A Profecia (1976)

a-profecia-the-omen-1976Histórias sobre possessão demoníaca já estavam em voga quando alguns filmes verdadeiramente seminais surgiram, trazendo agora uma visão onipresente do mesmo mal. Absoluto dentro do gênero, O Bebê de Rosemary foi o mais famoso a abordar a vinda do Anticristo, por meio da consumação sexual entre uma jovem americana e o próprio diabo, num ritual aterrorizante. Mas nenhum outro tratou o assunto com tanto entusiasmo e detalhismo quanto A Profecia, clássico da década de 1970 dirigido por Richard Donner. Sem a sofisticação técnica, mas com o roteiro igualmente bem estruturado do filme de Roman Polanski, A Profecia manteve-se como um exemplar diferenciado exatamente por abrir mão de recursos manjados, típicos de filmes de baixo orçamento, e apostar na força da sugestão. E sugerir que um garotinho de traços harmoniosos, pele macia e bochechas rosadas seja a encarnação do diabo é simplesmente destruir qualquer chance de arrancar sustos gratuitos – algo a se cogitar seriamente, quando produtores almejam sucesso de bilheteria. Dotado de um orçamento irrisório, especialmente para os padrões atuais, A Profecia foi negado por diversos estúdios, até ser aceito pela Fox, que desembolsou cerca de 2,5 milhões de dólares com os custos de produção e quase 6 milhões com a divulgação. Era uma aposta arriscada mas certeira, e desde o início Alan Ladd Jr., representante do estúdio, não tinha nenhuma dúvida do sucesso.

O filme começa com uma visão bastante sentimental sobre a família – a esposa (Lee Remick) de um importante embaixador inglês (Gregory Peck) está prestes a dar a luz em Roma. Infelizmente a criança morre, e com medo da reação da mulher, o embaixador decide adotar um bebê que acabara de ficar órfão no mesmo hospital, de mãe morta no parto. Coincidências existem, mas não se aplicam ao fato; mais tarde saberemos que o trâmite faz parte de um complô liderado por padres romanos, que tencionam dar ao Anticristo uma família de projeção política, para que já cresça ascendendo socialmente. O embaixador e a mulher recebem a criança com carinho e nos primeiros anos a sensação é de paz e completude, reforçada por uma bela faixa da trilha sonora de Jerry Goldsmith. Contudo, assim que completa cinco anos, o menino recebe uma festa de aniversário na mansão dos pais, e assiste impassivamente, junto a uma multidão tomada pelo pânico, ao suicídio de sua babá, por enforcamento. A câmera de Richard Donner pára por um segundo na expressão horripilante de um palhaço (com maquiagem escura) e depois nos olhos de um cão Rottweiler preto, para determinar que a partir dali o tom de A Profecia será outro.

A mãe é a primeira a ser atingida pelo comportamento sutil, mas nefasto, do garoto Damien. Lee Remick assume a obrigação de transformar um amor intenso num repentino estranhamento, logo após a sequência em que leva o filho ao zoológico e é atacada por um grupo de babuínos enfurecidos com a presença do menino. Retornando à casa, ainda precisa lidar com a nova babá (Billie Withelaw), tão enigmática e soturna, que exala terror. Atormentada pela dúvida sobre as tendências malignas do filho (que começa a irritá-la e causar repulsa), enfrenta o descrédito do pai; Gregory Peck continua demonstrando muita afeição pela jovem criatura e só começa a notar algo diferente quando é abordado por um padre ciente do segredo de Damien. Uma série de mortes e de coincidências mórbidas o leva, então, de volta à Itália, para investigar as origens do filho – episódio que culmina numa sequência avassaladora num cemitério etrusco e brilhantemente montado pela direção de arte, capaz de produzir calafrios. Todo o elenco encontra uma forma crível de lidar com os fatos, de modo que suas composições pareçam bastante aceitáveis (sendo algumas, em especial a do garotinho Harvey Stephens, dignas de sinceros aplausos).

