janela Indiscreta que os dois entregam suas melhores atuações do período em que trabalharam com o gênio do suspense. Stewart é um fotógrafo profissional que está afastado da profissão temporariamente, após quebrar a perna. Sua situação de extrema ociosidade o faz bisbilhiotar tudo o que acontece em seu prédio, através das janelas contíguas ao seu apartamento (prédio, aliás, que foi todo montado, com precisão admirável). Um dia ele julga ter presenciado um assassinato (acha que o vizinho sorumbático assassinou a esposa) e faz deste suposto episódio sua razão de vida (na tentativa de descobrir a verdade, envolve, além da namorada, a enfermeira, vivida por Thelma Ritter). Um filme claustrofóbico, mórbido e paranóico, Janela Indiscreta avalia o quão mesquinha e fantasiosa pode tornar-se a vida de uma pessoa ociosa, fazendo jus ao ditado “mente vazia, oficina do diabo”. A direção de Hitchcock é nervosa, dando contorno exato à situação viciosa de Stewart, a fotografia colorida de Robert Bunks também se destaca – mas o charme deste filme está, sem dúvida, na figura de Grace Kelly, incrivelmente elegante e sensual (além de ótima atriz).
#51 – RASTROS DE ÓDIO (John Ford, 1956)
John Wayne encarou um tipo muito questionável em Rastros de Ódio. No papel do oficial Ethan, veterano da Guerra Civil Americana, teve de mostrar sua fúria contra a miscigenação racial, sempre muito comum no meio-oeste americano. Após perder a cunhada e o irmão num ataque indígena, ele toma noção de que suas duas sobrinhas foram raptadas – e sai em busca de ambas, disposto a matar ou morrer. Com um ódio incontrolável à raça indígena, ele permanece por quatro anos, trotando pelo deserto, até que encontre as meninas desaparecidas. O filme é contemplativo, doloroso e ao mesmo tempo divertido, com imagens sensacionais (capturadas pela fotografia de Winton C. Rock) e impressas na tela pela câmera monumental do grande John Ford. Considerado um dos faroestes mais antológicos do cinema, Rastros de Ódio é mesmo merecedor de tal título. Poucos filmes do gênero exploraram tão bem a solidão dos caubóis como esse, mínimos diante da natureza hostil e árida, e menos filmes, ainda, utilizaram do protagonista para construir um anti-herói homicida e preconceituoso. Aqui, tudo isto acontece, goste você ou não. Destaque também para a ótima trilha sonora de Max Steiner (o fabuloso compositor do Tema de Tara, de …E O Vento Levou).
# 50 – AS NOITES DE CABÍRIA (Federico Fellini, 1957)
Sei da importância de Federico Fellini para o cinema, e através deste belíssimo trabalho, o italiano conseguiu comprovar seu imenso talento – mas o fato é que a complexidade de algumas obras jamais me transformaram num fã inveterado de seu trabalho (embora simplesmente ame filmes como A Doce Vida e 8 1/2, chegando a detestar Amarcord e Satyricon). Em As Noites de Cabíria, porém, o diretor alcança um patamar impressionante – narrando as desventuras da prostituta romana Cabíria, que acredita na bondade de todos que a cercam, e claro, que um dia encontrará o verdadeiro amor. Porém, a infelicidade de Cabíria está no próprio destino, já que sua profissão a obriga a conviver com pessoas falsas e detestáveis (que reservam todo o tipo de trapaças contra ela). É um filme claramente otimista, que defende a ideia de “que por mais que você caia, procure sempre se levantar”. A cena final evidencia bastante qual é o verdadeiro sentimento desta simpática prostituta, uma mulher que jamais desiste da felicidade. Com uma estrutura narrativa ágil e dinâmica, o filme consegue expor com muita clareza suas intenções – quase um contrassenso na carreira de Federico Fellini, diretor acostumado a encarar estudos muito complexos do meio humano.
# 49 - MORANGOS SILVESTRES (Ingmar Bergman, 1957)
Após um estranho pesadelo, um professor desiste de fazer uma viagem de avião e decide ir de automóvel. Seu destino? Uma homenagem por seus 50 anos de dedicação ao trabalho. Pelo caminho, porém, diversos acontecimentos o colocarão diante do próprio passado – entre eles o encontro com alguns desconhecidos e parentes. Um auto-exame faz o professor tocar em feridas profundas (para ele aparentemente cicatrizadas) e uma nova perspectiva sobre sua vida (e o que resta dela) começa a se formar. Todos conhecem o cinema intimista e contemplativo de Bergman, e se o diretor sueco não fosse um dos precursores do cinema-reflexão, muitos poderiam chamá-lo de mero discípulo. O fato é que Bergman assume o papel de mestre, imortalizando sua obra (que dosa dor e alegria como nenhuma outra) e doutrinando seguiodres (vide o ótimo Woody Allen). Em Morangos Silvestres há espaço para todo o tipo de emoção, e provavelmente você sairá humanamente renovado após o término da fita.
# 48 - PERDIDOS NA NOITE (John Schlesinger, 1969)
John Voight tem o melhor desempenho de sua carreira neste Perdidos Na Noite, filme realista e simpático, vencedor de 3 Oscar (incluindo Melhor Filme) em 1969. Interpretando um caubói texano ingênuo e bonito, que sonha em fazer fortuna se prostituindo em Nova Iorque, Voight entrega uma atuação muito sincera e faz de seu personagem Joe Buck um dos mais divertidos já criados por Hollywood. Ao chegar na cidade, Buck é assessorado por um malandro espertalhão (Dustin Hoffman), que lhe mostrará a verdadeira face da megalópole americana. É um filme sobre o existencialismo (e lindíssimo enquanto tal), já que o personagem de Voight é virado do avesso na cidade grande, e acaba descobrindo muito mais de si mesmo. É uma América modificada pela modernidade que traz tais descobertas (num tempo em que a contracultura abalava o tradicionalismo, muito bem evidenciado pelos caubóis do interior que vêm em busca do sonho americano). Hoffman também brilha, embora ligeiramente ofuscado por seu colega, e faz de Ratso, seu personagem, outra vertente bastante curiosa deste filme, que sem dúvida, é um dos grandes do cinema.
# 47 - MAGNOLIA (Paul Thomas Anderson, 1999)
O arrependimento existe para ser usado. Use-o, porque a vida não é curta, elá é longa, longa demais. Tais frases permeiam todo o universo trágico de Magnolia, a obra-prima de Paul Thomas Anderson. Concebido pelo diretor quando o mesmo tinha apenas 30 anos, o filme recebeu notável influência do mestre Robert Altman (que sabia como ninguém conduzir histórias diversas dentro de um filme, e, portanto, qualificava-se como um diretor de atores excepcional). Anderson consegue ir além quando se aventura no roteiro, poderoso e cheio de profundidade, uma das experiências mais fascinantes já proporcionadas – um território obscuro, sim, mas de onde se pode fazer grandes descobertas. Um elenco fabuloso (com destaque para Melora Walthers e William H. Macy), além da especialíssima Wise Up, música de Aimee Mann. Uma película tocante, que demonstra a auto-destruição do homem, para mais tarde o mesmo buscar a redenção.
# 46 – SINDICATO DE LADRÕES (Elia Kazan, 1954)
Marlon Brando era um ator fantástico, daqueles que sabiam como ninguém impor sua presença num filme. Terry Malloy, um de seus mais densos papéis, representa com perfeição a proposta de Sindicato de Ladrões, película vencedora de 8 estatuetas no Oscar 1954. Num momento de corrupção extrema nas docas de Nova Iorque, onde qualquer obstáculo que se ponha entre o líder sindical Friendly (o ótimo Lee J. Cobb) e seus lucros obscuros, é rapidamente eliminado. Joey Doyle é um desses obstáculos, e Malloy (que também faz parte do sindicato) é utilizado como isca para atraí-lo à morte. A certa altura, ciente de que foi usado para o crime, e apaixonado pela irmã do amigo assassinado, Malloy passa a questionar suas atitudes e leva sua crise de consciência às últimas consequências. Quando assistimos à Sindicato de Ladrões, uma das primeiras coisas que nos ocorre é que já conhecemos a trama de algum lugar. É certo que se trata de uma narrativa desgastada, porém, dado o seu ano de lançamento, tem-se noção de seu pioneirismo. Numa época em que as zonas portuárias dos EUA sofriam com centralização de poder, corrupção e intolerância, Kazan se arriscou na construção de um filme que defende valores humanos – entre eles a coragem de se levantar contra o sistema e partir em busca da verdade. Com sequências memoráveis, especialmente o desfecho inebriante, Sindicato de Ladrões oferece-nos um painel ambicioso sobre o momento exato de um homem deixar a omissão e lutar por seus interesses. Utilizando Marlon Brando para o complexo papel, não só tivemos um Oscar por sua atuação, mas também a constatação de que Terry Malloy é um dos mais famosos heróis hollywoodianos.
