Existem alguns períodos históricos completamente desconhecidos do grande público (talvez mesmo americano) e de quando em quando, o cinema costuma abrir espaço para retratá-los. A rixa política entre Estados Unidos e Irã vem de muitas décadas atrás, e hoje vive apenas mais um capítulo da aparentemente eterna guerra diplomática. Argo, terceiro filme dirigido por Ben Affleck, aborda aquele que talvez seja o primeiro episódio desta batalha, momento em que a revolução islâmica ganhava força nos países do Oriente Médio e houve a deposição de alguns líderes (os xás) nestes locais. Em 1979, o xá iraniano Reza Pahlevi é deposto pelo aiatolá Khomeine, num sinal brusco de mudança de poder. Apoiado pelos Estados Unidos, de quem era aliado, o xá, que outrora oprimia os cidadãos iranianos e agora enfrenta um câncer, recebe asilo na América e enfurece a população de seu país de origem. Conflitos explodem e um efeito imediato é a invasão da embaixada americana na capital Teerã. Cinquenta e dois funcionários são feitos reféns e ameaçados de morte, exceto seis diplomatas, que conseguem escapar do prédio durante a invasão e terminam na casa de um diplomata canadense. Um agente da CIA, Tony Mendez (Ben Affleck, também ator) assume a missão de trazê-los de volta.
Não fosse Argo inspirado em fatos reais (e até pouco tempo completamente camuflados), a sinopse facilmente cairia em descrédito. Na descrição supracitada, o filme parece mais um exemplar do cinema político, que fez raízes profundas na década de 70 (ressuscitando recentemente), mas há um detalhe que transforma a narrativa em puro surrealismo. Tony Mendez precisava infiltrar-se no Irã e recuperar os compatriotas. Não podia levantar suspeitas, senão seriam presos e eventualmente, mortos. As fronteiras estavam rigorosamente vigiadas após a invasão da embaixada. Eis que o agente decide elaborar uma ideia tão fantástica quanto provavelmente falível: passar-se por um produtor de Hollywood que procura locações no deserto iraniano para seu novo filme de ficção científica. O nome? Argo. A equipe? Os seis diplomatas abrigados clandestinamente na casa do embaixador canadense, que como Mendez, precisariam se travestir de profissionais da indústria cinematográfica. Surpreende a ousadia do agente, e surpreende ainda mais que o governo tenha persuadido nomes como John Chambers (lendário maquiador de O Planeta dos Macados, vivido aqui por John Goodman) e um produtor decadente (na interpretação de Alan Arkin), além de um estúdio real, a participar desta empreitada, chamada de “a melhor ideia ruim” que agentes secretos podiam conceber.
Mas não havia outra solução. Após diversas tentativas de criar uma saída mais plausível, os superiores de Mendez se veem na obrigação de corroborar da produção (mais do que nunca) fictícia Argo. A câmera de Ben Affleck acompanha o desenrolar dos fatos que surjem a partir de então, com interesse especial. Como não bastasse o ótimo roteiro de Chris Terrio, que trabalha com diálogos inteligentes (alguns impagáveis pela ironia) e situações muito tensas, a direção se ocupa com a difícil tarefa de envolver o público perante premissa tão absurda. Impressiona como Ben Affleck tem domínio pleno da situação, e imprime fluidez poucas vezes vista no cinema do gênero. A sequência decisiva da película, que se estabelece no aeroporto de Teerã, é nada menos que brilhante – e recorda o trabalho dos melhores diretores do gênero, ao explorar o pânico contido daquele grupo clandestino frente à desconfiança dos oficiais iranianos. É possível sentir o suor dos diplomatas, o incômodo que salta de cada trejeito, rapidamente sufocado. Um momento especialmente inesquecível dentro da ótima narrativa.
Os atores que interpretam os diplomatas estão excelentes, e correspondem à exigência da situação adversa – o espaço dado ao desenvolvimento de suas personalidades é muito breve, mas preciso. O roteiro consegue humanizá-los sem jamais perder o foco central (algo que também ocorre na construção do personagem Tony Mendez). Ben Affleck jamais foi um ator respeitável, colecionando sérios enganos numa carreira bastante expressiva. E se sua atuação em Argo não foi digna de lembrança nos prêmios (exceto na indicação dispensável na categoria melhor ator do Bafta), ao menos Affleck trabalha com inesperada correção e convence muito. Como diretor, é inútil lamentar que o Oscar tenha virado as costas à sua enorme capacidade; pudemos vê-lo vencendo importantes prêmios do circuito, como o DGA, o Globo de Ouro e o Bafta, detalhes que provam sua excelência atrás das câmeras, além de crescimento profissional evidente. Após dois trabalhos muito marcantes (Medo da Verdade e Atração Perigosa), Argo é mais um filme essencial.
NOTA: 8,5