Mas é mesmo na estruturação narrativa que A Profecia escancara seu maior trunfo, e ratifica sua capacidade de estabelecer o medo. Não há cenas grotescas ou sustos programados, só uma atmosfera crescente de tensão e incômodo que vai sendo alicerçada pelo desenrolar do excelente roteiro de Bob Munger, que teria até profetizado algumas “maldições” que ocorreriam nos bastidores (detalhes que geraram um breve e curioso documentário). Outro grande aspecto do filme é a magnífica trilha sonora de Jerry Goldsmith, responsável por grande parte do horror entremeado à película; com o auxílio de um coral essencialmente masculino, ele ecoa o canto gregoriano (muito comum em rituais sacros) para exaltar o profano. O grupo, de voz gutural, até altera a ordem de alguns cânticos católicos, para sugerir a lenda de que músicas ao avesso revelam mensagens subliminares, e performa passagens simplesmente arrepiantes, como a faixa de abertura Ave Satani.  Um trabalho inesquecível que rendeu o único Oscar deste filme subestimado pela crítica de sua época, mas justamente transformado num clássico do horror.

NOTA: 9,0      

3 Comentários

Arquivado em Cinema, Clássicos, Críticas

Hitchcock (2012)

hitchAlfred Hitchcock foi um dos cineastas mais complexos da sétima arte, e esta afirmativa pode ser corroborada especialmente por dois aspectos: a carreira propriamente dita e seu comportamento nos sets de filmagem. Considerado apenas um bom diretor comercial no início de sua fase americana, Hitchcock acabou sendo transformado numa espécie de diretor mítico logo após a inesperada adoração da crítica francesa, também especializada em cinema. Diversos anos depois, ainda retumba como um profissional que conseguiu imprimir um estilo único sem necessariamente ignorar o imenso público pagante – o que o elevou a um patamar frequentemente ambicionado pelos colegas de profissão. Já sua obsessão por figuras femininas loiras, magras e de penteados impecáveis revelou o lado quase sádico de um diretor que costumava torturar as atrizes contratadas, em busca de uma perfeição que só ele compreendia.

Assim começou seu encanto por Grace Kelly, a preferida entre as atrizes com este biótipo. Após ser sumariamente abandonado por Grace (que se despediu da parceria de modo arbitrário, casando com o príncipe de Mônaco e deixando a carreira), Hitchcock perdeu sua mais famigerada companhia nas gravações e começou uma busca insana por outra que pudesse preencher imenso vazio. Já ignorado por atrizes do calibre de Ingrid Bergman e Audrey Hepburn (que recusou-lhe um convite considerado irrecusável pelo próprio), ele teve de se contentar com estrelas de menor porte, como Eva Marie-Saint, Janet Leigh e mais tarde, a torturada Tippi Heddren. Hitchcock, o filme que leva o nome do cineasta, dirigido pelo britânico Sacha Gervasi, se lança na tentativa de abordar estes dois lados do gênio, justamente no período em que se preparava para dirigir Psicose.

Baseado num livro biográfico de Stephen Rebello, “Alfred Hitchcock And The Making Of Psycho” o longa ganha muitos pontos ao retratar um momento curioso na vida de Alfred, logo após o sucesso estrondoso de Intriga Internacional. Desafiando a si mesmo e já desiludido pela dificuldade em encontrar loiras perfeitas, ele se aventurou numa seara arriscada e até então inovadora em sua filmografia: o terror. Psicose é um dos primeiros filmes em que não se percebe tão facilmente sua ironia e humor característicos, sendo voltado para um estudo de personagem tão intenso e mais tétrico que aquele da obra-prima Um Corpo que Cai. Nos sets, o diretor (interpretado por Anthony Hopkins) encontrou sérios problemas, vindos especialmente da negativa dos estúdios em financiar o projeto. É um momento que mostra o quão indomável Hitchcock era, assumindo riscos e financiando do próprio bolso aquilo que parecia um engano sem proporções. Um bom diretor comercial, sim, mas também um homem que preferiu a arte ao comodismo.

O filme aborda este e outros problemas, como a conturbada relação que criara com Vera Miles, a irmã da protagonista (atriz que estava sendo preparada para substituir o posto de Grace, engravidou e interrompeu a carreira, deixando o diretor furioso). Vivida por Jessica Biel, Vera é uma coadjuvante essencial na história, porque dá a noção exata de como Hitchcock era obcecado por suas atrizes e não admitia qualquer deslealdade. Muitos associam seu prazer mórbido em vê-las sendo esfaqueadas ou feridas por pássaros justamente porque sentira o peso da traição – frequentemente era preterido por outros projetos, fossem casamentos, gravidezes ou mesmo medo de destruir uma imagem bem construída (como foi o caso de Audrey, que preferiu não aceitar seu convite, levando-o a abortar um projeto).