# 45 – A UM PASSO DA ETERNIDADE (Fred Zinneman, 1953)
Ninguém (mesmo que não tenha conferido o filme) desconhece a famosa cena em que Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijam na praia do Havaí, enquanto recebem uma fulgurante onda do mar em seus corpos. Este é um dos filmes mais bem interpretados da história, com um elenco em perfeita sintonia (além de Kerr e Lancaster, Frank Sinatra, Donna Reed e Montgomery Clift entregam formidáveis atuações). O filme é uma reunião de acontecimentos na vida de membros do exército americano; enquanto um deles se nega a participar da equipe de boxe do Exército (uma crítica ao conformismo da maioria dos soldados) e se apaixona por uma prostituta, outro enfrenta graves problemas no casamento e acaba mantendo uma relação extraconjugal. Tal estrutura dramática classifica A Um Passo da Eternidade como um vigoroso drama, que usa na verdade, o ataque de Pearl Harbor como pano de fundo para as tragédias pessoais de todos os personagens. Vencedor de 8 Oscar em 1953, o filme é um clássico absoluto, romântico, amargo, patriótico e dinâmico na medida exata.
# 44 - TOURO INDOMÁVEL (Martin Scorcese, 1980)
Jake La Motta é o personagem da carreira de Robert DeNiro, acho que todos devem concordar. O boxeador problemático e explosivo intrepretado pelo super astro é um personagem tão complexo e anticonvencional, que consegue manter, sozinho, um filme de mais de duas horas. Apelidado de”Touro do Bronx”, LaMotta teve um sucesso imediato nos ringues após as primeiras lutas, tamanho era seu potencial para o esporte (e com nível de crueldade era bastante notável). Mas os prêmios que seu talento lhe rendeu não foram suficientes para amenizar um comportamento agressivo fora dos ringues. Possessivo e paranóico, aos poucos ele degradou seu casamento de maneira assustadora, para mais tarde enxergar uma decadência acentuada em todos os setores de sua vida (inclusive profissional). Scorcese tem aqui uma direção excepcional, talvez a melhor de sua admirável carreira, mas saiu do Oscar 1980 sem nenhuma estatueta nas mãos. Joe Pesci e Cathy Moriathy também apresentam atuações maravilhosas (na minha opinião a melhor da carreira de ambos). Uma curiosidade foi ver Touro Indomável entre os 10 melhores filmes da história do cinema no ranking da AFI (não por que não mereça), mas por ser um filme tão recente. Para mim, é sem sombra de dúvidas, o melhor de todos os filmes de Scorcese, e fico feliz que receba tal reconhecimento, já que o longa foi terrivelmente injustiçado em sua época (mas, calma, não falem mal de Gente Como a Gente, pois eu também adoro o filme).
# 43 - NUM LAGO DOURADO (Mark Rydell, 1981)
Num Lago Dourado é um filme especial, que envolve uma história relativamente simples, mas profundamente emocionante. Katherine Hepburn dá vida à uma doce e velha senhora, que vive problemas familiares durante um verão no Maine. Sua atuação é extraordinária, e o elenco do filme, composto ainda por Henry Fonda, Jane Fonda e Doug McKeon, é absolutamente fantástico. Muitos o reconhecem como o longa responsável pelo quarto Oscar de Hepburn (que àquela altura já apresentava sinais evidentes do Mal de Parkinson), mas a grande maioria associa, na verdade, Num Lago Dourado à figura de Henry Fonda; foi neste que o famoso ator conquistou seu único Oscar de Melhor Ator, após uma carreira extensa e pontuada por incontáveis sucessos. Outra curiosidade é que Jane Fonda e o pai tiveram problemas parecidos aos de seus personagens na vida real, resolvendo tais pendências apenas alguns anos antes da Universal lançar Num Lago Dourado nos cinemas. Um filme simples, mas inesquecível.
# 42 - UM LUGAR AO SOL (George Stevens, 1951)
Montgomery Clift e Elizabeth Taylor estão belos como nunca nesta excelente crônca sobre ambição e ganância. Vivendo um operário que sonha com ascensão social, Clift vai trabalhar na fábrica de um tio, industrial endinheirado, e logo se encanta pela beleza de uma moça pobre (Shelley Winters) que se ocupa na linha de montagem. Eles começam a namorar e a jovem engravida; mas após ser introduzido na alta sociedade, e conhecer uma atraente ricaça (Taylor), lhe surge a ideia de matar a operária (que àquela altura já ameaça denunciar-lhe ao tio). Concebido pelo ótimo George Stevens como o primeiro capítulo de uma trilogia sobre a formação da América (que seguiu com Os Brutos Também Amam e Assim Caminha a Humanidade), o filme é a adaptação do famoso Uma Tragédia Americana de Theodore Dreiser. Sua estrutura é simplista, explorando ao máximo o personagem de Clift (que ao contrário do que se possa pensar, não é frio e calculista, e sim ingênuo e amedrontado). As cenas de amor entre ele e Taylor são belíssimas, fotografadas de maneira impecável (explorando os closes lindamente). A trama se desenvolve de maneira bem previsível, (com uma inspirada cena de afogamento e um desfecho bastante simbólico), mas a direção de Stevens dá mesmo o tom de tragédia à Um Lugar Ao Sol, um filme que explora o que há de melhor e pior dentro de um mesmo ser humano.
# 41 - 12 HOMENS E UMA SENTENÇA (Sidney Lumet, 1957)
É difícil imaginar que um dos melhores filmes de todos os tempos se passa dentro de uma pequena e abafada sala de júri, em seus 96 minutos de duração. Mas é a mais pura realidade. Sidney Lumet é responsável por uma direção excelente, que se resume em enquadramentos quase perfeitos de seu ambiente restrito e de seus ótimos 12 atores. Contando a história de 12 jurados que têm a missão de julgar a inocência ou a culpa de um rapaz acusado de matar o próprio pai, o filme alcança um nível de suspense delirante – que se desvanece a cada momento, através das importantes revelações feitas pelo personagem de Henry Fonda (o jurado que incute no grupo a dúvida sobre uma possível inocência, quando todos aparentemente estavam certos de que o rapazola matara o pai). O desfecho desta história é impresionante, e nada soa artificial; com argumentos de um homem minimalista e observador, Fonda surpreende. É um dos exemplos de filme que alcança a maestria ao mdo do teatro, com bons atores, bom roteiro (e mais nada).
# 40 – DESENCANTO (David Lean, 1946)
Um simples encontro entre uma dona-de-casa e um médico, ambos casados, numa estação de trem, é o mote central deste que, sem dúvida, é um dos grandes romances já levados ao cinema. Casualmente (por ocasião de um pequeno acidente no olho da mulher), os dois se conhecem e passam a desfrutar das próprias compainhas (que incluem sessões românticas no cinema e passeios no campo), para mais tarde partilharem experiências e perceberem que uma forte paixão começa a se apoderar de ambos. Para a época em que foi lançado (um pós-guerra), Desencanto causou bastante euforia e debate. Traição não era uma coisa bem vista para o cinema da época, mas se engana quem pensa que o propósito era sexual; o roteiro explora a relação do casal (Trevor Howard e Celia Johnson, ambos espetaculares) de maneira delicada e melancólica, dando ênfase na impossibilidade do amor – já que, além de casados, têm filhos. Algumas cenas, como a despedida no trem, são muito emocionantes (e me fizeram chorar). Outro destaque é a estrutura narrativa, disposta de maneira magnífica por flashbacks lineares (palmas para a edição) e a ótima fotografia em preto-e-branco. Um filme de rara beleza e sinceridade, que apesar de tratar de adultério, assunto bastante questionável, prende nossa atenção e nos faz torcer pelo casal protagonista.
