Quando os indicados ao Oscar foram anunciados, em 10 de janeiro, muito se especulou. Parecíamos estar diante de uma das festas mais imprevisíveis dos últimos anos. E estávamos. Mas ontem, 24 de janeiro, um dos prêmios mais aguardados da História recente do Oscar foi entregue, e tudo terminou de maneira previsível. Sem grandes surpresas, o polêmico esquecimento de Ben Affleck na categoria de melhor direção provou ter sido ou erro de cálculo (antecipação da leitura dos nomeados, sem tempo hábil para copiar os prêmios) ou simplesmente implicância com um profissional que se resdescobriu em Hollywood. Fato é que desde o tapete vermelho, o público estava bastante apreensivo. Teve de acompanhar as atrizes primeiro, desfilando seus vestidos alugados, em pré-shows intermináveis e rigorosamente iguais. Depois, quando Seth McFarlane finalmente assumiu o palco e a cerimônia teve início, as primeiras expectativas foram postas à prova. McFarlane conquistou Hollywood com seu filme irreverente, Ted, mas não correspondeu. Manteve um nível bastante aceitável – cantando e dançando com inesperada correção – porém não empolgou de verdade. Em momento algum.
As primeiras estatuetas foram entregues somente após um longo prólogo musical (este ano a festa homenageou o gênero, pecando na escolha arbitrária dos títulos), onde Charlize Theron e Channing Tatum envolveram o público com um dueto sensacional de dança, seguidos por Daniel Radcliffe e Joseph Gordon-Levitt, mais comedidos e acompanhando Seth McFarlane. Este espaço excessivo para os números musicais (que contou com a reprodução muito fiel de ”All That Jazz”, estrelado por Catherine Zeta-Jones em Chicago, além da reunião paulatina do elenco de Os Miseráveis, que interpretou lindamente músicas como “Suddenly” e “One Day More”) deu muito dinamismo ao Oscar. Incompreensível imaginar que já houveram cerimônias sem nenhum número musical. Foi uma excelente ideia, que precisa ser repetida em próximas edições. Mais música. Erraram feio somente quando ignoraram duas das cinco canções indicadas ao Oscar (“Before My Time” e “Pi’s Lullaby” não foram interpretadas ao vivo). Cristoph Waltz venceu o prêmio de melhor ator coadjuvante, sem merecer a indicação (Leonardo Dicaprio e Samuel L. Jackson estavam claramente superiores em Django Livre) e protagonizou um dos prêmios mais aborrecidos da noite. Em seguida, acompanhamos as vitórias merecidíssimas de As Aventuras de Pi em fotografia (lindo trabalho de Claudio Miranda) e efeitos visuais (com a criação de um universo fantástico, também ornado pela beleza realística do tigre Richard Parker). Valente, o filme mais superestimado da Pixar, arrebatou o prêmio de melhor animação (depois de Detona Ralph! faturar o Annie Awards) e o curta de animação Paperman, dos estúdios Disney, recebeu todo o reconhecimento que merecia.
A primeira surpresa (das pouquíssimas) foi o empate entre A Hora Mais Escura e 007 – Operação Skyfall em edição de som. Aliás, o filme de Bigelow recebeu apenas esta estatueta, sendo que o último filme de James Bond também conquistou o prêmio de melhor canção original (Adele teve um número musical bonito, mas pouco envolvente e se emocionou com a vitória de “Skyfall”). Os Miseráveis foi vencedor na categoria mixagem de som (muitas vezes um contrassenso premiar filmes diferentes nas categorias de som) e também tirou o favoritismo de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada com a láurea de melhor cabelo e maquiagem. Lincoln surpreendeu Anna Karenina e foi eleita a melhor direção de arte de 2012 (num belíssimo trabalho, diga-se de passagem), e o filme de Joe Wright contentou-se com o prêmio de figurino (vitória comum em películas dirigidas pelo britânico). As Aventuras de Pi voltou à cena com Mychael Danna e sua trilha sonora inspiradíssima. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Amor, que conquistara importantíssimas indicações ao Oscar, saiu de Los Angeles com a estatueta de melhor filme estrangeiro. Como atriz coadjuvante, Anne Hathaway. Favorita desde o início, a atriz merecia muito esta vitória e entregou um discurso sincero, de tom muito doce e encantador.
As categorias mais importantes chegaram e Argo, até então apagado, tomou fôlego. William Goldenberg recebeu o prêmio de melhor montagem e logo depois Chris Terrio foi apontado como o vencedor da categoria roteiro adpatado. Foram dois prêmios imprescindíveis para dar algum sentido à láurea suprema que Argo receberia mais tarde, como melhor filme de 2012. Django Livre teve seu roteiro original ovacionado com mais uma estatueta dourada para Quentin Tarantino – e acabou obtendo um bom aproveitamento frente às cinco indicações que recebeu. Quem não sorriu tanto foi a equipe de Lincoln. Dono de 12 indicações e apontado no início do mês passado como o favorito ao prêmio máximo, só viu mesmo, após a vitória da direção de arte, Daniel Day-Lewis subir ao palco. Mas valeu a noite. Meryl Streep sequer abriu o envelope. Fez o ator se emocionar, lhe retribui longo abraço, e sorriu de suas piadas, muito divertidas. Coisas de Daniel Day-Lewis. Chorar e fazer rir ao mesmo tempo, e alcançar um feito único: três Oscar como melhor ator. Sem dúvida ver os dois melhores atores em atividade, juntos, foi o melhor momento da noite.
Jennifer Lawrence foi uma surpresa. Ou talvez não. Vencedora do SAG, a moça fez Jessica Chastain ser retardatária muito antes do dia de ontem. Esperava por uma vitória de Emmanuelle Riva, a ilustre desconhecida de Hollywood, famosa por Hirsohima, Meu Amor e dona de uma atuação magistral em Amor. Jennifer está muito bem em O Lado Bom da Vida, mas não era a melhor atriz da noite. Resultado? Com 22 anos ela tem um Oscar, um tombo desconcertante e o discurso mais anticlimático dos últimos anos (mal se recompôs da queda e já agarrou o microfone, envergonhada, partindo logo depois). Surpresa de verdade foi a vitória de Ang Lee sobre Steven Spielberg, merecidíssima por sinal. Lee trabalhou duro para transformar As Aventuras de Pi na obra de arte que é, e tem mais um homenzinho dourado na estante, ao lado daquele que arrebatou pela ótima direção de O Segredo de Brokeback Mountain. Ben Affleck acabou subindo no palco, mesmo esnobado na categoria de melhor direção – era um dos produtores de Argo. Viu sua obra ganhar o prêmio por mérito, porque de fato Argo é um grande filme. Pena que o Oscar fez tanto barulho com seu esquecimento, sugerindo tomar rumo diferente de todos os prêmios predecessores, mas terminou pulverizando as estatuetas ao invés de consagrar Lincoln ou ainda mais logicamente, As Aventuras de Pi. Ver Affleck fora dos melhores diretores de 2012 mais pareceu um erro de cálculo do que qualquer outra coisa. E o Oscar, mesmo quando dá sinais de que vai surpreender, não sai da zona de conforto. Até 2014.