Esta faceta de Hitchcock está presente no filme, que dá espaço também à Alma Reville (Helen Mirren), sua esposa e companheira de longa data, acostumada com os desejos sexuais reprimidos pelas atrizes com as quais ele trabalhou. Alma, montadora experiente, foi homenageada pelo marido após o lançamento de Psicose, e por algumas vezes o diretor disse publicamente depender dela o sucesso de sua carreira. Fato é que a esposa assume bastante espaço numa narrativa que supostamente deveria abarcar as discrepâncias comportamentais e morais do gênio, e o roteiro abre espaço até mesmo para uma tentativa frustrada de traição por parte de Alma, provocada pelos termos desta obsessão. Se Helen Mirren está pouco convincente e não consegue transmitir os anseios particulares de uma mulher aparentemente formidável, tampouco chega ser ofuscada pela interpretação de Hopkins. O ator, escondido numa maquiagem interessante, mas que não lhe garante grandes semelhanças com Hitchcock, limita-se a reproduzir os trejeitos e eventualmente, a voz. O filme serve somente como documento (ainda que raso) dos bastidores de um dos melhores filmes já feitos por Hollywood.

NOTA: 5,0     

3 Comentários

Arquivado em Cinema, Críticas

Comentando os Vencedores do 85º Oscar (2013)

danielmeryl

Quando os indicados ao Oscar foram anunciados, em 10 de janeiro, muito se especulou. Parecíamos estar diante de uma das festas mais imprevisíveis dos últimos anos. E estávamos. Mas ontem, 24 de janeiro, um dos prêmios mais aguardados da História recente do Oscar foi entregue, e tudo terminou de maneira previsível. Sem grandes surpresas, o polêmico esquecimento de Ben Affleck na categoria de melhor direção provou ter sido ou erro de cálculo (antecipação da leitura dos nomeados, sem tempo hábil para copiar os prêmios) ou simplesmente implicância com um profissional que se resdescobriu em Hollywood. Fato é que desde o tapete vermelho, o público estava bastante apreensivo. Teve de  acompanhar as atrizes primeiro, desfilando seus vestidos alugados, em pré-shows intermináveis e rigorosamente iguais. Depois, quando Seth McFarlane finalmente assumiu o palco e a cerimônia teve início, as primeiras expectativas foram postas à prova. McFarlane conquistou Hollywood com seu filme irreverente, Ted, mas não correspondeu. Manteve um nível bastante aceitável – cantando e dançando com inesperada correção – porém não empolgou de verdade. Em momento algum.

lesmiserbales

As primeiras estatuetas foram entregues somente após um longo prólogo musical (este ano a festa homenageou o gênero, pecando na escolha arbitrária dos títulos), onde Charlize Theron e Channing Tatum envolveram o público com um dueto sensacional de dança, seguidos por Daniel Radcliffe e Joseph Gordon-Levitt, mais comedidos e acompanhando Seth McFarlane. Este espaço excessivo para os números musicais (que contou com a reprodução muito fiel de “All That Jazz”, estrelado por Catherine Zeta-Jones em Chicago, além da reunião paulatina do elenco de Os Miseráveis, que interpretou lindamente músicas como “Suddenly” e “One Day More”) deu muito dinamismo ao Oscar. Incompreensível imaginar que já houveram cerimônias sem nenhum número musical. Foi uma excelente ideia, que precisa ser repetida em próximas edições. Mais música. Erraram feio somente quando ignoraram duas das cinco canções indicadas ao Oscar (“Before My Time” e “Pi’s Lullaby” não foram interpretadas ao vivo). Cristoph Waltz venceu o prêmio de melhor ator coadjuvante, sem merecer a indicação (Leonardo Dicaprio e Samuel L. Jackson estavam claramente superiores em Django Livre) e protagonizou um dos prêmios mais aborrecidos da noite. Em seguida, acompanhamos as vitórias merecidíssimas de As Aventuras de Pi em fotografia (lindo trabalho de Claudio Miranda) e efeitos visuais (com a criação de um universo fantástico, também ornado pela beleza realística do tigre Richard Parker). Valente, o filme mais superestimado da Pixar, arrebatou o prêmio de melhor animação (depois de Detona Ralph! faturar o Annie Awards) e o curta de animação Paperman, dos estúdios Disney, recebeu todo o reconhecimento que merecia.