# 39 - A NOVIÇA REBELDE (Robert Wise, 1965)
Carregar o título de “filme para toda a família” dá à produção um ar de excesiva inocência – e muitas vezes nos afasta imediatamente da mesma. Garanto que este não é o caso de A Noviça Rebelde, o melhor musical já produzido por Hollywood em todos os tempos. Julie Andrews, famosa (e vencedora do Oscar) por Mary Poppins volta às telas no papel de Maria, uma noviça que apresenta sérias dúvidas sobre sua vocação. Deixando o convento para trabalhar na casa de um oficial austríaco, ela se depara com sete filhos endiabrados, que farã de tudo para tirá-la da função de governanta. Se a história parece repetitiva, saiba que este filme é pioneiro – e tudo o que você já ouviu a respeito certamente surgiu dele. As canções, explicativas e profundamente simpáticas, são um espetáculo sonoro (acentuado por uma fotografia deslumbrante das paisagens da Áustria). Impossível não se apaixonar por “Edelweiss”, “The Sound Of Music”, e a divertidíssima “Do, Re, Mi” – todas cantadas pelo elenco e dispensando recursos de dublagem. Vencedor de 5 importantes Oscar (incluindo película do ano), A Noviça Rebelde é um dos filmes mais puros de Hollywood, que sobreviveu ao tempo e se impõe como uma fábula sobre o amor, a amizade e (sobretudo) a felicidade.
# 38 – TUBARÃO (Steven Spielberg, 1975)
Não importa se o monstro deste clássico não dispunha dos faraônicos recursos digitais da atualidade. Poucas vezes se viu uma criatura tão tenebrosa e sanguinária imperar desta maneira num filme. Steven Spielberg conseguiu, através de sua câmera nervosa, trabalhar magistralmente com o medo do desconhecido. Quem seria capaz de imaginar que um monstro (que mostra apenas a barbatana em boa parte da película) seria capaz de inspirar tanto horror? E pensar que o bicharoco mecânico dava problemas o tempo todo – exigindo frequentes modificações no roteiro. Sem dúvida o filme é um clássico do suspense, uma das tantas produções extraordinárias de Spielberg, e vencedora do Oscar de trilha sonora (com o arrepiante tema principal, composto e conduzido pelo também mestre John Williams). Atenção especial para o ótimo elenco, encabeçado pelo saudoso Roy Scheider (vivendo um policial altruísta e muito simpático), Richard Dreyfuss (como o oceanógrafo hilário, numa de suas melhores performances) e Robert Shaw (encarnando o velho lobo do mar, cheio de manias e espírito de liderança).
# 37 – O PODEROSO CHEFÃO PARTE II (Francis Ford Coppola, 1974)
Ninguém achava que Francis Ford Coppola faria uma continuação à altura do primeiro O Poderoso Chefão, e felizmente, todos estavam redondamente enganados. Aqui, a ascensão de Michael Corleone (Al Pacino, o novo padrinho, após a morte de Vito no primeiro filme) é retratada de maneira espetacular, ao mesmo tempo que flashbacks se interpõe à narrativa para explicar a ascensão da família Corleone na Nova Iorque de início de século. Robert De Niro ganhou um merecido Oscar por sua composição de Vito Corleone jovem, e é dele grande parte da grandeza deste segundo episódio. Coppola utilizou da mesma maneira (excepcional) de dirigir, e recebeu outro Oscar, apenas dois anos depois de arrebatar o primeiro. Além destes prêmios, ganhou também o Oscar de Direção de Arte, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora, além, é claro, o de Melhor Filme do ano (não tão merecido, quando tínhamos Chinatown, mas, sem dúvida alguma, coerente). Nenhuma continuação obteve tal feito, e O Poderoso Chefão pode se orgulhar. Nenhuma trilogia conseguiu ser tão superlativa em 115 anos de cinema.
# 36 - A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (Mike Nichols, 1967)
Quando alguém acaba de receber o diploma universitário (e não vislumbra nenhum rumo exato para sua vida profissional), acaba entregando-se, quando não à depressão, ao ócio. É isto que ocorre com o personagem de Dustin Hoffman neste ótimo A Primeira Noite de Um Homem. Vivendo um recém-formado que recebe uma carga inimaginável de expecativas e responsabilidades, ele acaba encontrando refúgio na figura sensual e atirada de Mrs. Robinson (a saudosa Anne Bancroft), uma mulher casada e quinze anos mais velha. O que começa apenas com encontros sexuais fetichistas(sempre incentivados por ela, farta de sua vida rotineira) acaba se desvanecendo assim que o jovem conhece a filha universitária da mulher (Katherine Ross). Resistindo à tentação de se envolver com a garota (sendo previamente advertido disto pela mãe), Hoffman acaba sucumbindo á paixão. Com um roteiro simples mas profundamente simpático, o filme se impõe como a mais completa de todas as comédias dramáticas de Hollywood, com uma direção excepcional de Mike Nichols (vencedora do Oscar) e atuações intensas de todo o elenco de grandes (e futuras) estrelas.
# 35 - INTERIORES (Woody Allen, 1978)
Woody Allen jamais mostrou tanta maturidade num filme. Acompanhando toda a sorte de dramas que se abate sobre determinada família após a separação dos pais, o diretor/roteirista mais criativo de Hollywood se supera. Abandona absolutamente a comédia (uma de suas marcas registradas) para compor um estudo ambicioso sobre as sensações humanas, que expia dores, ressentimentos e poucas alegrias. O elenco estelar (encabeçado por uma arrasadora Geraldine Page) conta ainda com Diane Keaton, Sam Waterston e Maureen Stapleton. É o filme de Allen que possui maior influência do mestre Ingmar Bergman, surpreendente e incômodo, mas realista e cheio de virtudes. É um dos poucos filmes de Allen assumidamente dramáticos, talvez por isso tenha sido recebido com indiferença pelo Oscar (apesar de bastante celebrado entre a crítica especializada e pelo público do diretor). O tom jocoso e irônico de Allen desaparece, para dar lugar à um imensurável oceano de dores e situações mal-resolvidas (algumas com sinal de que nunca terão uma solução).
# 34 – GRITOS E SUSSURROS (Ingmar Bergman, 1972)
O cinema intimista e perturbador de Ingmar Bergman atinge ótimo nível neste, que sem sombra de dúvidas, é um de seus mais inquietantes filmes. O longa é ambientado numa imponente casa de campo, quando uma mulher gravemente enferma (câncer terminal) recebe a visita de duas irmãs, que mostram-se cientes de seus últimos dias de vida. Amparada por uma empregada fiel, a enferma passa por momentos aterrorizantes (resultantes da doença), mas sua situação deprimente acaba causando um ambiente de retaliações, frustrações, amor e ódio. Este impressionante filme do mestre Bergman é completamente silencioso (sem o uso de nenhuma trilha sonora, pontuada apenas pelo pêndulo insistente de vários relógios), aumentando ainda mais a sensação de incômodo nos espectadores, já que toda a sorte de sentimentos das personagens extravasa da tela e acaba nos atingindo também. Há momentos de imensa criatividade (marcadas por visões aterradoras do medo e da morte), uma fotografia brilhante de Sven Nykvist, e claro, uma direção vibrante e inovadora de Bergman, um cineasta no mínimo curioso.
# 33 - BLOW-UP, DEPOIS DAQUELE BEIJO (Michelangelo Antonioni, 1966)
Talvez eu não seja o maior apreciador do chamado “cinema de arte”, corrente pela qual a Europa foi absolutamente dominada a partir de meados da década de 50. Michelangelo Antonioni é um dos nomes mais associados à este movimento (não tanto como Fellini), e um de seus melhores filmes é Blow-Up – Depois Daquele Beijo. David Hennings interpreta um cidadão inglês assolado pela própria rotina, um homem que há muito não encontra prazer nas tarefas que antes lhe preenchiam o vazio emocional. Fotógrafo profissional, ele se envolve com todo o tipo de mulher, mas seu anseio por algo realmente novo o leva à beira da loucura. É quando, fotografando casualmente um casal no parque (cena que o excita profundamente), recebe, por intermédio da moça, a ordem de entregar o filme. Ele se nega, e após revelar os negativos (precisando ampliá-los significativamente) acredita estar diante de um possível plano de assassinato. Este acontecimento dá um novo ânimo à sua vida e tira-o da fadiga por um certo período. Mas a investigação em si não é o tema central desta curiosa produção. Antonioni jamais se permitiria algo tão simples. Há um profundo e pouco esclarecedor (numa primeira sessão) estudo da mente perturbada e ociosa de Hennings, como se uma pergunta pairasse pelo ar todo o tempo: “como um homem bem-sucedido, assediado e interessante poderia se enveredar de maneira tão alucinada numa investigação aparentemente pífia? Haveria mais verdade por trás da obsessão de Hennings?”. Blow Up é o tipo de cinema que exige revisões (especialmente se alguém quiser dar-lhe resposta). As excelentes presenças de Sarah Miles e Vanessa Redgrave completam o longa.