Daniel Day-Lewis, Jennifer Lawrence, Anne Hathaway, Christoph Waltz

A primeira surpresa (das pouquíssimas) foi o empate entre A Hora Mais Escura e 007 – Operação Skyfall em edição de som. Aliás, o filme de Bigelow recebeu apenas esta estatueta, sendo que o último filme de James Bond também conquistou o prêmio de melhor canção original (Adele teve um número musical bonito, mas pouco envolvente e se emocionou com a vitória de “Skyfall”). Os Miseráveis foi vencedor na categoria mixagem de som (muitas vezes um contrassenso premiar filmes diferentes nas categorias de som) e também tirou o favoritismo de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada com a láurea de melhor cabelo e maquiagem. Lincoln surpreendeu Anna Karenina e foi eleita a melhor direção de arte de 2012 (num belíssimo trabalho, diga-se de passagem), e o filme de Joe Wright contentou-se com o prêmio de figurino (vitória comum em películas dirigidas pelo britânico). As Aventuras de Pi voltou à cena com Mychael Danna e sua trilha sonora inspiradíssima. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Amor, que conquistara importantíssimas indicações ao Oscar, saiu de Los Angeles com a estatueta de melhor filme estrangeiro. Como atriz coadjuvante, Anne Hathaway. Favorita desde o início, a atriz merecia muito esta vitória e entregou um discurso sincero, de tom muito doce e encantador.

anglee

As categorias mais importantes chegaram e Argo, até então apagado, tomou fôlego. William Goldenberg recebeu o prêmio de melhor montagem e logo depois Chris Terrio foi apontado como o vencedor da categoria roteiro adpatado. Foram dois prêmios imprescindíveis para dar algum sentido à láurea suprema que Argo receberia mais tarde, como melhor filme de 2012. Django Livre teve seu roteiro original ovacionado com mais uma estatueta dourada para Quentin Tarantino – e acabou obtendo um bom aproveitamento frente às cinco indicações que recebeu. Quem não sorriu tanto foi a equipe de Lincoln. Dono de 12 indicações e apontado no início do mês passado como o favorito ao prêmio máximo, só viu mesmo, após a vitória da direção de arte, Daniel Day-Lewis subir ao palco. Mas valeu a noite. Meryl Streep sequer abriu o envelope. Fez o ator se emocionar, lhe retribui longo abraço, e sorriu de suas piadas, muito divertidas. Coisas de Daniel Day-Lewis. Chorar e fazer rir ao mesmo tempo, e alcançar um feito único: três Oscar como melhor ator. Sem dúvida ver os dois melhores atores em atividade, juntos, foi o melhor momento da noite.

argo

Jennifer Lawrence foi uma surpresa. Ou talvez não. Vencedora do SAG, a moça fez Jessica Chastain ser retardatária muito antes do dia de ontem. Esperava por uma vitória de Emmanuelle Riva, a ilustre desconhecida de Hollywood, famosa por Hirsohima, Meu Amor e dona de uma atuação magistral em Amor. Jennifer está muito bem em O Lado Bom da Vida, mas não era a melhor atriz da noite. Resultado? Com 22 anos ela tem um Oscar, um tombo desconcertante e o discurso mais anticlimático dos últimos anos (mal se recompôs da queda e já agarrou o microfone, envergonhada, partindo logo depois). Surpresa de verdade foi a vitória de Ang Lee sobre Steven Spielberg, merecidíssima por sinal. Lee trabalhou duro para transformar As Aventuras de Pi na obra de arte que é, e tem mais um homenzinho dourado na estante, ao lado daquele que arrebatou pela ótima direção de O Segredo de Brokeback Mountain. Ben Affleck acabou subindo no palco, mesmo esnobado na categoria de melhor direção – era um dos produtores de Argo. Viu sua obra ganhar o prêmio por mérito, porque de fato Argo é um grande filme. Pena que o Oscar fez tanto barulho com seu esquecimento, sugerindo tomar rumo diferente de todos os prêmios predecessores, mas terminou pulverizando as estatuetas ao invés de consagrar Lincoln ou ainda mais logicamente, As Aventuras de Pi. Ver Affleck fora dos melhores diretores de 2012 mais pareceu um erro de cálculo do que qualquer outra coisa. E o Oscar, mesmo quando dá sinais de que vai surpreender, não sai da zona de conforto. Até 2014.

7 Comentários

Arquivado em Cinema, Oscar