# 32 - 8 1/2 (Federico Fellini, 1963)
Imagine que você é um diretor de cinema e precisa, a qualquer custo, entregar um novo projeto para o estúdio (cumprindo, assim, um contrato que já vigorava há um bom tempo). Agora, imagine que lhe ocorra, repentinamente, um bloqueio mental e que absolutamente nada surja em sua mente. É essa a encruzilhada que assombra o cineasta Guido (vivido por um dos mais extraordinários atores de todos os tempos, Marcello Mastroianni). Pressionado pela família e pelos superiores, Guido mergulha de cabeça numa espécie de bloqueio mental, que mais parece um parasita incontrolável – a consumir pouco a pouco sua sanidade. Um afastamento temporário do mundo que o rodeia (isolando-se de tudo e todos) faz o homem entrar em contato com diversas passagens de sua vida, e quem sabe, encontrar as respostas de que tanto precisa. O filme é típico de Fellini (que começava uma nova vertente em sua carreira, já consolidada), com imagens surreais, enquadramentos insólitos, visões estarrecedoras sobre o processo criativo. Indispensável para os amantes do cinema – e talvez uma resposta para tantas dúvidas que pairam nas cabeças daqueles envolvidos com o cinema.
# 31 - A AVENTURA (Michelangelo Antonioni, 1960)
Michelangelo Antonioni concebeu, na década de 60, uma trilogia de filmes inspiradas no tédio existencial que assolava a vida da elite italiana. A Aventura (1960) foi o primeiro exemplar, seguido por A Noite e O Eclipse, realizados nos dois anos posteriores. A história conta um episódio incomum na vida de três casais italianos, que se aventuram por uma ilha remota e paradisíaca, situada na Sicília. O que nenhum deles podia imaginar era que Anna, uma das excursionistas, desapareceria misteriosamente. Para quem já se acostumou ao cinema de Antonioni, A Aventura poderá revelar-se como o exemplar mais fascinante já criado pelo cineasta. Como o clássico de Fellini, A Doce Vida, o longa não se ocupa em cumprir regras pré-determinadas. Não oferece uma explicação plausível para o sumiço de Anna, por exemplo (teria ela se suicidado, fugido do grupo deliberadamente, ou mesmo sido raptada?). A situação, na verdade, permite que toda a sorte de relações se abata sobre o grupo – que a certa altura parece mais preocupado em discutir assuntos de cunho sexual do que procurar pela desaparecida. A crítica ao vazio emocional que dominava os ricos é mordaz e não faz concessões. Antonioni ocupa-se, ainda, em explorar a beleza fulgurante de sua atriz favorita, Monica Vitti, algo que se confunde com o encanto entorpecente da ilha mediterrânea (composta por paisagens naturais e construções seculares de tirar o fôlego).
# 30 - SE MEU APARTAMENTO FALASSE (Billy Wilder, 1960)
Jack Lemmon e Shirley Mclaine fazem aqui uma dupla adorável, regida pela câmera intimista de Billy Wilder. Numa época em que adultério não era abordado tão abertamente pelo cinema, Se Meu Apartamento Falasse se destaca (e muito). Não por tratar do tema sem nenhuma hesitação, mas por utilizar de um painel cômico e apaixonante para construir uma poderosa crítica social. Lemmon vive um personagem que se vende aos executivos de sua empresa por qualquer tipo de promoção, emprestando aos mesmos seu apartamento – e facilitando, portanto, uma traição. McLaine é uma das amantes, que, após ser abandonada, decide permanecer por mais tempo no local. Isto permite que ambos se conheçam e troquem experiências (e claro, qualquer um imagina o que vem depois). Não fosse o prestígio de Wilder, talvez o filme fosse apenas outra comédia; mas o estilo provocativo do diretor (que também assina o roteiro) fizeram deste o grande vencedor do Oscar 1960 - uma experiência e tanto para aqueles que gostam de rir e refletir ao mesmo tempo. “Fui elogiado como crítico social”, disse Wilder, “como alguém que tivesse desmascarado o mundo capitalista da mercadoria e dos empregados, onde cada um tinha que se vender. Levantei-me e falei. Disse que aquilo que era mostrado poderia de fato acontecer em toda parte, tanto em Tóquio quanto em Londres, em Paris como em Munique. Só não poderia acontecer numa cidade do mundo, Moscou; porque lá Lemmon não poderia de forma alguma emprestar seu apartamento. Porque três outras famílias ainda morariam com ele ali”.
# 29 – UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)
Se para muitos Um Corpo que Cai é um dos melhores filme de Hitchcock, para mim também é. Talvez por trazer o fabuloso James Stewart (já envelhecido) em um de seus mais densos papéis ou mesmo por envolver na narrativa vários elementos místicos (até mesmo sobrenaturais) de maneira jamais vista em outro filme do mestre (mesmo que Rebecca explore o tema de maneira quase tão genial). Um detetive aposentado sofre de uma terrível vertigem (acentuada por sua fobia incontrolável à altura) e se aposenta da polícia, trabalhando por conta própria. Designado por uma amigo para seguir sua esposa (Kim Novak), que apresenta impulsos suicidas, Stewart é imediatamente envolvido pela história da moça, obcecada por uma antepassada que se atirou de uma ponte em tempos anteriores. O que Stewart não esperava era se encantar pela beleza de Novak, e pior, deixar-se envolver tanto com os fantasmas que a perturbam. Na verdade, a força deste filme está principalmente na obsessão que o detetive cria pela mulher, levando-o a cometer atos impressionantes no futuro - uma mistura de desejo sexual e loucura que o levam às últimas consequências. Perturbador e muito enigmático, Um Corpo que Cai é Alfred Hitchcock em estado puro (e inspirado como nunca).
# 28 - AS VINHAS DA IRA (John Ford, 1940)
Um dos mais eficientes filmes de John Ford, As Vinhas da Ira, adaptado do vencedor do Prêmio Pulitzer homônimo de John Steinbeck, retrata de maneira amarga a crise econômica que se abateu sobre os EUA na década de 1930. Tom Joad (vivido pelo ótimo Henry Fonda) é um presidiário que acaba de receber condicional, e está de volta à sua terra, em Oklahoma. Mas a queda repentina da economia acabou transformando os fazendeiros da região (e de todo o resto do país) em verdadeiros escravos – a mercê da opressão do sistema bancário. Forçado a deixar sua casa, Joad parte com a família para a Califórnia, em busca de oportunidades que permitam o restabelecimento financeiro, e claro, moral. As Vinhas da Ira foi brilhantemente adaptado por Nunnaly Johnson, roteirista que soube como ninguém exibir o painel deprimente que assolava seu país na época, explorando a amargura e a tristeza de milhões de americanos empobrecidos. Cabe aos Joad investir contra a maré de azar – e lutar por mais dignidade, fato este também explorado pelo roteiro, que apesar de tristonho, procura dar alguns fachos de otimismo à nação. O desfecho é belo e simbólico, fechando com chave de ouro este, que sem dúvida, é um dos grandes filmes da magnífica carreira de Ford.
#27 – OS ESQUECIDOS (Luis Buñuel, 1950)
Os Esquecidos começa como um documento das desigualdades sociais que atingem a Cidade do México, em plena década de 1950. Parece absolutamente inaceitável que um diretor de tamanha estranheza como Luis Buñuel (famoso por parcerias, no início da carreira, com o pintor surrealista Salvador Dalí, que resultaram em filmes como A Idade do Ouro e O Cão Andaluz) tenha concebido uma produção voltada à mera exposição da pobreza e da miséria que avassalavam (e ainda atingem) os menos favorecidos. O olhar analítico do diretor, porém, viabilizou um produto que não oferece muitas concessões – e a crueza de Os Esquecidos chocou as plateias e fez alguns críticos acusarem-no de excessivo fatalismo (especialmente por encenar toda a ação com atores que viviam àquela semelhança, nas ruas). O que mais dói, porém, é perceber que o realismo desta película não é datado. Ainda pulsa como retrato de uma sociedade que aparta ricos e pobres, sem prestar condições humanas àqueles que mais precisam. Atenção à inesquecível cena em que o protagonista sonha com seu algoz, a mãe e um enorme pedaço de carne bovina.
# 26 - O BEBÊ DE ROSEMARY (Roman Polanski, 1968)
Há alguns anos não havia absorvido o poder deste ótimo filme de Roman Polanski, mas de um tempo para cá, vi que O Bebê de Rosemary conseguiu atingir a perfeição dentro de sua proposta – incitar o horror explorando o desconhecido. Mia Farrow interpreta uma Rosemary frágil e dependente, que vê a segurança na figura do marido, Guy (Nick Cassavetes). Mas, será que um ator mal-sucedido seria capaz de tudo para atingir o sucesso? Será que não exitaria em vender a alma ao demônio em troca de prestígio? Perguntas como essa assombram a pobre Rosemary por 2h de projeção (muitas vezes sustentadas pela tenebrosa cena do ritual) – e uma paranóia massacrante se apodera de sua mente. O filme atinge a perfeição ao misturar alucinação e realidade, e o trabalho maravilhoso de Roman Polanski se impõe a cada instante. Baseado no best-seller de Ira Levin, o filme é uma curiosa crítica à contracultura americana, e foi lançado numa época em que o satanismo e a perda da fé estavam em moda. O desfecho (ao qual demorei anos a me acostumar) é impactante – e acabou inspirando uma enxurrada de produções baseadas em crianças voltadas para o Mal.
# 25 - QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Billy Wilder, 1959)
Não há nada de ingênuo nesta imperdível comédia do mestre Billy Wilder, onde dois músicos (Jack Lemmon e Tony Curtis) perseguidos por gângsters, se travestem de mulher e passam a integrar uma simpática e sensual banda feminina, liderada pela onipresente e lindíssima Marylin Monroe. A paixão de um dos músicos é imediata, afinal de contas, quem não se apaixonaria por Marylin Monroe, no auge de sua beleza, talento e criatividade? Prepare-se para uma comédia de erros esfuziante, muito à frente de sua época, ferina e cheia de sensualidade. Um dos trabalhos mais brilhantes de Wilder, Quanto Mais Quente Melhor tem ainda I Wanna Be Loved By You, cantada com toda a graça pela protagonista. Outro grande destaque, claro, é Jack Lemmon, que vive os momentos mais engraçados de todo o longa – ele inclusive tem de lidar com o assédio de um milionário depravado - um velho deslumbrado pela juvenilidade das moças da banda, mas que demonstra preferências por aquela mais improvável. Tony Curtis completa o elenco(usando de seu charme e talento para conquistar o público). É considerado pelo AFI como a melhor comédia de todos os tempos, ocupando a posição número 25 entre os melhores filmes americanos.
# 24 - A MALVADA (Joseph L. Manckiewicz, 1950)
Desde que a astuta Eve (a ótima Anne Baxter) vislumbra a famosa atriz Margot Channing (a extraordinária Bette Davis) na porta do teatro, faz de tudo para conquistar sua confiança, tornando-se, dentro de pouco tempo, seu braço direito. O que Margot não esperava era que a sensível e doce Eve que ela conhecera em seu camarim se transformaria numa mulher implacável e oportunista, disposta a tudo para conseguir alcançar seu maior objetivo: transformar-se numa atriz ainda mais famosa que sua mentora. Um filme de roteiro extraordinário, que explora toda a sordidez da alma de Eve, a malvada do título brasileiro. Acompanhada por um inescrupuloso George Sanders (vencedor do Oscar), ela manipula todas as situações à sua volta, para que possa tirar benefício das mesmas (quase sempre às custas de chantagem). O desfecho, irônico e reflexivo, mostra com clareza, que, por trás de atitudes solícitas, existe sempre alguém pronto a trapacear. É uma visão pessimista, mas profundamente realista do show biz. A Malvada é até hoje, um dos recordistas de indicações ao Oscar (14 no total), sendo que arrebatou 6 (incluindo Melhor Filme de 1950). Bette Davis está espetacular, neste que é seu melhor papel – impossível não se envolver pelo comportamento quase bipolar de Margot Channing, uma personagem cheia de nuances, e portanto inesquecível.
# 23 – REDE DE INTRIGAS (Sidney Lumet, 1976)
Sidney Lumet fez de Rede de Intrigas um dos mais curiosos filmes sobre a influência da mídia na sociedade moderna. Ambientado numa rede de televisão, o filme parte da história do âncora Howard Bale (o ótimo Peter Finch), que após ser informado de sua demissão, graças ao baixo índice de audiência, avisa, durante a exibição do programa seguinte, que cometerá suicídio. Tal revelação faz com que a audiência cresça de maneira assustadora, e a ideia de demití-lo vai por água abaixo. Numa busca insana por audiência, a diretora de programação (vivida pela brilhante Faye Dunaway) aposta alto em todo e qualquer evento sensacionalista, ferindo de certo modo o código ético de sua profissão (frequentemente lembrado por seu amante, o diretor de jornalismo William Holden). Ambos mantém um relacionamento extra-conjugal, um dos pontos altos do filme, mas se Rede de Intrigas encontra espaço para falar de amor em meio à tanta sujeirada, o roteirista Paddy Chayefski não se omite à sua principal tentativa, que de fato é abrir os olhos dos espectadores sobre o verdadeiro mundo de interesses e trapaças que há por trás dos bastidores. O filme ganhou 4 Oscar 1976 (tremenda injustiça perder o prêmio de Melhor Filme para o politicamente correto Rocky), e curiosamente é a película preferida de Paul Thomas Anderson (quando eu jurava que ele ia acabar preferindo qualquer coisa do Robert Altman).
# 22 - O LEOPARDO (Luchino Visconti, 1963)
A obra-prima de Luchino Visconti (extraordinário diretor italiano, realizador de Rocco e Seus Irmãos, morto há mais de 30 anos) é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais bem estruturados de toda a história do cinema – com trabalhos de direção de arte, figurino e fotografia atingindo o grau máximo da qualidade e (por que não?) da perfeição. É uma adaptação do best-seller autobiográfico do príncipe Giuseppe Tomasi Di Lampedusa (roteiro redefinido pelo próprio Vischonti, que lhe deu tons auto-biográficos). Retrata a queda da aristocracia feudal italiana, substituída pela nova burguesia surgida com a unificação da Itália liderada por Garibaldi. A presença de Burt Lancaster (como O Leopardo) é notável e icônica, neste que é, com vantagem, o melhor trabalho de atuação de sua bela carreira (Burt viveu o general adúltero de A Um Passo da Eternidade). Há ainda dois atores fabulosos (Alain Delon e Claudia Cardinale, belíssimos), que vivem os representantes das duas castas italianas opostas – que se unem pelo bem de suas famílias, almejando avanços na negociação entre nobres e burgueses. Um filme imperdível e absolutamente inesquecível (na mais ampla acepção da palavra).
#21 – A HORA DO LOBO (Ingmar Bergman, 1968)
Inicialmente Ingmar Bergman faria de A Hora do Lobo um filme caro e monumental – algo completamente distante de sua carreira, calcada por filmes de menor orçamento e conotação puramente dramática. Porém, após um período de convalescença no hospital (e a criação ocasional de Persona), o diretor sueco preferiu transformar aquele filme (que seria intitulado Os Canibais) numa espécie de complemento ao clássico de 1966. Fato é que ambos parecem essenciais dentro da carreira de Bergman – não somente por serem os melhores – mas também pela pertinência dos trabalhos. A Hora do Lobo retrata a busca pela perfeição enquanto artista, e o momento exato em que a vaidade e o egocentrismo dão lugar à insegurança e baixa autoestima – tudo retratado em alegorias visuais aterradoras e sinistras (não por acaso este é considerado seu único filme de terror). Cenas como o encontro do pintor Johan Borg (Max von Sydow) com um garoto à beira da praia, e principalmente a reunião no castelo, onde a mulher Alma (Liv Ullman) o assiste ser humilhado pelos anfitriões, são inesquecíveis.
# 20 - O TESOURO DE SIERRA MADRE (John Huston, 1948)
Na década de 1940, Humphrey Bogart era acostumado a interpretar sujeitos mordazes e inteligentes, sem esquecer jamais da elegância e da sedução. É possível imaginar o tamanho do espanto quando o vemos em O Tesouro de Sierra Madre, obra prima do cineasta John Huston: ele ainda é bêbado, mas jamais esteve tão maltrapilho e ganancioso, incapaz de colocar sentimentos nobres como honra e amor (vide Casablanca) antes de sua febre incontrolável pela riqueza. Aqui, Bogart vive um aventureiro, que parte, junto à dois amigos igualmente gananciosos, em busca de ouro, possivelmente encerrado sobre uma região mexicana montanhosa. O que nenhum deles poderia supor era que, a certa altura da expedição, a ambição desmedida tomaria partido de todos, transformando-os em verdadeiros animais selvagens, prontos a defender seus próprios interesses. O personagem de Bogart parece ser o mais atingido pelo transe (sendo incapaz de perceber quão mesquinhas tem sido suas atitudes); mas a pergunta é: ele conseguirá voltar à realidade outra vez? Um excepcional filme do mestre John Huston, injustamente derrotado no Oscar 1948 (pelo mediano Hamlet), considerado pelo AFI como um dos 100 melhores filmes de todos os tempos.
# 19 – 2001, UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (Stanley Kubrick, 1968)
2001 – Uma Odisséia no Espaço é uma das mais vibrantes ficções científicas de toda a História, à frente de seu tempo não apenas pelo título, mas por abordar assuntos intrigantes (em especial a vulnerabilidade do ser humano sobre um avanço tecnológico sem precedentes). Misturando música clássica com imagens perturbadoras (a abertura do filme, que acompanha um grupos de macacos pré-históricos em suas primeiras descobertas é um exemplo), o filme encanta involuntariamente. O roteiro explora a evolução da Humanidade em milhões de anos de história, até atingir um momento crucial para a raça humana, desenvolvida e transformadora: sinais enviados de um monolito negro dão conta de uma possível civilização extraterrestre, e os astronautas enviados para averiguar o episódio, são aprisionados e escravizados pelo computador HAL 9000 (o cérebro da espaçonave). O desfecho existencial e inconcluso é de um brilhantismo impressionante, permitindo as mais variadas interpretações. Stanley Kubrick, ousado como nunca.
# 18 – CHINATOWN (Roman Polanski, 1974)
A obra-prima de Roman Polanski é ambientada na década de 1930, quando a cidade de Los Angeles sofre os efeitos de um verão infernal (há o desabastecimento da região, graças à seca). J.J. Gittes (interpretado por Jack Nicholson), um detetive especializado em casos de adultério,é procurado por uma misteriosa mulher, Evelyn Mulray para que investigue os passos de seu marido, o chefe do departamento de Águas e Energia da metrópole. O que ele não imaginava era estar sendo engandao, já que a verdadeira Evelyn (Faye Dunaway) lhe é apresentada dias depois. Para completar o caso inacreditável, o marido de Evelyn é encontrado morto dentro da represa da cidade. A partir daí, uma série de acontecimentos intrigantes passa pela tela, revelando segredos impressionantes de todos os personagens envolvidos com o homem assassinado. O título provém do desfecho do filme, já que, segundo o próprio Gittes, ”tudo termina em Chinatown”, o bairro chinês de Los Angeles. Há uma ambientação fabulosa no gênero noir em cada tomada do longa, levando Polanski à sua mais perfeita direção. Os desempenhos de Jack Nicholson, Faye Dunaway e John Huston (que faz o pai de Evelyn) são extraordinárias, e são um dos pontos mais fortes de Chinatown. Outra vertente quase imbatível é o roteiro de Robert Towne (vencedor do Oscar), que trabalha com muito suspense e reviravoltas. O filme foi indicado em outras 10 categorias, mas injustamente não levou nenhuma (sim, o filme é melhor que O Poderoso chefão Parte II).
# 17 - O SILÊNCIO DOS INOCENTES (Johnatan Demme, 1991)
Baseado no best-seller de Thomas Harris, O Silêncio dos Inocentes tornou-se famoso por arrebatar os 5 principais prêmios do Oscar 1991 (filme, direção, ator, atriz e roteiro). Justiça seja feita: este trabalho marcante do ótimo cineasta Johnatan Demme (Filadélfia) não apenas trouxe um dos mais bem-sucedidos vilões dahistória do cinema, como também consolidou-se como o thriller máximo da Hollywood contemporânea. Quando a agente Clarice Starling (Jodie Foster, em sua melhor interpretação) é designada por seu superior (Scott Glenn) para traçar o perfil psicológico do assassino Buffalo Bill, ela não imaginava que seu trabalho exigisse sessões amedrontadoras com o psiquiatra canibal Hannibal Lecter (Anthony Hopkins, numa tour de force). As primeiras entrevistas já demonstram muito do caráter manipulador e peculiar deste perigoso homem, e logo um alucinante jogo de gato e rato se estabelece entre os dois. Com diálogos precisos e envolventes, O Silêncio dos Inocentes foi um dos tantos filmes a marcar época, pela originalidade, pela impressionante entrega do elenco, e claro, pela qualidade insdiscutível dentro de seu gênero.
# 16 – O ILUMINADO (Stanley Kubrick, 1980)
Trabalhando com o sobrenatural de maneira surpreendente, Stanley Kubrick atinge um patamar notável nesta adaptação do romance homônimo de Stephen King. Quando Jack Torrance (Jack Nicholson) recebe a incumbência de passar alguns meses como caseiro do medonho hotel Overlook, na baixa temporada, sua família não imaginava estar prestes a assistir o início de sua insanidade. O filho Danny (vivido pelo expressivo garoto Danny Lloyd) é sensitivo, e através de seu amigo imaginário Tonny, toma noção de que o Overlook é amaldiçoado. Wendy (Shelley Duvall, que reza a lenda ter sido massacrada por Kubrick) é a única que parece estar imune à suposta força sobrenatural do Overlook, transformando-se, ao longo do filme, numa mera vítima do marido enlouquecido. Para mim, o grande mérito de O Iluminado está na dubiedade do roteiro; se Stephen King dava-nos a certeza de que existiam fantasmas soltos pelo hotel, Kubrick deixa esta constatação inconclusa, ficando a cargo de quem assiste formar sua própria opinião. Com cenas memoráveis (vide a abertura, o rio de sangue que brota das paredes, além da panorâmica sobre o labirinto), O Iluminado ainda oferece uma das melhores interpretações da carreira de Nicholson, além de recursos estéticos magníficos e uma excepcional direção do mestre Stanley Kubrick. O melhor de todos os horrores psicológicos.
# 15 - LARANJA MECÂNICA (Stanley Kubrick, 1971)
Laranja Mecânica pode ser considerada a obra-prima de Stanley Kubrick, uma produção fantástica, mais uma vez alicerçada sobre as doenças da mente humana, resultante do terrível efeito colateral provocado pelo próprio meio social que o homem habita. Alex DeLarge (uma composição fantástica de Malcolm McDowell, injustamente esnobada no Oscar) é um jovem problemático e ocioso que leva uma vida calcada na delinquência. Seja invadindo uma casa e estuprando uma mulher indefesa na frente do marido amordaçado (ao som da famosa Singin In The Rain, de Cantando na Chuva) ou atacando uma mulher solitária na calada da noite, Alex se diverte das maneiras mais condenáveis. Capturado pela polícia, porém, é cobaia de um experimento científico que promete a cura da psicopatia através de uma lavagem cerebral. A partir daí, uma reviravolta se estabelece na trama central, permitindo que Kubrick crie uma sátira divertida sobre as engrenagens que movem nossa sociedade.
# 14 – PERSONA (Ingmar Bergman, 1966)
Uma atriz teatral de sucesso sofre uma crise emocional e emudece. Para se recuperar, parte para uma casa de campo, sob os cuidados de uma enfermeira, que admira e tenta compreender a razão de seu silêncio. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional. Persona é um filme repleto de inovações: da impressionante sequência de abertura (com recorrências a aranhas, crucificacão, gestação) à famosa cena em que ocorre a fusão das imagens de Bibi Andersson e Liv Ullman, transformando-se numa só Persona), nada fica preso ao convencional. Estas atrizes entregam desempenhos viscerias, comandadas pela câmera perscrutadora do mestre Ingmar Bergman (que tem aqui sua obra-prima). Persona foi um dos filmes mais discutidos de toda a filmografia de Bergman, talvez sua obra mais profunda e enigmática. Bergman atinge aqui o seu apogeu como diretor e roteirista. De posse de um simples encontro entre duas mulheres (em 90 minutos de projeção), ele narra os anseios humanos com coragem admirável, revelando desejos, fantasias, repulsas e dogmas que permeiam a alma humana. E o melhor: tudo aqui é subjetivo, o que acentua a verossimilhança das situações – neste que é, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes de todos os tempos.
# 13 - PSICOSE (Alfred Hitchcok, 1960)
Não há cinéfilo que não tenha visto a cena mais famosa desta obra-prima de Hitchcock – o mórbido e tenebroso encontro do assassino com sua vítima num banheiro de motel. Pioneiro em todos os sentidos, este celebrado filme de 1960 concentra em si, até hoje, olhares dos mais impressionados. Na época, a palavra assassinato ainda era tratada no cinema de maneira circunstancial e basicamente passional, mas após Psicose, este termo passou a ser associado com problemas psicológicos e desvio de personalidade. Tal atribuição inspirou tudo o que se pode imaginar sobre os serial-killers da década de 1980 e posteriores. Dotado de um suspense atraente e magnificamente orquestrado, Psicose atinge um nível quase insuperável dentro de sua proposição – tudo acentuado pela extarordinária trilha sonora de Bernard Hermann (alguém consegue esquecer o ruído extravagante dos violinos no clímax do filme?). Outro destaque é Anthony Perkins, que domina o filme de ponta a ponta.
# 12 – UMA RUA CHAMADA PECADO (Elia Kazan, 1951)
Marlon Brando eVivien Leigh entregam suas melhores atuações nesta adaptação da obra de Tenesse Williams, dirigida com maestria pelo lendário Elia Kazan. Blanche DuBois é uma mulher frustrada que acaba de perder sua fortuna (em parte consumida pela hipoteca de uma mansão) e está em busca de abrigo na casa da irmã Stella (Kim Hunter). Esperando encontrar o conforto oferecido pela docilidade da irmã mais nova, é surpreendida pela presença do marido da mesma, Stanley Kowalski (gostaria de saber porque Brando não ganhou o Oscar). Bruto e de modos muito selvagens, Stanley parece ser o único a não sucumbir diante do charme de Blanche, já que seu melhor amigo, o solícito Mitch (Karl Malden) se apaixona perdidamente pela mesma. O que todos não sabem é que Blanche guarda uma porção de segredos. Se a peça homônima de Williams, incessantemente interpretada na Broadway fez tanto sucesso, a versão cinematográfica parecia trazer o mesmo resultado. E de fato ele veio. Injustamente preterido do Oscar de Melhor Filme de seu ano (para premiarem o legalzinho Sinfonia de Paris), Uma Rua Chamada Pecado conta com um dos melhores elencos já reunidos num mesmo filme (evidenciado pela premiação conjunta de Hunter, Malden e Leigh no Oscar, com exceção de Brando, que perdeu para Humphrey Bogart injustamente). O ambiente sujo e desordeiro do cortiço é retratado de maneira notável por Elia Kazan, que cuida ainda de explorar a tensão sexual entre os personagens (graças à beleza de Leigh e Brando) e repassá-las ao público. O ritmo é teatral, mas não compromete em momento algum a grandeza deste ótimo filme, o melhor da bela carreira de Kazan.
# 11 - 3 HOMENS EM CONFLITO (Sergio Leone, 1966)
Tradução do original The Good, The Bad and The Ugly, Três Homens em Conflito é que há de melhor no cinema de Sergio Leone, um diretor ousadíssimo que jamais se rendeu ao estilo “americano” de fazer faroeste. Leone sempre trabalhou com uma câmera curiosa em seus filmes, explorando desde panorâmicas deslumbrantes (bem ao estilo de David Lean), e closes minimalistas, que captam toda e qualquer sensação exteriorizada na feição de seus personagens. E quase sempre estas sensações são ruins. Acho que a coragem de Leone em mostrar caubóis desglamurizados é uma de suas mais notáveis características. São homens sujos e mal vestidos, buscando incessantemente afirmação financeira. Não titubeiam em trapaçar, matar, roubar, atirar. O duelo entre os três personagens (o Bom, o Mau e o Feio) é inebriante, com interpretações dignas de louvor de Clint Eastwood, Lee van Cleef e Elli Wallach. O filme, que se concentra na busca insana por um tesouro, tem passagens muito memoráveis, e apresenta ainda uma trilha sonora estupenda de Ennio Morricone (acho que todo mundo sabe de qual estou falando). A saga destes três homens acaba sendo esmuiçada num trajeto de ódio, intolerância, dor, diversão e contemplação. É a máxima de Leone. O melhor de todos os faroestes
# 10 – APOCALYPSE NOW (Francis Ford Coppola, 1979)
“Apocalypse Now é normalmente tratado como um dos melhores filmes já realizados e o maior protesto anti-guerra já posto em celulóide. Isso não é mentira, mas restringi-lo a apenas essa definição chega a ser um sacrilégio. Apocalypse Now é uma jornada psicologicamente devastadora e surreal. É um complexo estudo sobre a dualidade e o conflito existente em cada ser humano. Uma análise pungente e hipnotizante sobre o frágil cordão que divide o nosso lado racional e irracional. É muito mais do que um filme sobre a estupidez da guerra, assumindo a posição de uma profunda reflexão sobre o ser humano e seus limites.” Silvio Pilau, CINEPLAYERS.
# 09 - A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (Peter Bogdanovich, 1971)
“O resultado foi um filme saboroso, um retrato pungente da falta de perspectiva dos jovens que vivem longe dos grandes centros urbanos. Há pelo menos uma dúzia de belos personagens de duas diferentes gerações, e a narrativa contrapõe com inteligência os indivíduos das duas faixas etárias, mostrando o abismo cultural existente entre eles – de um lado, há os jovens cheios de esperanças, como Sonny (Timothy Bottoms) e Duane (Jeff Bridges); do outro, os nostálgicos e desiludidos adultos, como o dono do bar/cinema local, Sam (Ben Johnson), e a mulher do professor de ginástica, Ruth (Cloris Leachman). O filme não diz, mas sugere com firmeza, que o tempo implacável se encarregará de transformar os primeiros nos últimos. No todo, uma obra-prima relativa e injustamente esquecida”. CINEREPORTER.
# 08 – O PODEROSO CHEFÃO (Francis Ford Coppola, 1972)
“Esse é o filme que todos falam. É o filme que todos precisam ver. É o filme que engrandeceu o cinema de uma forma impressionante. É o filme que mostra a competência impressionante de um elenco e mais ainda de um diretor”. Robson Saldanha, PORTAL CINE.
“Não é só Al Pacino. Tem Marlon Brando; a música de Nino Rota; aquela cena final com a porta batendo na cara de uma ingênua Diane Keaton… Muitos cinéfilos que nasceram dos anos 70 para cá consideram O Poderoso Chefão o melhor filme de todos os tempos”. SOCIEDADE BRASILEIRA DOS BLOGUEIROS CINÉFILOS.
# 07 – … E O VENTO LEVOU (Victor Fleming, 1939)
“O filme de Victor Fleming vai muito além dos meros elogios técnicos, visto que seu roteiro é construído de forma muito interessante e contundente, fazendo com que o espectador nem se sinta incomodado com os mais de 240 minutos de duração. Sem falar, é claro, dos memoráveis desempenhos – em especial Vivien Leigh como a inesquecível Scarlett O’Hara”. Matheus Pannebecker, CINEMA E ARGUMENTO.
Mais do que uma obra-prima do cinema norte-americano, …E O Vento Levou é uma prova de todos os elementos que faziam do cinema hollywoodiano a menina dos olhos de cinéfilos em todo o mundo. SOCIEDADE BRASILEIRA DOS BLOGUEIROS CINÉFILOS.
# 06 – QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (Mike Nichols, 1966)
“Mike Nichols teve a inteligência básica de não complicar, e soube fazer um filme totalmente carregado de diálogos ficar interessante e dinâmico. O primoroso trabalho de fotografia do Haskell Wexler também ajudou bastante (…) É possível que seja o conjunto de interpretações mais brilhante a atuar em um filme (…) Quem tem medo de Virginia Woolf? é um filme pesado, agressivo, carregado, que definitivamente não é para todos os gostos. Quem gosta só de filmes levinhos deve ignorá-lo totalmente (…) No final do filme estamos tão cansados e extenuados como os personagens, depois daquela noite terrível… sentimos como se estivésssemos mesmo no meio daquele fogo cruzado de alto nível”. Marcelo Rennó, MOVIELAND.
# 05 – CINEMA PARADISO (Giuseppe Tornatore, 1989)
“Por muito tempo, pensei que sua força dramática só era capaz de atingir o coração de cinéfilos. Não sei se é acima de tudo, mas o filme do diretor italiano Giuseppe Tornatore é uma declaração de amor ao cinema (…) A emoção do filme ganha aspectos universais. Penso que a emoção de Cinema Paradiso pode ser compreendida por quem tem um mínimo de sensibilidade”. Otávio Almeida, HOLLYWOODIANO.
“Com um ambiente único e bem filmado, mostrando-nos nas expressões de cada personagem seus mais fortes sentimentos, Cinema Paradiso é uma ode à vida. O filme conta que a vida somente tem um sentido se temos alguma paixão e amizade para compartilhá-la”. Deivid Cardoso, CINEPLAYERS.
# 04 - O CREPÚSCULO DOS DEUSES (Billy Wilder, 1950)
“Crepúsculo dos Deuses é, antes de tudo, uma crítica ao lado sombrio do ser humano e à indústria cinematográfica hollywoodiana (especialmente ao fato de como ela descarta seu passado rapidamente). O filme é uma lição de como se fazer cinema. Em tela, vemos personagens fracos e moralmente ambíguos, uma direção de arte luxuosa, participação de nomes conhecidíssimos e gravações em ambientes externos reais (e não recriados em estúdio). Com certeza, é um dos melhores filmes produzidos por Billy Wilder e uma obra que rendeu algumas das cenas mais clássicas do cinema”. Kamila Azevedo, CINÉFILA POR NATUREZA, publicado no CINEMATEQUE.
# 03 – A LISTA DE SCHINDLER (Steven Spielberg, 1993)
“O que assusta na história de A Lista de Schindler é saber que ela aconteceu de verdade. Se você está vendo uma das personagens sendo maltratada mesmo tentando fazer o seu melhor, aquela mulher realmente existiu e está no filme. Quando você vê o cruel Amon Goeth pegando o seu rifle e atirando em judeus simplesmente pelo prazer da ação, tudo é agravado ao pensar que ele realmente fez isso: saía em seu cavalo andando pelo meio dos judeus só para fazer sua chacina diária. Não são situações criadas para ilustrar o terror da época, e sim recriações do que alguns sobreviventes contam, do que viram ou viveram na época (…) É um filme definitivo sobre o Holocausto. Um trabalho como esse não altera o passado, mas com certeza pretende impedir que as atrocidades se repitam em um futuro qualquer. O filme é uma combinação de boas interpretações, uma produção invejável e uma história baseada em relatos individuais reais que assustam ao mostrar do que o ser humano é capaz de fazer”. Rodrigo Cunha, CINEPLAYERS.
# 02 – A DOCE VIDA (Federico Fellini, 1960)
A realização de A Doce Vida esteve ameaçada quando o produtor Dino De Laurentis abandonou o projeto por não conseguir emplacar Paul Newman como protagonista. Fellini, porém, bancou Mastroianni, que foi responsável por uma das cenas mais memoráveis da história do cinema, na qual se banha com roupa e tudo na Fontana di Trevi, juntamente com Sylvia, uma atriz hollywoodiana em visita a Roma, interpretada pela sueca Anita Ekberg. Luis Pires, CRANIK.
Provavelmente, não há nada que cause mais desânimo em uma pessoa do que o vazio emocional, intelectual e, até mesmo, espiritual provocado pelo cotidiano da mesma. Por este motivo nos apegamos às mais variadas formas de preencher tal “vazio” a fim de encontrarmos um propósito para seguir com nossas vidas adiante. Mas será que conseguimos preencher tal vazio da maneira correta? Será que o fazemos de modo satisfatório, ou seja, de um modo onde este “buraco” realmente seja preenchido a ponto de não causar mais constantes insatisfações pessoais? Foi baseado nestes questionamentos que Federico Fellini realizou “A Doce Vida”. CINE-PHYLUM.
# 01 – A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (Frank Capra, 1946)
“Esse é o melhor filme já feito não exatamente sobre o Natal, mas sobre o espírito que a data deveria proporcionar nas pessoas. No mundo inteiro. Tudo seria bem mais fácil e feliz se levássemos o filme a sério. É a comprovação do otimismo que marcou a carreira de Frank Capra, diretor de títulos maravilhosos que celebram a bondade que existe nos corações dos homens”. Otávio Almeida, HOLLYWOODIANO.
Com toda essa inocência terna e sincera, A Felicidade Não Se Compra é até hoje um dos mais belos filmes do mundo, pois trata de temas importantes com simplicidade e de maneira tocante sem nunca parecer piegas ou infantil. Seus personagens perfeitos não caem na chatice ou na antipatia, e sim funcionam como o perfeito exemplo de como uma boa pessoa pode ser. Em um mundo capitalista de como era o de 1946, pós-crise de 1929 e o início da reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, devíamos refletir em pleno século XXI sobre o que Capra queria nos dizer naquele tempo, sobre os verdadeiros valores da vida”. Rodrigo Cunha, CINEPLAYERS.












Ual! Que lista maravilhosa. Percebe-se o carinho que vc tem com cada filme citado. Além de ser bem diverso. Parabéns mesmo!
Só quem ama cinema como eu amo, percebe a delicadeza,profundidade e bom gosto dos filmes citados.Belissimo!Impressionante!Parábens!Aprende-se muito com filmes,há filmes que nos proporciona experiência que não experimentariamos em uma existência !
Que lista deliciooosa! Me acabei agora, muitos clássicos, muitos filme que ainda preciso conferir, mas, está de parabéns!
Poucos filmes novos, né?
Concordo com 16 (inclusive o primeiro lugar !), porém acho que os oscarizados foram exagerados – um quarto dos filmes – além de repetição exaustiva de alguns diretores como Hitckcok, Kubrick, Spielberg e Bergman ambos com 5 filmes se contei correto(fora Wilder com 4). Claro é subjetivo e tal, mas eu evito repetir assim quando faço listas, no máximo 2 filmes por diretor, acho que assim a lista fica mais interessante. Porém só vi 64 dos filmes citados então pode ser que nossa compatibilidade aumente.
PEDRO, quando veículos de informação (como revistas, jornais, institutos de cinema e afins) elaboram listas deste tipo, têm mesmo a obrigação de ser bastante representativos; isto porque são vários profissionais que se juntam para elaborá-las, misturando diversos tipos de opinião. Como esta listagem é ESTRITAMENTE pessoal, não sinto obrigação alguma de transformá-la em algo representativo. Ela expressa somente a minha opinião, e de fato ela beneficia alguns diretores. Por acaso os que você citou (Hitchcock, Kubrick, Spielberg, Bergman e Wilder) estão entre meus 10 favoritos. E que bom que concorda com meu primeiro lugar! Espero que veja mais filmes e que nossa compatibilidade aumente.
Ah sim, outro detalhe, a década de 2000 tem excelentes filmes e somente 2 foram lembrados
PEDRO, pois é, eu sou fã incorrigível dos clássicos, sempre tento beneficiá-los em qualquer lista que elaboro.
Parabéns pela lista e pela atenção dada a cada filme. Só uma ressalva: Coppola não recebeu o Oscar de Melhor Direção por O Poderoso Chefão, como está implícito no texto sobre a Parte II. Naquele ano, quem levou o Oscar foi o diretor Bob Fosse, por Cabaret.
Boa noite, adorei a lista.
sei que não é uma área para perguntas, porém, gostaria de saber se com a descrição abaixo você pode me ajudar com o nome do filme:
A historia se passa num futuro onde a sociedade vive num mundo subterraneo e num determinado momento da vida cada pessoa da sociedade precisa se sacrificar.
sei que é muito genérico, mas se puder me ajudar.
Abraço
Lio, o filme que você quer saber é Logan’s Run (Fuga no Século 23). O sacrificio ocorre quando a pessoa completa 30 anos. Ela entra num carrossel achando que será purificada passando para outra vida,mas na verdade elas são mortas para dar lugar a novos bebês que serão criados em laboratórios.
Estes filme são todos de 50 anos atras no minimo por eu quero assistir filme da atualidade não filmes antigos.
AI EU PERGUNTO À QUEM FEZ ESTA LISTA E O FILME ” BEN-HUR ” ONDE FICA ?
Parabéns pela lista, muito boa e compartilho do se ótimo gosto. Só senti falta de Ben-Hur e Star Wars, que fariam parte da minha lista junto com os seus. Eu também os clássicos antigos.
Parabéns pela lista.
Senti falta de Tarantino, em uma lista que consta até “6° Sentido”, deveria ter espaço para “Pulp Fiction”.
Magnólia oliveira
Tremedal-Ba
Eu também gostei da lista, como sou apaixonada por filmes e já assisti milhares deles inclusive possuo mais de dois mil, senti falta de O Pianista,
Uma linda mulher, Filhos do Paraíso, Perdidos no ártico , ah! tem tantos
maravilhosos, Óleo de Lourenzo,